sábado, 22 de janeiro de 2022

A Janela (conto)

João Marques | Garanhuns

O sol caindo, lá, à distância dos olhos entardecidos e maravilhados. O cenário por cima é mais que qualquer  outro espetáculo. Amplo, como para mostrar que o belo é sempre grandioso. Não era a primeira vez. O homem tinha o hábito. Como era sempre, considerava aquela tarde o maior entardecer. sabia. Para ele, poderia ser o último pôr do sol, enquanto lhe batia ainda, no peito, o coração desgastado. O declínio. As nuvens baixas e incendiadas de vermelho e do amarelo, que é a cor real do declínio. O dia acabando, a luz sumindo, e a vista pouco a pouco se quebrando ao lusco-fusco. Os elementos se recompondo em contornos da fantasia, como para expressar a inteligência e o domínio estético da criação.

Minervino foi sempre admirador da natureza e das artes. Fez quadros, escreveu poesias, como artista comum. Nunca chegou sequer  a um destaque em jornal ou numa parede de exposição. Sentado e curvado, agora, com os cotovelos apoiados no batente da janela, extasia-se com o quadro do crepúsculo. E, admitindo, imagina ou faz que ajuda a pintar os estertores do tempo de passagem. Traça, como são os traços. Colore, como são as cores. E pincelada a pincelada, a paisagem sidérea vai mudando. O sol descendo e ficando mais vermelho, os meios tons, magníficos, evoluindo o quadro para um portal eterno.

Não se mexe no canto em que se encontra, os olhos cheios do sol em despedida... um suspiro pela emoção. Dois, três suspiros pela vida premiada, de lhe ser possível o instante. A emoção, agora, é mais viva. De repente, não mais o sol que se punha. O sol nasce. Percebe. O mesmo sol que se quedava há pouco tempo. Outra manhã parece aos olhos de Minervino. O homem vê o sol ressurgindo, vermelho do vermelho da volta. Sopra-lhe até, no rosto, a brisa da manhã. À janela, se dá a alvorada de outro dia em novo tempo. E Minervino, terno, fica cheio de nuvens, de poesia, e de sentimento de partida e de chegada. Então, teria balbuciado algum som ou palavra. E, sentado, cai em sua própria cadeira, onde está sentado. Cá, o silêncio das cores. A vida, de tanta arte e sentimento, se encanta. Por fim, a janela se fecha.

*João Marques dos Santos é escritor, poeta, cronista, diretor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns - ALG. (Transcrito do jornal O Século).

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