segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O Seresteiro de Garanhuns - 66 anos da morte de Augusto Calheiros

Na última terça-feira, 11 de janeiro, lembramos os 66 anos da morte do cantor e compositor Augusto Calheiros. O alagoano Augusto Calheiros (foto) nasceu em Murici, na Rua do Cajueiro, no dia 5 de junho de 1891. Chegou em Garanhuns ainda rapaz, por volta de 1912 e de pronto apaixonou-se por nossa cidade, e sua garoa penetrada pela luz do luar, numa  época em que serenatas era uma das melhores diversões. Unindo-se a outros tantos famosos desta terra, tal qual o sargento Matoso, Júlio Lucena, Luiz Patrão, Odilon Lopes de Lima, Ernesto Brasil e Luís Correia Brasil para percorrer as ruas nas fases do crescente ao minguante da lua, sendo seguidos por admiradores.

Rapaz humilde, sem muita cultura, começou sua vida nesta cidade como sapateiro e amante das melodias da saudade, formando um círculo de amizade que  compensou a solidão de qualquer pessoa, fora do seu torrão natal, sem parentes ao seu lado. Conforme  o pensamento do advogado José Francisco de Souza, que ainda menino o acompanhava nas  noites de serestas, a nossa "Patativa",  era do tipo "arrumadinho" que primava pela elegância tanto de suas vestes como de sua voz, despertando a paixão da "senhorinha" Esther, prima de Luís Correia Brasil, com quem veio casar-se anos mais tarde. De dia trabalhando com a sola de sapatos alheios e de noite reunido com grupos nas esquinas ou em meio às ruas em frente às residências das beldades do tempo. Calheiros com sua simplicidade, através do amigo e também seresteiro-tocador de violão, Luís Correia Brasil, galgou uma profissão melhor, quando lhe foi oferecido um cargo como carcereiro da cadeia pública, o que lhe dava mais tempo para dedicar-se à música e à vida boêmia que tanto lhe fascinavam. A este respeito, o comerciante garanhuense por Manoel Gouveia afirmou que Calheiros não nasceu para  outra coisa, senão para cantar e deixar à vontade seu espírito de homem da noite e da boêmia, transmudar-se na poesia das melodias que cantava e identificava-se, como por exemplo, diante das paixões contidas nas letras de Catulo da Paixão Cearense, Cesar Cruz, Jararaca, João de Barros e a sina de "Mané Fogueteiro" entre tantos outros, que encontravam em Calheiros a perfeição de letra, música e voz em harmonia.

AMOR, SAUDADE E O BREJEIRO NAS CANÇÕES DE CALHEIROS

Embora tivesse sido um homem desprovido de maiores conhecimentos culturais Calheiros comprovou mais uma vez que a alma do poeta é eternamente alfabetizada e que o intelectual é nato por si só, através das poucas composições que fez, como acontece com "Bela": 

"O teu beijo tem o perfume de açucena transformada em amor e carinho conservou em mim calmo e sereno sofrendo seguirei o meu caminho..." cujo pequeno trecho demonstra o lado mágico do amor que dedica à mulher querida. A saudade também foi marca constante na vida artística e musical de Calheiros, sentida nestes versos da valsa "Sonho de Ilusões":

"A flor que eu mais amava

há muito emurcheceu

Meu sonho de ilusões

Como essa flor já feneceu

meu coração coitado

em plena nostalgia

só vive de saudade

jamais terá momentos de alegrias..."

Também havia na "Patativa do Norte", o jeito brejeiro do malandro sertanejo, com linguajar característico e aquele toque de gozação, como vemos em  "Adeus Pilar":

"Eu andei de leo em leo

e desci de gaio em gaio

Jota já quera o não quera

eu não gosto é de trabalho

por três coisas eu sou perdido

muié, cavalo e baraio...

Porém foi como cantor que Augusto  Calheiros consagrou-se, utilizando uma  voz que dava um quê especial às músicas de autores como René Bittencourt "Senhor da Floresta e Garoto de Rua", Portela Júnior e Jota Portela "30 Minutos de Felicidade", Ataulfo Alves "Caboclo de Raça", Erotides de Campos e Jonas Neves "Ave Maria", e tantos outros, em que  a beleza de suas composições era reforçada por sua voz de veículo.

O INÍCIO DE UMA CARREIRA BRILHANTE

Lendas existem para explicar a saída de Calheiros de Garanhuns para o Recife e depois ao Sul do País, onde consolidou sua opção pelo canto. Uma delas, refere-se a sua separação de Esther - sua esposa -, em decorrência da continuidade de sua vida boêmia, mesmo depois de casado.  A partir deste  acontecido, Calheiros resolveu seguir para o  Recife e juntar-se aos "Turunas da Mauricéia", fazendo shows que tinham como entrada a apresentação do grupo em ritmo musical, afinal de contas sua esposa real era a música, só regressando a Garanhuns, em 1951 por conta da inauguração da Rádio Difusora, momento em que arrancou aplausos frenéticos, cantando "Grande Mágoa". Dissolvido o grupo, "A Patativa do Norte", que tanto encantou as ruas e noites garanhuenses como também os intervalos e finais das  peças acontecidas no Grêmio Polimático, segue para o Sul, onde começa a gravar e conhecer o gosto do sucesso profissional, interrompido somente depois de sua morte.

Washington Medeiros canta "Saudade do Meu Norte" samba canção de Augusto Calheiros e Arthur Goulart com Augusto Calheiros acompanhado por Orquestra em disco Todamérica TA-5279 B (matriz TA-404). Gravado em 22.01.1953 e lançado em fevereiro de 1953.

O DESEJO DO REGRESSSO

Mesmo afastado da terra adotada como mãe, Augusto Calheiros permaneceu com o sentimento arraigado de saudade e o desejo de um dia regressar e permanecer em Garanhuns, e embora as madrugadas não fossem as mesmas, queria retornar ao tempo em que ficava nas esquinas saboreando canções como "Vertigem", composta pelo homem político, literato e músico nas horas de lazer, Luís Correia Brasil.

Porém este sonho realizou-se somente depois de falecido, quando Washington Medeiros, concretizou seu desejo confesso a Frederico Moraes Júnior antes de morrer, afirmando que mesmo distante morreria pensando em Garanhuns, promovendo um movimento para trasladar seus  restos mortais para Garanhuns, onde descansa no Cemitério São Miguel. Mas, se Calheiros em sua composição, com parceria de Artur Goulart, dava adeus ao meu "norte querido" em "Saudade do Meu Norte", despedindo-se de "Garanhuns hospitaleira / Terra onde eu vivi / Adeus cidade nortista / Garanhuns e Boa Vista / Foi aonde me criei"... Não seu quando voltarei". Na realidade voltou aos 16 de agosto de 1958 e continuou, como que  alcançar a esperança contida nos últimos versos da canção:

"Ainda espero

quem espera sempre alcança

Tenho muita esperança

ao meu Garanhuns voltar

quando me lembro do sertão daquela terra

Lá do alto do Magano

Tenho vontade de chorar".

Esta vontade ele não mais sentirá, vez que encontra-se na terra-mãe.

Calheiros, apesar da solidariedade recebida, veio a falecer em 11 de janeiro de 1956, no Rio de Janeiro, vítima de falência múltipla dos órgãos, motivado por diabetes. 

Fonte: Texto transcrito do jornal O Monitor de 16 de Agosto de 1986 

Durante muito anos houve dúvida sobre o seu local de nascimento. Parte dela criada pelo próprio Augusto Calheiros, que em entrevista ao jornalista Wilson Quintas, publicada na Revista Carioca em 1940, declarou que nasceu em Maceió no dia 5 de agosto de 1891.

Independente da origem, com nove anos morava em Maceió e perdeu o pai, o que levou a família a enfrentar dificuldades.

Fonte: https://www.historiadealagoas.com.br/augusto-calheiros-o-patativa-do-norte.html

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