domingo, 9 de janeiro de 2022

Antônio Reinaux Duarte


Marcílio Reinaux*

Do meu tempo de criança, o que mais me vem à mente como grata recordação, é a figura impávida e austera de meu pai: Antônio Reinaux Duarte. Sisudo, de poucas palavras, mas muito brincalhão e dócil. Homem de caráter ilibado, de atitudes firmes, daqueles que dava "um fio de bigode" em garantia, como em Garanhuns se costumava dizer. Ele tinha e dava como garantia a sua própria palavra, respeitada e aceita por  todos. Seus ensinamentos para mim, eram quase imutáveis, verdadeiras leis e cânones quase irremovíveis. Com ele não se discutia, se ele estava ou não com a razão. Carecia, cumprir suas recomendações. Assim, é que o caráter dos filhos e das filhas, foram moldados pela austeridade de Antônio Reinaux, dedicadíssimo à imensa família que construiu. Trabalhava por trás do balcão da  sua loja de peças de automóveis: "Agência Reinaux". Esta loja funcionou em Garanhuns por cerca de três décadas, desde os anos trinta até o período da Segunda Guerra Mundial. Ali ele fazia de  tudo: vendia, comprava, fazia pacotes, escriturava os livros de  contas, Razão, Caixa e outros e ainda "tocava" a alavanca da bomba de gasolina (manual), na ausência de "Seu Augusto".

Seu Augusto, era um fiel empregado de serviços gerais, à quem todos nós, gostávamos dele e ele para nós e especialmente para mim, uma figura inesquecível. Construía uns brinquedos de  madeira que se movimentavam e dentre muitos, dois se destacavam: um "trivulim" que era um carrossel com cavalinhos, bonecos e tudo mais e uma roda-gigante, também com cadeirinhas e bonecos de pano. Seu Augusto era um homem forte, espadaúdo, de braços imensos, carregava a descarregava caminhão. Mas era  muito atencioso e delicado. Com sua força e seus braços controlava um tonel de combustível de 200 litros, ladeira abaixo, "para o bicho não despencar", dizia ele. Assim, por tudo isso e mais, pela confiança que meu pai tinha nele, e pela sua fala fanhosa, ele foi uma espécie de "meu tipo inesquecível" nos albores da minha infância.

Antônio Reinaux, tinha largo relacionamento com os colegas comerciantes e por muitos anos deles era chamado pelo respeitoso apelido de "Major Reinaux". Ele nunca fora militar. Nem gostava de tal antecedência em vista do que ocorrera com o Capitão, seu pai. Tal titulação, conforme já me referi certamente se devia ao fato de que seu pai e o seu avô Miguel foram militares de Guarda Nacional.

Nas tardes friorentas dos meus dias de menino em Garanhuns, vi a sua figura por trás do balcão atendendo com solicitude um freguês, ou em uma das portas, conversando com amigos, ou escriturando nos livros próprios. Aliás ele mesmo, escrevia todos os livros fazendo a sua contabilidade. "Agência Reinaux", um nome que ficou quase três décadas pendurado na parede fronteiriça do  prédio e que marcou um período destacado na vida sócio-comercial da cidade. Ali o meu pai recebia em palestras agradáveis os amigos, os passantes e até estranhos que no sábado chegavam um após outro especialmente os pedintes de feira, pedindo um  "trocado". Vez por outra, uma descida até o lado de baixo da avenida Santo Antônio e no "Café Glória", saboreando um cafezinho, conversava também com outros comerciantes. As vezes falando de  amenidades, outras vezes falando dos "problemas cruciantes" da  vida, com a carestia de tudo. A esticada ao café Glória com o  "Major" Anísio Pinto, quebrava a monotonia das tardes cinzentas e frias, bem como espantava também o frio como o cafezinho quente.

Tenho impressão, não fora uma grave doença de minha mãe, que provocou a todos um reboliço e drástica mudança para o Recife, Antônio Reinaux, teria terminado a sua vida em Garanhuns e não no Recife. Aliás, a doença de minha mãe em dois anos acabou com tudo que a família havia amealhado em trinta anos: loja, casa, automóveis e outros pequenos bens. Dois anos de hospital, com pagamentos de médicos, medicamentos e tudo mais, seriam suficientes para destroçar economicamente meu pai. E também desarticular tudo, porque as irmãs mais velhas precisaram trabalhar e os  mais novos trocaram as boas salas de aulas do Colégio Diocesano do Colégio 15 de Novembro e do Santa Sofia pelas salas da Escola de Aplicação, escola Normal, Pinto Júnior e Escola Técnica, todas no Recife, que não eram ruins, mas não tinham o calor familiar, amigo e acolhedor dos colégios de Garanhuns.

É bem de ver, que meu pai não ajustou-se, em hipótese alguma no Recife. Fazia-lhe mal o calor sufocante, tão diferente do frio de Garanhuns. As caminhadas que dava na cidade serrana de casa para sua loja, eram agradáveis e benéficas à saúde. No Recife -  sem automóvel - o Bonde era um suplício: sempre cheio e vagaroso. Afinal meu pai saiu de Garanhuns falido, passando de patrão na sua loja para empregado da Casa Barreira, loja de grande comerciante de peças, cujo titular Sr. Barreira era seu amigo. Português volumoso e bonachão, tinha a firma instalada em três andares de prédio próprio na Rua Siqueira Campos. Convidou meu pai para ser viajante, vendendo suas peças pelo interior. Meu pai aceitou e por uns quinze anos, foi esta a sua principal e única atividade  remunerada. Nem é preciso dizer, do sacrifício que passou, para  continuar criando e educando nove dos vinte filhos nascidos, todos agora na capital. E, não mais com recursos de um comerciante e sim de caixeiro-viajante.

Tive pena de meu pai, ter tido tantos dissabores e preocupações, quando já os sessenta anos se acercavam de sua vida. Todos afinal, merecem uma compensação, seja de aposentadoria, seja de recursos amealhados e bens, para uma velhice mais tranquila e sossegada. Meu pai não teve. Ficou nadando em suas preocupações, a dar tudo a numerosa família até o dia da sua morte. Foram dias, meses e anos de muita luta para Antônio Reinaux, pois as viagens se estendiam por vinte e trinta dias, os quais fora de casa, ele passava a mercê da péssima alimentação, mal dormida e troca de condução em toda cidade com uma maleta na mão e uma  pasta de documentos na outra. Lastimavelmente um homem, sofrido em seus últimos dias e somente muita força, muita tenacidade e resignação, e sobretudo a força de Deus poderiam ter sustentando ele, como de fato aconteceu.

Completou 63 anos no dia 7 de setembro de 1956. Dois dias depois, 9, com as malas arrumadas para viajar, viajou antes naquela mesma noite para encontrar-se com Deus. Aliás, com Deus ele já estava na Sua Presença, como crente convicto em Jesus Cristo. Integro no exortar, no testemunhar entre amigos viajantes. Antônio Reinaux, lendo a Bíblia, naquela noite deixou cair suavemente de suas mãos o precioso livro. A Bíblia caía no chão, deixando em nós a eterna saudade e a certeza de ter sido ele um homem bem.

*Professor, historiador, pesquisador, advogado, jornalista, artista plástico, escritor, poeta e pintor / Fonte: Garanhuns a Enevoada Pérola Fugidia / 1992.

Foto: Avenida 13 de Maio. A rua em que Marcílio Reinaux nasceu no número 34, lá no alto à esquerda, quase na esquina com a Avenida Dantas Barreto. O edifício da foto faz esquina com a Avenida Santo Antônio. Pertencia à família de Thomaz Maia. Ao lado havia a charutaria de Adalberto Azevedo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Marília é a esperança de dias melhores para os pernambucanos

Por Eudson Catão* Marília Arraes é a pessoa certa, na hora certa, para virar a página e tirar do poder um grupo que se encastelou no Governo...