quinta-feira, 16 de junho de 2022

A lira dos quinze anos


Amaury de Medeiros*

No ar, aroma de eucalipto. Parque Euclides Dourado. Bicicletas tecendo arabescos entre as árvores. Perfume de rosas vicejantes nos jardins. O velho trem Great Western resfolegante na chegada. A maria-fumaça exaurindo os derradeiros vapores no esforço da subida. Cheiro gostoso de fazenda. Leite jorrando morno dos úberes túrgidos. O arrulhar nostálgico das rolinhas mesclado ao mugido das vacas. Os cafezais, cobertos de verde, ensaiam uma dança ao quase imperceptível som da brisa. No cimo dos montes, banhados pelo sol da manhã, cintilam grinaldas amarelas e vermelhas de ipês primaveris, Os caramanchões da Praça da Bandeira enfeitadores de cores na espera festiva. Os tambores repetem as batidas, secas e fortes, esquentando para o desfile. O som metálico das cornetas dando ritmo. Imagens que se me acodem nesse momento de saudade - o olhar perdido na bucólica paisagem do vale da Passira. Recordações de meus 15 anos vivenciados na suíça pernambucana onde as lareiras se acendem nas noites de inverno; do bairro Heliópolis, grã-fino e sofisticado; da água mineral, pura e cristalina; da cidade das tulipas, dos festivais de arte, do clima ameno. Tudo é agradável e belo quando se tem 15 anos. Escolhido orador da turma de concluintes do curso ginasial, caprichei nas frases de feito e dei tom teatral ao falar. O mestre Manoel Lustosa fincara marcas profundas. Determinada frase do discurso foi aplaudida e repeti-a no meu entusiasmo juvenil. Risos. Não me deixei abalar, prosseguindo com voz segura e convincente. Os ensinamentos familiares e do padre Adelmar diziam-me nunca se deixar abater diante das dificuldades. Ao cair, ter força para se levantar. Filosofia de vida. Essas relembranças foram despertadas pela leitura do informativo do Colégio Diocesano, novembro/dezembro, 2001, número 18. Na primeira página, a fotografia de uma jovem com sorriso de menina. Seu nome: Marília Jackelyne, aluna do 2º ano, ganhadora da Fase Nacional do Concurso de Poesia "Manoel Cerqueira Leite", promovido pela Via Sette e Produções e pela Secretaria Municipal de  Cultura, Esporte e Turismo de Itapetininga, em São Paulo, concorrendo com mais de dois mil candidatos. A entrega da premiação ocorreu no dia 3 de novembro durante a comemoração do aniversário de Itapetininga. Marília e o Colégio Diocesano receberam vários telegramas, entre eles o do Vice-Presidente da República, Marco Maciel, que parabenizou a aluna pela brilhante vitória e congratulou-se com o colégio por saber tão bem preparar seu alunado. A sementeira do padre Adelmar da Mota Valença, regada pela sensibilidade poética de Luzinete Laporte, continua profícua. Marília já tinha sido premiada no Concurso de  Redação Epistolar para Jovem 2000, promovido pelos Correios e Governo Federal e em outubro passado lançou seu primeiro livro, "A Lira dos Quinze Anos", recebido com entusiasmo pela crítica especializada.

Comove saber que uma adolescente do interior de Pernambuco vence concursos literários projetando nosso Estado no cenário nacional. Em tempos de violência e futilidades, funciona como um bálsamo e esperança de dias melhores, ver jovens como Marília que encontram tempo para escrever poesias, sobretudo uma poética amadurecida e preocupada com os problemas sociais.

Atentemos para o poema Tragédia Anunciada: "Frio, chove lá fora. Ao longe, o pio d'alguma ave. Uma mulher esquálida, grita, sozinha, no meio da noite gelada. Oferecer-se-ia em holocausto, Naquele esforço pela vida. Oh! Triste paradoxo! Como sofrer pela existência, Quando nem mesmo se existe!? Aquela pobre mulher. Está parindo um ser, Uma esperança. Só. No escuro Difícil suportar a dor. Mas ela não desiste: Precisa dessa criança, Como se fosse ela, renascendo. Sente faltarem-lhe as forças. E nessa hora, junto ao sangue. E às outras coisas que lhe são expulsas do ventre, Viu um aspecto de vida e Um grito cortou O ar gelado do barracão. Era seu filho. Filho de sua pobreza. De sua prostituição. Filho de todos os homens Que a possuíram. Filho da sociedade Que a destruiu. Filho do mundo que a violou. Filho do universo Que a devorou. E que o devorará, E que o violará, E que o destruirá. E sua vida, Que começou num barracão, Terminará numa vala comum. Numa cela de prisão, De um policial, De  um bandido, de um cidadão. Ela chora, Pensando na repetição Da melodia triste da vida. E tomando nos braços aquela criança Leva-a ao seio, Para que da teta escura Ele sugue a seiva da vida que ela não tem e Que ele sem dúvida não terá. Sua mãe e filho. Ela que dá, Ele que recebe. A vida não houve E não haverá". repete-se Vida e Morte Severina, de maneira mais dolorosa e tocante. Para Marília, parabéns Colégio Diocesano, parabéns Garanhuns!

*Amaury de Medeiros é ex-aluno do Colégio Diocesano, médico urologista e membro da Academia Recifense de Letras. Transcrito do Jornal O Século de fevereiro de 2001.

Foto: Garanhuns, PE - Estação Ferroviária na década de 1950.

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