segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

A pedra do barbeiro


Por ser alto, magro, pescoço cumprido e triste logo foi apelidado de Mané Grandão. Nascido em uma região agrícola, no interior de Pernambuco. Depois de passar muitos anos de fome, coisa comum ao agricultor brasileiro. Mané resolveu aprender um ofício que lhe permitisse ganhar a vida com maior facilidade. Para adquirir a ferramenta da aprendizagem foi obrigado recorrer à boa vontade de alguns amigos. Desta forma conseguiu alguns cruzeiros, e com os quais, comprou uma  navalha e uma tesoura de barbeiro, ambas já surradas pelo tempo, e assim deu início  a nova e futura profissão.

Passados alguns anos, já com a vida mansa, o antigo pobretão, no interesse de cada vez mais aperfeiçoar sua arte, tomou a iniciativa de ir morar numa cidadezinha quase que desprezada no agreste, era ele ali, o único barbeiro. Por não haver concorrente, Mané não ligava muito para seus utensílios e na barbearia higiene que é bom não tinha de jeito nenhum. A cadeira era  feita de tábua de caixão de gás e a parte onde os fregueses sentavam-se, era coberta por um pedaço de couro de boi estragado pela falta de gosto do proprietário. Quando as pessoas sentavam-se para aparar os cabelos ou fazer a barba, ficavam sem nenhuma proteção. O espaço entre o fundo  da cadeira do barbeiro e o chão onde estava apoiada era ocupado por uma gata de raça angorá que somente saia dali quando procurava o telhado da casa para fazer serenatas em companhia do bichano da vizinha. Duas vezes por ano, o animal dava de presente a Mané Grandão 8 ou 10 lindos gatinhos.

As ninhadas de gato causavam incomodo aos  aos fregueses quando sentavam-se na cadeira para serem atendidos. Certa feita já na hora de fechar a barbearia, chegou um cliente e ao sentar-se pediu ao barbeiro para dar pressa no trabalho porque precisava viajar  e o tempo não lhe permitia demorar. Acontece, que esse freguês, começou fazendo careta todas as vezes que Mané encostava-lhe a navalha no rosto. Meio encabulado, Mané perguntou:

- A navalha está ruim?

- Não senhor, está boa até demais. Acontece, que o fundo da minha calça está rasgada e os gatinhos estão passando as unhas em lugar que eu não tive o cuidado de esconder.

Em meio às coisas boas e ruins que aconteciam na vida de um fígaro de cidade pobre, Mané  ia vivendo como Deus queria. De outra feita, o sargento Delegado da cidade ao passar pela frente da humilde barbearia, resolveu fazer a barba. Como tratava-se de uma autoridade, Mané dobrou o cuidado no trabalho que realizava, pois, Delegado de Polícia em cidade do interior é tratado com mais carinho do que filho de família rica. Mané pôs no rosto da autoridade uma certa quantidade de sabão amarelo e depois de ensaboar bastante o rosto do delegado, abriu uma gaveta e retirou dela uma pedrinha arredondada mais ou menos do tamanho de um  ovo de galinha e introduziu-a  na boca do militar, na parte de dentro da bochecha tendo a pedra formado  uma saliência que permitia a navalha correr sobre o rosto com maior suavidade sem o empecilho das rugas. Terminada a operação de escanhoamento, e ainda, com o rosto cheio de  pó o sargento pergunto ao barbeiro:

- Seu Mané, essa pedrinha que o Sr. colocou na minha boca é encontrada aqui mesmo na região?

Mané Grandão fez ares de quem está engasgado, e depois de algum tempo respondeu:

- Não é daqui seu Sargento, ela vem de muito longe e é difícil de ser encontrada. Esta que coloquei na boca do senhor, semana passada foi engolida por João Carcereiro, e a minha sorte foi que no dia seguinte ele veio me trazer...

*José Rodrigues da Silva / Professor, jornalista e historiador / Garanhuns, 17 de Abril de 1982.

Foto: Garanhuns, PE - Barbeiros trabalhando na feira livre em 1942. Créditos da foto: Benício Whatley Dias / Acervo: Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ).

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