domingo, 27 de março de 2022

A Praça Jardim


Clovis de Barros Filho*

São Paulo (SP) - Morava nos arredores da Praça,  mais precisamente na rua Dom José na pensão da minha tia, bem em frente da antiga padaria Suíça. Era um privilegiado. A  Praça Jardim era dos meus locais favoritos em Garanhuns. E não era bobo nem nada. Tinha mil razões para isso. Primeiro, a praça era muito simples, mais aprazível,  com seus banquinhos de cimento branco queimado, no meio dos sempre bem cuidados jardins. Bem em frente, havia uma fábrica de picolés e essa era uma das causas que me mantinha como  fiel frequentador do local. Os picolés eram impagáveis. O dono, um senhor que sempre usava um óculos estilo ray-ban tomava conta do negócio e era quem fazia os picolés. Os meus  favoritos eram os de coco, abacate, e castanha de caju. Impagáveis. Eu comprava e ia degustá-los sentado nos banquinhos de cimento povoados por beija-flores que sugavam as flores vermelhas dos ibiscus que ornamentavam o jardim. Quando não comprava picolés, andava mais alguns metros e bem atrás do prédio que abrigava o Cine Jardim havia um Caldo de Cana que nas tardes quentes aliviava minha sede e o calor. Mais o caldo, claro, era sempre acompanhado de um delicioso pão doce. E as delicias que se encontravam naquela  praça não acabavam ali. Quantas vezes não fui à padaria em frente, na Dom José? Não era a famosa Padaria Suíça do Sr. Zé Feitosa, mais uma padaria menor próxima, cujo Bolo de Rolo dava água na boca só em pensar. Era freguês assíduo, o bolo era inigualável, sempre quentinho com generoso recheio de goiabada . 

E o que dizer do Bar do Mirabeau com o cheiro inconfundível do seu café de máquina? O Bar era frequentado pelo pessoal adulto, mais às vezes eu ia lá; comer um delicioso sarapatel junto com meu pai. Em resumo, a Praça Jardim para mim era literalmente uma Ilha da Fantasia. Lá havia de tudo o que um garoto da minha idade poderia esperar. Se não bastasse, havia ainda o famoso e badaladíssimo Cine Jardim onde curti dezenas e dezenas de grandes filmes e de quebra ainda  paquerava muitas garotas bonitas nas suas sessões aos domingos à noite, sempre lotadas. O Cine Jardim, era um marco da cidade que nunca deveria ter acabado. É pena que hoje nada mais resta a não ser o espaço completamente transfigurado. Pensam que as surpresas da praça acabaram? Claro que não. Nos fundos do prédio do antigo cinema havia o serviço de auto-falantes A Antena. Eu era um dos ouvintes, in-loco, desse meio de comunicação. Apreciava as músicas da época, mais o meu programa favorito eram sem dúvidas os jogos re-transmitidos aos domingos do campeonato pernambucano. Obviamente como torcedor apaixonado pelo Clube Náutico Capibaribe não perdia um jogo do timbú. O som de A Antena não se limitava à Praça, suas cornetas eram espalhadas por alguns pontos da Av. Santo Antonio. O curioso é que visitando Garanhuns um certo dia, meu pai trouxe consigo meu irmão mais novo. Ambos, foram ao Bar de Mirabeau onde meu pai sempre ia quando visitava a cidade. Neste dia ele se descuidou e meu irmão desapareceu misteriosamente. Meu pai apavorado, foi imediatamente comunicar a perda dele ao locutor de A Antena que em poucos minutos de anúncios conseguiu localizar o  garoto já  em prantos, de volta. Havia nas redondezas um movimento curioso que me chamava à atenção e era possível percebe-lo dos banquinhos onde me sentava. Esse movimento de pessoas era mais frequente à noite pros lados da feira da madeira. Podia-se ir até o local passando pela esquina da Fábrica de Colorau. Mais eu não ia, ficava curioso mais não ia. Minha tia me avisara: não vá lá para os lados da Coréia. Eu muito ingênuo não tinha a menor ideia de que bicho ela estava falando. O certo é que evitei o local por um bom tempo, até que descobri que a guerra da "nossa" Coréia era na verdade decidida não com canhões e tanques de guerra, mais decidida mesmo era no pau.. 

Não sei se A Praça mantém até hoje o seu encanto e permanece sendo um Ilha da Fantasia para os garotos que lá aportam Não sei também se ainda existe ainda a Fábrica de Picolés, o Caldo de Cana, a Padaria dos bolos de rolo ou o Bar do Mirabeau. Se  A  Antena foi desativada ou não. Mais se milionário fosse, ou quem sabe um político influente, certamente os traria todos de volta. A mesma praça, os mesmos bancos, as mesmas flores e os mesmos jardins. 

*Clovis de Barros filho nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Oswaldo Cruz - SP.

P.S. - As árvores da Praça Jardim são protegidas por Lei Municipal, mesmo assim a árvore que aparece na foto foi cortada no período da instalação das Casas Bahia em Garanhuns.

Foto: Antigo Cine Jardim (Hoje Casas Bahia) / Clovis de Barros Filho.

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