domingo, 13 de fevereiro de 2022

Ivo Amaral um oitentão

Por Marcílio Reinaux*

Ivo Tino do Amaral é de uma geração de boa cepa, nascido nestes agrestes, pelos idos de 1934. Portanto até agora, mercê divina, "amealhou" 88 anos. Como eu, Ivo um oitentão.

Eu não sou homem público, como Ivo. Mas sou de notória amizade com ele, a qual mantenho com muito carinho desde muito, quando da primeira gestão como Chefe do Poder Executivo de Garanhuns. Ele prefeito meu deu tarefas e crédito de confiança e eu o ajudei no Centenário da nossa querida Garanhuns. A ele deve-se o Festival de Inverno de Garanhuns. Estávamos também junto nas origens do evento, ideia nossa, conjunta. Afeiçoei-me a Ivo pelo trato cavalheiresco e respeitoso, que ele me concedeu e que costuma conceder às pessoas. Assim nutro de forma especial para com ele uma permanente amizade e profunda admiração, pelas suas virtudes e qualidades. Seus méritos, sua capacidade, sua competência e profissionalismo cativam a todos que dele se aproximam. Há nele um contingente de amigos os quais ele os conserva, sejam aqueles aqui por perto dentro dos arraiais de Garanhuns, ou aqueles mais distantes por onde tem andado, em sua profícua vida de político, no solo da pernambucanidade.

Como eu, Ivo nasceu antes da vacina Sabin, da penicilina, da comida congelada, do colchão  de molas, da fralda descartável. Antes das sandálias havaianas. Tínhamos os tamancos da feira. Ele nasceu antes da xerox, do plástico, das lentes de contato e bem antes das pílulas anticoncepcionais. Com Ivo ainda menino, na década de 1940 e seguintes, vivia-se uma época de grande respeito à família. Não tínhamos televisão deseducando e corrompendo crianças e adolescentes. Não havia o radar, nem cartões de crédito, nem raio laser. A bomba atômica chegou na Segunda Guerra Mundial, aterrorizando o mundo. Até algumas coisas simples não existiam, como por exemplo a caneta esferográfica. Ivo e eu escrevíamos com uma pena metálica molhada em um tinteiro e que logo escarrapichava. Os automóveis eram vagarosos. Garanhuns era uma cidade pacata. As pessoas se cumprimentavam. 

Hoje Ivo tem na sua casa muitas máquinas modernas. Mas na sua adolescência não havia máquinas de lavar roupa, de lavar pratos, secadoras, liquidificador, torradeira, ar condicionado. Não havia o celular tucanando a vida. Ivo Amaral nasceu antes mesmo da fascinante aventura do homem ter rasgado os espaços siderais e pousado  seus pés na lua. Viagens espaciais, ele só viu nos filmes e seriados de Flash Gordon - herói dos meninos - em um fantástico mundo de ficções, nos desenhos de Alex Raymond.

Na adolescência, meninos e rapazes, do "tope" de Ivo, os mais ricos, tinham bicicletas só de marcas importadas como a Rayleigh (inglesa), Uskwarna (sueca) e a Philips (americana). Todas elas  "triscando" no Parque dos Eucaliptos (Euclides Dourado). Não existiam naquele tempo brinquedos como videogame, skate, prancha, computador. E tenho a nítida impressão que o menino Ivo Amaral brincava com carrinhos de madeira com roda de rolamento, que se chamavam rolimã. Havia ainda o patinete, a bola de gude (os meninos chamavam chimbre), o pião, o jogo de botão feito com quenga de coco e de chifre de boi. Ou ainda o animado jogo com bola de meia, no meio das ruas de terra.

Ivo Amaral ainda rapazinho namorava sob as vistas discretas dos pais da moça. Não havia discoteca, casas noturnas, embalo. Expressões como:  "ficar", "tô na tua", "tais na minha", eram inexistentes até então... Uma radiola de vinil tocava dolentemente, animado a moçada com boleros, canções e músicas das orquestras internacionais de Xavier Cugat, Tommy Dorsey ou Green Miller. Para completar tomava-se um dito "coquetel" feito de groselha.

Ivo Amaral e eu estudamos no Ginásio Diocesano. Monsenhor Adelmar, de olhar sereno e disciplina severa, ensinou a mim e Ivo a sermos homens de caráter. As professoras Almira, Anita da Mota Valença, Nísia Caldas e outras eram chamadas de professoras mesmo. Não havia essa mesmice de "tia". As notas vermelhas no boletim, davam aos nossos pais, motivo de correção e ajuste nos estudos do "cabra". É bem-de-ver que no Ginásio o amigo Ivo Amaral teve uma salutar educação escolar pela dedicação e comprovada competência e responsabilidade do ensino sério sob as vistas da Diocese de Garanhuns. Ensinaram e ele aprendeu a ter as responsabilidades com a sociedade, aplicando-as na sua vida de homem público. Aprendeu a ter compromissos com a família, com o trabalho e  a sociedade. Esta é uma das muitas qualidades de Ivo que esteve sempre presente na sua vida pública como deputado e prefeito de Garanhuns por dois mandatos. Nesse cadinho de formação sociocultural e nessa linha de integridade e responsabilidade, foram moldadas as linhas da lhaneza do cidadão comum e consolidado o perfil da sua personalidade de homem público.

A você Ivo Amaral, um oitentão, meus parabéns e muitas felicidades.

* Marcílio Reinaux é Cerimonialista, escritor, historiador, pintor e jornalista.

Foto: Ivo Amaral recebe homenagem da Assembleia Legislativa de Pernambuco em 2019.

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