quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Aquele sábado


Os  acontecimentos na faixa etária da quadra infantil não se apagam com a poeira do tempo. Disseminados pelos recantos da nossa vida, crescem conosco e se manifestam em tempo hábil. Isso acontece mesmo quando as nossas relações estão em outro nível. As lembranças sempre ficam. É uma realidade que não pode ser medida nem captada pelas redes das palavras. Expressões vazias não podem interpretá-las. Precisa de conteúdo psicológico.

Vivemos sob o domínio de sistemas que não tem forças de decisão. Não alteram a personalidade humana. Ao contrário o homem apercebido pode modificá-los. Esta sensibilidade é um estado de compreensão natural aos homens simples. A simplicidade nos faz sensíveis  aos sinais interiores das coisas. "Simplicidade é ação sem ideia". É ação espontânea, natural, livre de qualquer coação intelectual. Seu mundo interior é livre. É um estado de criatividade. Quando se atinge esse estado, as palavras são obstáculos à sua sensibilidade. A sua estabilidade mental. Os pensamento flutuam como sinal daquilo que se procura. Mas, o real está perto de nós. O sentido da busca é uma ilusão. Quanto mais se conhece menos se procura. A luz brilha com mais intensidade. Aí está a beleza de todas as coisas. Existe um hiato entre o que somos e o que deveremos ser. A nossa memória afetiva nos afasta da realidade e corta a comunicação com o mundo. Quando cessa essa preocupação é que se escreve, pinta, ou se exercita outra arte qualquer. Nesta abertura há comunicação em todos os níveis. Assim os atos humanos são integrais. Não mais existe a divisão do tempo. Passado, presente e futuro. O ser é uno e indivisível...

Meu pai era um homem pobre, honesto e trabalhador. Procurava complementar as suas atividades. A agricultura era a base. Aos sábados vendia sal na feira. Essa mercadoria era do Armazém "Estrela Polar", do velho Tomás Maia, seu amigo e correligionário político. Informado de que o subdelegado resolvera cobrar o imposto logo de manhã, os saleiros combinaram em não pagar senão, a tarde, como se costumava fazê-lo. Contudo, no momento em que o subdelegado e um policial começaram a cobrar o imposto (Chão de Feira) este foi sendo pago como se nada houvesse em sentido contrário. O velho disse eu não pago, dei a minha palavra e vou cumpri-la. O subdelegado disse com toda força de sua autoridade: "O dinheiro do imposto". Ficou acertado que ninguém deveria pagar a essa hora. "Mas todos pagaram". Eu não pago! Então o senhor está preso! Nessa ocasião ia passando o professor Arthur Maia. E disse isso não é com Clementino: "é com Tomás".

É uma provocação política, por meios indiretos. O capitão Tomás Maia, tomou todas as providências no sentido de cessar o constrangimento ilegal e absurdo. Impetrado foi uma habeas corpus ou outra mediada cabível ao caso sub judice. O Juiz de Direito era Dr. Maurício Wanderley, genitor do meu velho amigo, advogado e professor de jornalismo, Hibernon Wanderlei. O "poeta de maio", Arthur Maia veio até a nossa residência e discretamente relatou tudo o que acontecera a minha mãe. Sem dizer nada, o seu rosto ficara triste e sombrio. O dia  se passara com aspecto diferente dos outros. E Clementino ainda não chegara. A melancolia do ambiente pesava em nossos corações. Terminara a caricia do sol poente.

O velho relógio, da tarde, batera sete horas da noite. Hora em que estaríamos à mesa para a última refeição do dia. A sombra da noite penetrou por  todos os recantos da nossa casa. O silêncio tornou-se mais profundo. Minha mãe compreendeu que já esteve apercebida o tempo suficiente para o seu pensamento tomar forma, e num gesto inusitado para nós quebrou a tradição. Estendeu uma esteira ao chão e começou a servir a ceia. Sentado à maneira oriental - como se estivéssemos alcançado o Nirvana - a roda viva começou da direita para a esquerda: Gabriel, Manoel, Quitéria e José Francisco. Mais ou menos pelas oito horas, o velho chegara. A sua presença era para nós uma réstia de luz. A alegria voltou a dominar as nossas almas. Ao seu lado, os olhos de minha mãe eram mortos como se fossem olhos de retrato. Mesmo assim eram mais fortes e mais brilhantes do que a luz trêmula da lamparina. Era a sua hora favorita, o momento esperado, depois de um dia tocado de tristeza. Já se libertara dessa vida, há muitos anos. Contudo, nunca disse porque naquelas circunstâncias, trocara a mesa por uma esteira. Talvez tenha sido um símbolo do pão amargo de cada dia. Ou que um artigo de fé constitui ato de aceitação, nunca de explicação. Lembrando Vinícius: "Não houve um piquenique de políticos porque era sábado." Houve uma perseguição dos políticos contra meu pai, naquela sábado.

*Dr. José Francisco de Souza / Advogado, jornalista e historiador / Garanhuns, 2 de agosto de 1980

Foto: Feirantes na Avenida Santo Antônio na década de 1950.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Varíola dos macacos: calendário de vacinação deve sair nesta semana

O Ministério da Saúde (MS) deverá saber nesta semana quando terá as primeiras vacinas disponíveis contra a varíola dos macacos. Segundo a re...