sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Primeiro automóvel em Garanhuns


Um dia surge o primeiro automóvel em Garanhuns. Foi uma festa, uma demonstração de que o progresso - palavra mágica e salvadora que a todos impunha respeito e veneração - estava chegando ali, dando ao burgo serrano um toque de civilização.

O Diário registra: "No dia 10 do mês corrente, às 7.30 horas foi anunciada, por um foguetão a aproximação dos automóveis do Sr. Cel. Delmiro Gouveia, os quais realizaram a inauguração da estrada carroçável que liga este município ao do Bom Conselho e que acaba de ser construído por aquele operoso industrial, com o auxílio do governo do Estado. Essa estrada se estende ainda de Bom Conselho ao município de  Pedra, no Estado de Alagoas, cujas relações com o nosso são assim favorecidas. À chegada dos autos foram queimados foguetes, estando caprichosamente enfeitada a entrada da cidade no lado da estrada. Os excursionistas que eram os Srs. Delmiro Gouveia, Cel. Vicente Dantas e Dr. João Eulálio da Fonseca e Silva e aos quais se juntaram em Santana do Ipanema, os Srs. coronéis Cleurindo de Amorim e Manoel Vieira Nunes e, em Bom Conselho, o Sr. Cel. José Abílio de Albuquerque Ávila. Pararam em frente ao Hotel Motta. Ali os aguardavam os Srs. Padre Dr. Benígno Lira, vigário da freguesia; Drs. João Pedro de Abreu e Lima e João Barroso de Melo, Juízes de Direito e Municipal da Comarca; Cel. Júlio Brasileiro, deputado estadual e chefe político local; Dr. Antônio Borba Júnior, representante do Dr. Rocha Carvalho; Cap. Tomás Maia; Vicente Dantas Filho, coletor federal; Ten. Meira Lima, delegado de polícia e outras pessoas gradas. Em seguida, dirigiram-se os excursionistas para o Hotel Avenida, onde lhes estavam preparados cômodos. Após ligeiro descanso, voltaram porém ao Hotel Motta acompanhados do Cel.  Ismael Brandão, Vicente Dantas Filho, o Ten. Meira Lima, a fim de tomar parte no jantar aos mesmos oferecido em nome dos habitantes de Garanhuns. Convidados não compareceram, escusando-se e agradecendo os Srs. Cel. José Ferreira Leal, Cel. Manoel Jardim, Cel. Hemetério Souto. O Sr. Cel. Vieira dos Santos, prefeito municipal, esteve após o jantar no Hotel Motta a fim de cumprimentar o Cel. Delmiro Gouveia. Ao  champanha falou e Revmo. Pe. Benígno, oferecendo o jantar ao Cel. Delmiro Gouveia em nome do povo de Garanhuns. Este respondeu agradecendo. Por último usou da palavra o Sr. Dr. Abreu e Lima que ergueu uma saudação ao Exmo. Sr. Dr. Manoel Borba, governador do Estado, a quem se deve em grande parte a efetivação do importante melhoramento. Terminado o ágape, o Sr. Cel. Delmiro fez um passeio pela cidade. O conhecido industrial, encantado com o ameníssimo clima desta cidade, resolveu construir aqui um palacete e fim de passar temporadas, já tendo, para isto, mandado adquirir os necessários terrenos. A viagem de Pedra a esta cidade, numa  distância de 60 léguas, será feita, no máximo em 8 horas. Essa primeira viagem porém, demorou mais tempo em vista de haver a comitiva ficado três horas em Bom Conselho, onde o Cel. Delmiro recebeu uma brilhante manifestação, além do atraso de mais quatro horas enquanto se procedia reparos num automóvel que fora de encontro a outro. Tendo saído de Pedra às 2 horas, o Cel. Delmiro contava chegar aqui pela manhã. O contratante dos serviços de construção da estrada foi o conhecido empreiteiro e industrial Sr. Cel. Vicente Dantas. Esse estimável cavalheiro teve já a glória de entrar nesta cidade com a primeira locomotiva e agora acaba de dirigir a viagem dos primeiros automóveis vindos a esta cidade". (Diário de Pernambuco - 19/08/1916).

Mas nem todos tinham motivo de regozijo com a estrada e o automóvel. Poucos dias depois, a imprensa tornou a tratar do assunto, transcrevendo uma nota de Garanhuns datada de 4 de setembro: "Vindo em automóvel, de Pedra (...) embarcou para o Recife o Sr. Leonildo Iona, sócio do Sr. Cel. Delmiro Gouveia. Em sua companhia viajou sua Exma. Senhora D. Maria Augusta. Ambos aqui chegaram assaz incomodados devido aos grandes abalos do automóvel que, além disso, em seu percurso tem de subir ou descer ladeiras de 25 a 30% perigando assim a vida dos viajantes. Os próprios autos têm geralmente os bronzes queimados e rebentados os  breques e pneumáticos".

O episódio irritou Delmiro Gouveia, partidário entusiástico de tudo significasse progresso e desenvolvimento. Publicou então o seguinte: "Pedra - 9. Ultimamente fiz em  6 horas e 50 minutos a viagem, em automóvel, dos 50 quilômetros que conta a estrada daqui para Garanhuns. Os nossos carros têm feito do dia 23 de agosto para cá  quatorze viagens.  Nenhum pneumático se rompeu, nem câmara de ar, o que, se  ocorresse não seria estranhável. Ignoro se as rampas sobem 40, 50 ou 60%, o que garanto é que os nosso autos fazem as viagens perfeitamente bem, sendo que um "Fiat", de 25 cavalos de força, a realizou com sobrecarga, pois levava cinco passageiros, entre os quais o Cel. Alfredo Duarte, que pesa por dois. Risco de vida em qualquer estrada e em quaisquer autos, mesmo no asfalto. O aquecimento dos "breks" é natural e os carros destinados e tais excursões têm depósito de água para resfriamento dos freios. O aquecimento dos bronzes nos automóveis nada tem com as estradas que eles percorrem; é devido ao mau funcionamento das bombas de óleo. É natural que se fatiguem, seja qual for a estrada, os passageiros de uma viagem de 7 ou 8 horas, em automóvel. Penso ter assim respondido a uma carta publicada nesta folha a respeito da estrada de automóveis daqui para Garanhuns. O missivista crítico, aliás, esqueceu-se de dizer que no caminho precisamos tomar gasolina, deitar água no radiador e parar para verificar se tudo está em ordem, etc. - Delmiro Gouveia" (Diário de Pernambuco 11/09/1916).

A ira de Delmiro Gouveia às críticas à sua estrada parece ter atemorizado Lionelo Ionha, o qual, com muitas escusas, respondeu o seguinte: "Sr. Redator do Diário de Pernambuco - tendo lido em seu apreciável jornal de 6 do corrente, numa notícia de Garanhuns, referências à viagem em automóvel que, em companhia de minha esposa, fiz da Pedra até Garanhuns, permita-me dirigir a V. S. a presente, a fim  de retificar dita notícia na parte que me diz respeito. Não é procedente quando alega o missivista de termos chegados "incomodados pelos socalavancos", pois fizemos ótima viagem,  chegamos tão bem dispostos que logo depois de tomarmos ligeira refeição no "Hotel Avenida", onde nos hospedamos, saímos a passeio pelas ruas da cidade, visitando alguns amigos, o que  não se daria se de fato tivéssemos chegados incomodados pela viagem feita, especialmente em se tratando de uma senhora. também o nosso automóvel chegou em perfeito estado, sem que durante o longo percurso tivéssemos a registrar o menor incidente. Com a publicação do presente muito obsequiará quem se assina de V. S.., etc. - Lionelo Iona''.

O primeiro automóvel chegou a Garanhuns em 10 de agosto de 1916. No mês seguinte, para a festa de Santa Quitéria de Freixeiras, já havia um carro de aluguel, o de Paulo André, que deve ter sido o primeiro motorista profissional da cidade. O Diário de Pernambuco, de 14 de setembro de 1916, registra o fato: "As festas de Santa Quitéria de Freixeiras, a 2 léguas daqui, foram concorridíssimas. Todos os dias para ali afluíram centenas de pessoas, a pé, a  cavalo, a carro de boi e automóvel. O automóvel do Sr. Paulo André, no último dia da festa, deu 10 viagens tão carregado que teve de passar por um reparo para poder ir a Bom Conselho. A estrada de rodagem para essa cidade, já se acha melhorada com os reparos feitos pelo empreiteiro Manoel Dantas". (Fonte: Anatomia de uma Tragédia - A Hecatombe de Garanhuns / Mário Márcio A. Santos / 1992).

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