segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

A prisão arbitrária de Souto Filho em 1931

A farmácia de Godofredo de Barros, conceituado farmacêutico, depois formado em medicina, situada na Avenida Santo Antônio, sempre representou para meu pai, o seu grande refúgio. Em muitas ocasiões eu o vi sentado na dita farmácia, rodeado de correligionários, principalmente aos sábados, dia de feira em Garanhuns. Farmácia dos Pobres, era o seu nome. Na sua velha paisagem da infância, creio que papai se sentia feliz ali, no convívio de pessoas simples e fiéis da sua terra, mais venturoso, estou certa do que no Congresso Nacional, na época funcionando no Palácio Tiradentes do Rio de Janeiro, pois no intimo Papai era também uma pessoa simples, despido de pompas.

Na mesma Avenida Santo Antônio, havia outra farmácia: a  dos Lima, José e Jaime, filhos do grande amigo e compadre do meu pai, Florismundo Lima; Jaime era afilhado de meu pai. O número de afilhadas teciam lindas e primorosas rendas e as presenteavam à Mamãe, desde as rendas de bilro até as de "frivolite". Minha mãe, durante toda a sua vida, conservou uma caixa literalmente cheia dessas preciosas rendas.

Muitos desses afilhados ainda vivem e entre eles, há um, muito dedicado à memória, e ao recente centenário de Papai. É o brilhante jornalista de Garanhuns, Ulisses Peixoto Pinto Filho, nosso estimado parente, filho de Felícia Souto (nascida no Sítio Aguazinha - Iati-PE), prima muito ligada ao meu pai. Ulisses de grande cobertura no "O Monitor" jornal local, do qual foi vice-diretor.

Nelson Paes, outro parente recentemente desaparecido, muito se interessou pelo Centenário, demonstrando em todos os momentos, especial apreço à memória de meu pai.

Nelson era poeta e concorreu ao Concurso no Centenário de Garanhuns. Foi o compositor vitorioso, condecorado naquela ocasião com justiça pelo Hino de Garanhuns, de sua autoria.

A vida atribulada de um político, só pode ser julgada pela posteridade. Papai sempre com contato com os longínquos eleitores (agreste e sertão) não se descuidava de suas bases e, sem aqueles contatos nenhum político sobreviveria, mesmo naquela época.

A fluidez e a elegância do seu estilo de vida - sempre impecavelmente vestido e apesar da sua baixa estatura, foi um homem elegantíssimo de uma elegância discreta.

Os seus ternos eram confeccionados por Nagib e Almeida Rabello, famosos alfaiates, radicados no Rio de Janeiro e os seus sapatos eram igualmente executados sob medida pelo sapateiro Cadete, muito conhecido no Rio, aquela época.

Usava camisas de colarinho duro com peito engomado e algumas vezes, a bengala. Uma delas, trazia um punhal disfarçado, pois a Câmara dos Deputados Federais, nos idos de 1930, antes de ser deflagrada a Revolução, representava um ambiente de tensão entre os parlamentares de partidos opostos, sobretudo, depois que o deputado gaúcho Simões Lopes, matou covardemente, o deputado pernambucano Souza Filho, no recinto do plenário.

Souza Filho e meu pai, eram amigos fraternos e inseparáveis.

Creio mesmo, que Souza Filho representava para Papai o irmão que ele não teve.

Pequenina, mas, me recordo do caos e do vazio em nossa casa de Garanhuns, quando a dolorosa notícia nos chegou. Mamãe e Papai ficaram desolados, com essa enorme perda. De Souza Filho, me lembro muito vagamente, sei apenas que em todas as suas viagens à Europa (naquele tempo as viagens eram por mar), nos trazia lindas bonecas de Paris e Amsterdam para mim e para minha irmã, sem esquecer as bengalas e carros em miniaturas, para meu irmão.

De Haia, me trouxe certa ocasião um boneco holandês, vestido a caráter, que encantou minha infância por um longo período.

Souza Filho, comentava com muito humor, que saíra dos currais de Petrolina para a Câmara Federal e para os ambientes internacionais. Advogado militante em ascensão, ele e o meu tio Sebastião do Rego Barros, tinham juntos, rendoso escritório de advocacia, mas, ambos o fecharam, em busca de horizontes políticos a Câmara Federal.

Os dois se integraram completamente ao meio político e social daqueles tempos, vindo tio Sebastião a ser escolhido pelos seus pares, Presidente do Congresso Nacional.

Viveram tio Sebastião e Souza Filho, intensamente a "belle époque", porém, ambos possuíam como meu pai muito espírito público e jamais se aproveitaram dos seus mandatos e das suas elevadas posições, para a prática de negociatas  e enriquecimentos ilícitos às custas do povo e da Nação.

Em meus arquivos e documentos de família, há uma correspondência de Souza Filho para meu pai e em uma delas, por demais interessante, onde menciona entre outras notícias, a bordo do transatlântico inglês, Arlanza, que Estácio Coimbra, considerava Papai um "gênio político", pelos seus artigos no jornal "A Rua", Samuel Hardmann, médico dos meus avós maternos depois Secretário da Agricultura no Governo Estácio Coimbra, confirmou a Papai, o que Souza Filho escrevera a bordo do navio, isto é, a apreciação conclusiva do Governador. Infelizmente, o "gênio político" se findou tão cedo, aos 51 anos incompletos, deixando uma lacuna sem precedentes, nas vidas tão jovens dos filhos, da esposa, dos familiares e dos  amigos mais íntimos.

Preso em 1931, uma ano após a Revolução de 1930, cheio de coragem e fortaleza interior, enviou à sua devotada esposa, esta carta, que aqui transcrevo, na qual, descreve sua arbitrária prisão.

"Casa de Detenção, 1º de novembro de 1931.

Chiquita:

Estou bem e quase restabelecido da gripe, só me resta a coriza e assim mesmo, atenuada. Aqui nada me tem faltado.

O "restaurant" Leite, tem me mandado as refeições.

Não me mandes mais nada, a não ser uma escova de cabelo e duas camisas de peito mole. (Habitualmente, ele usava camisas de peito duro).

Estou alojado no gabinete médico.

Recomendo-te mais uma vez, toda resignação, que te pode dar a tua fé cristã, muito propícia nestes momentos de provação moral. Esta situação é mais dura para ti do que para mim. O meu sofrimento único é não sofrerem tu e os queridos filhinhos.

Tudo passa. Não deves pedir a ninguém pela minha liberdade.

Confio na fortaleza do seu espírito e no ânimo dos filhinhos, que devem ir acostumando a ser fortes. Tenho dormido bem.

Façam de conta, que estou em Garanhuns, passando uns dias.

Beijos para ti, Esterzinha, Antony, Gerusinha e Claúdio.

Do teu

Soutinho"

Esta carta bem revela o espírito forte do meu pai; nessa fase dolorosa para qualquer homem - a de perder a sua liberdade  e ser alvo de injustiças e mesquinhas perseguições de adversários políticos, em nenhuma hipótese mais dignos, do que o foi meu pai.

Ao ser recolhido à Casa de Detenção do Recife na madrugada de 30 de outubro, meu pai, como um preso comum, foi colocado numa cela de porta batida, incomunicável. No dia seguinte é que o deixaram no gabinete médico que chamavam de enfermaria. Passados três dias, o soltaram e a chegada à nossa residência, foi uma espécie de apoteose: a casa ficou repleta de parentes e de incalculável número de amigos. Ele retornou, lembro-me bem, com aquele ar tranquilo de um ser humano com a sua estatura moral, da sua tranquilidade e da capacidade de não se abater com as vicissitudes que a vida sempre reserva aos homens públicos.

No seu rosto, continuava estampado aquele maravilhoso sentimento paternal, beijando e abraçando os seus quatro filhos. Lembro-me daquele intenso movimento de pessoas em nossa casa, todas, prestando solidariedade e testemunhos de apreço.

Recordo-me que nossos bons e saudosos amigos Dolores e Julio Santa Cruz, foram os primeiros a chegar.

Em seguida, o Secretário de Agricultura do Governador em exercício, João Cleófas de Oliveira, que lamentava e protestava tamanha arbitrariedade. Essas provas de leal afeição muito comoveram os meus pais, tão profundamente sensíveis aos testemunhos de afeto.

O tempo passou, a ditadura se instalou no País e um ano depois, eclodiu a Revolução Constitucionalista de São Paulo.

Papai disfarçadamente perseguido pelos donos do poder no Estado, resolveu passar uma temporada no sul, afim de conseguir do seu primo e grande amigo General Pedro Aurélio de Goes Monteiro, a restituição da sua função de Curador Geral de Órfãos e Interdictos. A revolução de 1930, o demitira arbitrariamente dessa nobre função, mesmo sendo vitalícia. Demissão essa, sem nenhuma razão, apenas porque o Curador fôra figura de relevo no regime anterior.

Geralmente, em todas as Revoluções, são cometidas grandes injustiças, muitas arbitrariedades e perseguições.

Fonte: Livro "Memórias de Amor" de Gerusa Souto Malheiros. 

Foto: Antônio Souto Filho (Soutinho), Francisca Salgado Guedes Nogueira (Chiquita), Antônio Souto Neto e Gerusa Souto Malheiros.

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