quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A tromba d'água


Clovis de Barros Filho*

São Paulo (SP) - Era  o mês de janeiro de 79. Época de chuvas fortes  no sudeste. Na região que fica as montanhas de Itatiaia/RJ chove mais ainda. A razão para isso é certamente  a densa floresta de mata atlântica que cobre a região. Estava de férias. Resolvi levar meu irmão mais novo comigo para conhecer o lugar. Fomos acampar nas montanhas. A viagem no meu Fiat bege 147 levou umas  3 horas partindo de São Paulo. Na subida íngreme passamos por cidades muito bonitas como Penedo e Mauá. Chegamos ao acampamento do CCB por volta das duas horas da tarde. O tempo estava muito chuvoso e frio àquela hora e  naquelas alturas. Escolhemos um bonito local para armar a nossa barraca debaixo de alguns eucaliptos e pinheiros. Nos dirigimos em seguida ao local onde era servido o almoço. Lá comemos uma excelente refeição à base de trutas com nozes. Como o tempo estava muito fechado, não deu para explorarmos o lugar. Voltamos à nossa barraca e tratamos de fazer as arrumações que ainda faltavam. Choveu durante toda noite. Na manhã seguinte acordamos com o cantar dos pássaros. Havia também muitas espécies de plantas exóticas  como orquídeas,  bromélias e samambaias. Nem precisa falar na riqueza da fauna. Muitos exemplares de viados,  pacas e quatis eram vistos nas redondezas. Um verdadeiro paraíso. Isso sem contar com a maravilhosa beleza da topografia da região com um sem número de cachoeiras de todos os tamanhos. Em suma, estávamos num verdadeiro paraíso. 

Após o café resolvemos explorar o local. A cada metro que andávamos mais e mais a natureza nos brindava com seus tesouros. O cheiro das flores era acentuado, destacando-se o perfume doce do manacá da serra. Os pássaros e os beija-flores davam um verdadeiro show de cores e cantos cada qual mais deslumbrantes. Muitos nem sequer havíamos ouvido antes e nem sabíamos qual sua espécie. Como o dia amanheceu ensolarado, conseguimos ver lá embaixo  no vale as cidades de Resende, Cruzeiro e outras menores. Uma linda visão. Nos afastando mais um pouco do acampamento descobrimos um espécie de vale muito estreito, quase uma garganta, entrecortado por gigantescas pedras, muitas cheias de musgos serpenteadas por corredeiras de águas cristalinas que vinham do alto das montanhas acima de onde estávamos. As pedras formavam um sem número de pequenas piscinas naturais, de águas límpidas e transparentes, mais que convidativas para um banho refrescante àquela altura do dia quente. Meu irmão não aceitou o convite para explorar as piscinas e corredeiras. Preferiu voltar à barraca e me esperar para o almoço. Fiquei sozinho atraído pela beleza do lugar. Desci mais alguns metros até alcançar as primeiras pedras. E não demorou muito para mergulhar numa piscina natural cujo formato parecia ser de uma grande bacia. A sensação era inigualável. Aquela água fresca e límpida caiu como uma bênção no meu corpo suado. E lá fui eu, corredeira abaixo pulando de pedra em pedra e sempre intercalando com um mergulho, quando via uma piscina que me parecia mais aprazível. Àquela altura não havia vivalma no local. Só eu, as pedras, as águas da corredeira e a densa vegetação que cobria as margens do  estreitíssimo vale ao lado. O barulho das águas descendo, a vegetação das margens e as pedras, impediam qualquer pessoa de ouvir um pedido de socorro no caso de uma emergência. E eu, no afã de conhecer as belezas do lugar quebrei a regra número 1. Nunca explorar sozinho um lugar como aquele. E o que nunca tinha imaginado acabou acontecendo. Repentinamente comecei  ouvir uma barulho ensurdecedor que vinha da parte mais alta da montanha, acompanhado quase que simultaneamente por um aumento do volume de água nas pedras. Não deu tempo para mais nada. A água veio com força e começou a cobrir tudo ao meu redor com uma velocidade e força avassaladora, levando tudo que tinha à sua frente. Pedras, troncos de árvores pareciam bonecos ao sabor da força das águas descendo corredeira abaixo. Tentei me segurar numa pedra mais estreita que me possibilitou uma certa proteção. Mais foi em vão. A força dás águas literalmente me soltou da pedra como se estivesse agarrado a uma casca de bananas, simplesmente fui tragado pela correnteza. Naquele momento nem sequer conseguia gritar mesmo porque seria em vão, não havia ninguém por perto e se houvesse, não conseguiriam me ouvir. Continuei sendo carregado pelas águas batendo com o corpo nas pedras e torcendo muito para não bater com a cabeça. Quando já havia perdido as esperanças de sair com vida daquela situação, um redemoinho milagroso me lançou para uma das margens da corredeira bem próximo de uma grande raiz de árvore das margens. Me agarrei nela com toda a força que ainda me restava. Finalmente pude me livrar da correnteza. Como chegou, repentinamente aquela tromba d'água não demorou a desaparecer. Estendido no chão, quase sem forças para sair do lugar descansei alguns minutos até deixar do local. 

Ao chegar ao acampamento meu irmão já estava muito preocupado. com minha demora. Quando viu meu estado ficou mais ainda. Estava com a bermuda e a camiseta totalmente rasgados e exibia no corpo todo, muitas marcas e arranhões pelas batidas do meu corpo de encontro às pedras. Já no restaurante do acampamento, o monitor do lugar ouvindo a minha história,  falou que eu tivera muita sorte de estar vivo. Muitas pessoas que  agiram sem ler os avisos que estavam na sede alertando para os perigo, tinham desaparecido e muitos deles nunca mais tinham sido encontradas.

As fotos que ilustram essa crônica registram os momentos que antecederam essa louca aventura que quase me custou a vida.

*Clovis de Barros filho nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Osvaldo Cruz - SP.

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