sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A antiga rua do Recife em Garanhuns


Marcílio Reinaux*

A Rua do Recife, era e sempre foi a minha rua de meu tempo de menino. Depois de ter nascido lá na 13 de Maio, a família foi morar, em algum lugar que não me recordo, depois na Rua Dr. José Mariano, (a Rua do Recife). Rua bonita, agradável a todos vizinhos amigos e bem conhecidos. Em frente a minha casa, três casarões de arquitetura colonialista,  marcavam - como um belo cartão postal - a Rua do Recife. Apelidada assim, porque  era a rua direta que dava saída para outras cidades e claro para o Recife. Por ela também passavam os ônibus da Empresa João Tude de Melo, seguindo para a capital. Ônibus com bagageiro na capota, com um "calunga" a carregar e descarregar as malas e pacotes dos passageiros. A saída do ônibus, também chamado de "Sopa", não era muito percebida, até porque ele passava na rua com o sol ainda por nascer. Mas a chegada no final da tardinha, sua passagem era muito festejada, por que todos viam quem "chegava do Recife", com pouca ou muita bagagem e diziam: "Eita! Dona Duda (a costureira) chegou do Recife cheia de  malotes!".

Um dia a "Sopa" chegou e trazia no bagageiro uma reluzente bicicleta. Linda, era de menino. Fiquei e todos meninos dali da vizinhança ficaram alucinados. "De quem seria?" Perguntava Saló (o filho de D. Duda). Era de Nilo, irmão de Nina (a linda menina Etiene) filhos do comerciante Deusdedith Maia. Claro ele rico, trouxe do Recife a bicicleta de Nito. Uma festa na rua. Eles moravam no primeiro grande chalé à direita de quem subia para o Arraial. Mais adiante morava os Pintos. Major Anísio Pinto, o dono do conhecidíssimo e muito frequentado, Café Glória. Antes um pouco moravam os Dourados, os meninos Ernesto, Edson e Edelson, este último do meu tope. Família também de abastados comerciantes. Edelson tornou-se médico. E os outros? Minha madrinha Beatriz Braga, morava mais abaixo, em outro quarteirão. Pertinho da minha casa. Escapolia lá, sempre que podia para dar a "Bença Madinha". A família Vitalina também morava mais adiante em rica casa senhorial. Dona Henriqueta, Doutor Urbano e os meninos, que logo depois da da adolescência estudando no Quinze - zarparam cada um a seu tempo para o Recife. Primeiro Erasto, depois Jessisai, Hilton e Urbano. Parece que o tempo das "vacas gordas", graças ao respeitado trabalho e profissionalizante do Doutor Urbano, foi de longa duração. Era uma das famílias mais queridas da Rua do Recife e respeitada por todos. Os meninos, principalmente o Hilton, que era do meu tope, tinha sempre - quando rapazinho - um ar aristocrático. Passeava de carro, bonito e elegante carro importado (do pai, é claro) um Nash. Parece-me que era verde escuro. O carro era grande, único da cidade, com aquelas características e beleza. E o Hilton, nas tardinhas circulando no "paquête".

Havia muita gente de classe média na Rua do Recife, gente sofrida uma dúzia de pobres sacrificados. Mas, lembro-me pelo menos de duas famílias bem. Uma era  da minha Tia Cecília, irmã de minha mãe, casada com o Sr. Orlando, um alfaiate, de boas qualidades profissionais. Competente operário da costura. Dona Duda fazia para ele os aviamentos. Mas ele cortava, alinhava, costurava, passava ferro e fazia tudo mais, até entregar o terno bonito e pronto. Moravam em uma "meia-água" (pequenas casas de um telhado só, geralmente com uma porta e uma janela e sempre recuadas, do alinhamento das outras casas). A Tia Cecília, lavava para fora e ajudava na parca "receita" para criar a filharada: Lucia, Geraldo, Gener, Reinaldo e Margarida.

Me lembro de uma família bem grande com muitas moças (cujos nomes não me recordo) também residindo numa "meia-água) do mesmo lado da minha casa, mas bem adiante. O senhor, pai das moças era Aguadeiro. Botava água nas casas, carregando em barricas de madeira acondicionadas nas cangalhas dos burros. Ele tinha muitos burros. Na minha memória alguma coisa em torno de 10 ou 12 animais, que ornejavam "dando as horas". Toda rua ouvia. A casa (aliás todas as casas do lado de cima da Rua do Recife) dava os  fundos para uma rua estreita, com portões de entrada. Seria hoje, as entradas de serviço. Pois por ali,  entravam e saiam do grande quintal todos os burros para ir buscar água na Vila Maria e distribuir na "freguesia". Nós (nossa casa) éramos fregueses do velhinho da água, pai das moças.

Do lado direito de quem subia a rua em demanda ao florescente Bairro do Arraial, havia a sede da AGA - Associação Garanhuense de Atletismo, o mais elegante e tradicional clube da cidade, inclusive com time de futebol. Nele jogavam meus cunhados Polion Gomes (filho do Seu Chico Gomes, que faleceu na Bahia, com 101 anos) e Pedro Maia (filho de Thomaz Maia). O elegante clube tinhas festas fantásticas e muito animadas. Toda a vizinhança, nas noites de bailes, iam para as janelas e ou para as proximidades do Clube para "ver o sereno". O "sereno" era ficar à noite no sereno, madrugada a dentro, vendo o baile e os passantes, com as indefectíveis cadeiras na calçada, junto às portas das casas. No carnaval, a rua que era à época a principal da cidade, depois da Avenida Santo Antônio, na qual se fazia o "Corso" nos barulhentos carros 1929, com os canos de escape desligados.

Na esquina, bem junto à minha casa, um palacete bonito que era somente usado em épocas de férias, por famílias de ricos do Recife. Família Batista (proprietários da Casa Batista, funerária). Vinha do Recife em carro particular, preto, grande com motorista fardado, que ficava pelas calçadas olhando as empregadas. Botou, um deles, de amores pela Julieta, mas, não deu certo. "Quero que!", dizia ele completando: "Esses home do Recife só qué se  aprovetá, das moça!". Pessoas também da Família Dubeux, estavam juntas. Lembro de uma menininha bem bonitinha, de tranças longas. Eu chagava junto dela e perguntava como era o seu nome. Ela respondia: "Inalda Maria Batista Dubeux".

A Rua do Recife. A minha rua. Que delícia de tempo. Que saudade incontida. Lembro até - por oportuno - os versos de Cassimiro de Abreu em sua poesia: "Meus Oito Anos", quando diz:

"Oh!, que saudades que tenho,

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida,

Que os anos não trazem mais".

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tarde fagueiras,

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais".

*Escritor, poeta, desenhista, advogado, historiador e professor.

Fonte: Garanhuns a Enevoada Pérola Fugidia / 1999

Foto: Rua do Recife (Dr. José Mariano) na década de 1950.

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