sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

História de Garanhuns


Manoel de Araújo Vilaça (Neco) - Marca o calendário - 14 de fevereiro de 1914. Local: Estação da Great Western. Aproximava-se a hora da chegada do trem proveniente do Recife. Na estação se encontravam inúmeras pessoas a fim de  receberem os amigos e/ou parentes que deviam trazer notícias de familiares e, algumas, certamente com presentes e que dariam informações das últimas "fofocas" da política pernambucana.

Os vagões de trem da Great Western não serviam unicamente para transportes de passageiros. Também eram utilizados com cargas e, inclusive, um destinado ao correio postal e que conduzia além de malas postais, pacotes de jornais e revistas provindas do Recife e Rio, que estavam a invadir o interior nordestino, principalmente, as cidades onde já se editavam semanários e, havia, obviamente os "viciados" na leitura das "folhas".

Garanhuns já entrara na "era de imprensa matuta", pois já tinha história a contar com os seis hebdomadários - "A Pátria', "Garanhuns", "O Sertão", "O Jornal" e outros de "raia curta" a registrarem fatos cotidianos de sua vida citadina.

Ao longe, ouve-se o apito da "Maria Fumaça" e a gente sabe que, naquele momento, ela está atravessando a última curva a fim de pegar a reta final. Mais alguns minutos, ei-la que se aproxima, resfolegando e, para.

Há entre os presentes na estação, aquele alvoroço natural de quem espera e, não falta alguém e gritar: estamos aqui, fulano... Neste "mundo de gente" um rapaz dirigindo-se ao mensageiro do carro-postal, pede a sua encomenda: jornais e revistas. Era a "Província", o "Diário de Pernambuco", o "Jornal do recife", e revistas do Rio que estavam a chegar na Cidade Serrana. O rapaz era conhecido por "Neco",  de nome Manoel de Araújo Vilaça. Ele iniciava uma longa trajetória de "gazeteiro", depois distribuidor de jornais e revistas. Conheci-o, acredito, nos idos de 1930, quando no roteiro de minha casa para o Ginásio de passar defronte a sua  tenda de trabalho, na Avenida 13 de Maio. Esta constava de uma  pequena sala, junto da barbearia de Ribeiro, pai de Carlos Bomba. Neco era entusiasta do futebol, atuando na ponta esquerda. Fez parte da diretoria do "Iris". Era um "brutamonte" quando da posse da bola. Canela dura mesmo. No jornalismo foi gerente de "O Combate".

Éramos fregueses do "Tico-Tico", "A Careta", "Eu sei Tudo", quando o dinheiro dava. Ou então ia para o fiado. Tinha crédito, pois o minguado ordenado até que "permitia o desejo de comprar livros" e, além de tudo, com "permanente" nos cinemas - filho de jornalista, não tinha que gastar a "nota" para ver os faroestes. Era somente, enfrentar o Santino, porteiro, que já nos conhecia e nunca opôs nenhum obstáculo. Sisudo, de cara fechada, Santino não deixava transparecer um coração bondoso. Em certa oportunidade o "fiado" foi mais  substancioso. Dinheiro para comprar uma bola de couro. Os responsáveis pelo empréstimo - Eu e o Antônio Valença. Neco não teve dúvidas em arranjar a "gaita". Saiu os cinquenta mil réis para a "redonda". Saldamos o compromisso dentro do prazo estipulado.

Neco, simples na sua conversa, sem "muitas letras", no seu viver cotidiano, era figura de "acendedor de lampiões" de que nos fala o poeta, "lembrado somente, quando por motivos superiores não ia acender as lâmpadas da rua". Trazendo para Garanhuns os jornais da Capital e as revistas que se  publicavam na Metrópole da Federação - Contribuiu com a sua pequena parcela de trabalho, para que a mocidade de  então e toda uma continuidade se beneficiasse, pois, eram os  fatos do dia-a-dia, a literatura, a política, que aqui chegavam na hora aprazada. Morreu, como viveu, pobre, no Recife, em casa de uma irmã. casado não deixou família.

Alberto da Silva Rêgo / Os Aldeões de Garanhuns / Coleção Tempo Municipal - 10 / Centro de Estudos de História Municipal / 1987.

Foto: Antiga Estação Ferroviária de Garanhuns na década de 1920.

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