segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

A praça

João Marques | Garanhuns

Lendo "O Crime do Padre Amaro", deparei-me, no começo do capítulo XV, com a descrição da Praça, num dia de feira, em Leiria. Foi escrito este primeiro romance do escritor português em 1874. A Praça é a desse tempo... Eça de Queiroz me agradou muito nessa passagem, quando fala, numa visão de cor, da Praça de Leiria. Parei e reli por mais  duas ou três vezes e, agora, transcrevo o trecho como se ainda achasse pouco. Para quem não leu o romance ou não se lembra mais da Praça de cento e vinte anos atrás, rememoro que o romancista fez a descrição, para justificar  o receio da personagem, D. Maria de Assunção, que ia atravessar a Praça,"... que lhe roubassem as joias ou lhe insultassem a castidade." Era um domingo e, logo cedo, havia missa cantada na Sé. E uma senhora não saía só "... em dias de mercado e de "populacho". Agora, a Praça, como a atravessou, muitas vezes, o grande escritor Eça:

"Nessa manhã, com efeito, a afluência das freguesias enchia a Praça: os homens em grupo, atravessando a rua, muito sérios, muito barbeados,  de jaqueta ao ombro; as mulheres aos pares, com uma fortuna de grilhões e de corações de ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os caixeiros azafamavam-se por trás dos balcões alastrados de lençaria e de chitas; nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os sacos de farinha, os montões de louça, os cestos de broa, ia um regatear sem fim; havia multidão ao pé das tendas onde reluzem os espelhinhos redondos e transbordam os molhos de rosários; velhas faziam pregão por trás dos seus tabuleiros de cavacas; e os pobres, afreguesados à cidade, choramigavam, padre-nossos pelas esquinas."

É uma crônica, antes de  ser um pedaço de romance. Simplesmente, era a Praça... O meu avô, lembro-me, chamava "O Quadro", outras vezes "A Rua Grande", referindo-se à praça do centro da cidade, à nossa avenida Santo Antônio. aqui, como em Leiria, sempre houve uma igreja celebrizando a Praça, depois, acaba com o nome do santo. É o sacrário da cidade. O "coração", para incorrer na frase feita e decantada na poesia da boca de todo o mundo. A Praça é do povo pela boca de Castro Alves. A Praça é o mundo, numa frase em que parei para fazê-la... O mundo de Leiria de 1874 e o de Garanhuns destes tempos de meu avô e meus. Com uma única diferença, parece que acerto, a de que as senhoras já não podem andar com ouro ou coisa de valor. Os ladrões pulam de um continente ao outro, de uma época a outra, de uma Praça a outra e desconhecendo a igreja, roubam quem atravessa a rua. A castidade, esta não causa mais problemas. Os ladrões não querem saber mais disso. Enfim, a Praça de sempre. Se não há mais outro, há couro... Os espelhinhos redondos foram trocados por reflexos extravagantes; os padre-nossos choramingados, por cantigas propagandas em pequenos aparelhos de som... A feira, a de Garanhuns, mudou em favor da Praça. Mudou... Umas mercadorias mudaram de local, outras voltaram a ocupar desordenadamente. Os ladrões ficaram, os pedintes, as barracas de tudo que cabe na Praça, depois das mulheres, ainda aos pares, dos homens que passam, procurando os grupos... A feira, a antiga feira, como a de  Leiria, não está mais na Praça. Existe, porém, outra feira, menos atrativa, sem cultura, que Eça de Queiroz, não teria escrito em seu livro, não teria - tenho certeza - colocado em sua Praça.

Como me lembro da feira dos tamancos, do chão de "mangaio" dos caçuás cheios de jabuticaba, da rapadura... foram-se e nunca mais voltaram nem para outra praça. Para cá voltaram, pouco a pouco, os camelôs, os barraqueiros vendendo tudo, fazendo outra feira. Feia e desorganizada. A Praça é outra, não é mais a da Leiria de 1874, nem a de Garanhuns do meu avô, nem tampouco da cidade de minha meninice de 1950. A Praça, contudo caracterizada, pela igreja, alguma arquitetura que se acaba e pela localização central continua, como o sacrário ou, como diz todo mundo "o coração da cidade". Mas, no domingo, ao menos no domingo de Leiria e da obra de Eça de Queiroz, a Praça fica livre, como o espaço ao condor e, felizmente, retoma a feição célebre e honrosa de uma sala de visita.

O crime do Padre Amaro não foi pior... A Praça que conheceu a história, virou ficção. Tudo que havia, hoje, são personagens... a crônica de Eça de Queiroz, proposital, em meio de um romance... a crônica, sem maior propósito de alcançar alguma coisa, de um cronista que ainda não escreveu um livro e que não atravessa a Praça sem se lembrar de que o mundo está na Avenida. O escritor, o livro, os personagens - o crime e o padre - e, desgarrado, o leitor deste século, desta Praça, que em nada lembra mais Leiria... Ou lembra?

*Escritor, poeta, cronista, editor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns, e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns - ALG. Garanhuns, 20 de Janeiro de 1995.

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