quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

As desobrigas na Vila de Brejão de Santa Cruz de Garanhuns

Um costume de grande alcance social e religioso foi adotado por Monsenhor Afonso Pequeno: - a visita paroquial aos distritos municipais, mensalmente; e as visitas, anuais às fazendas que tivessem capela de culto público. Elas seriam sempre feitas pelo Vigário, e somente na impossibilidade deste poder ir, seria o visitante um Coadjutor. Serapião porém com doze anos já acompanhava os padres nessas viagens, feitas à noite ou pela madrugada. Essa prática passou a ser adotada em todas as paróquias do nordeste e a chamavam desobriga. Era como livrar o matuto das obrigações para com a igreja. O padre nessas visitas ia ao seu encontro, livrando-o das caminhadas e das despesas forçadas, com a sua estadia na sede. As caminhadas de Serapião eram quase sempre em cavalo chotão, na biroba de Zé Queiroz, ou em burra passeira alugada.

"Dois mil réis para o batizado e para o casamento doze mil réis"

Nessas desobrigas o padre, auxiliado por Serapião, acusava todos os que viviam maritalmente, sem terem recebido a bênção da igreja; batizava as crianças pagãs e celebrava missa nas capelas. Só havia gente pobre e boa. Serapião serviu de padrinho para algumas dezenas de crianças, talvez centenas, nas rodas de desobrigas, porque os pais não apresentavam os compadres. Os matutos não convidavam os vizinhos ou parentes porque tinham vergonha, dado o seu estado de pobreza. Algumas vezes por pura timidez. O bom sacristão e muitas ocasiões serviu de jirau, porque só aparecia o pai da criança. Seria padrinho e jirau ao mesmo tempo. Os noivos ou os padrinhos só quando podiam davam uma espórtula, espontâneo sim, embora na matriz existisse uma tabela, aliás baixíssima: dois mil réis para o batizado e para o casamento doze mil réis. Nas rodas de casamento chegavam a duas e três dezenas, e os batizados normalmente mais de uma centena, principalmente em Brejão.

Noivos trocados na Capela, casamentos suspensos por serem primos-irmãos e não terem licença do Bispo; menores sem autorização dos pais, que só apareciam na hora "H", acompanhados do Inspetor de Quarteirão. Muitas crianças eram eram afastadas da roda para discutirem um novo nome, porque o "Seu Vigário" não aceitava o nome que a mãe achou bonito e escolheu: Tricoline, Infausta, Meteoro, Deletério, Infanticida e muitos outros nomes mais bonitos... Como o Padre Luna se divertia. As desobrigas na Vila de Brejão de Santa Cruz valiam por uma festa de arraial. Havia feira, barraquinhas, leilões, etc. Os moradores ofereciam almoços e lanches aos matutos seus conhecidos. A viagem da sede para a vila seria muito longa quando era o Padre Benigno Lira, porque obrigatoriamente, na ida e na volta, passaria pela fazenda dos franceses: Fernand Jouteux e dona Magdaleine, para ouvir um pouco da ópera, uma grande ópera em preparo, jamais terminada: "Canudos". Os matutos diziam que eles eram esbilotados. Nas estradas de chão batido, que sé davam para um carro de bois, em grande parte por dentro das matas, contavam-se muitas cruzes indicando "morte matada".

Em uma noite, após a saída do Padre, a vila foi cercada por um magote de cangaceiros. E logo visada a casa do "Capitão Américo",  subdelegado, onde os padres e as pessoas de destaque social se hospedavam. Ele acabara de fazer uma limpeza numa fazenda do Distrito. Quase o Padre e o Sacristão  seriam surpreendidos com a brincadeira. O "Capitão" em companhia do filho menor Idalino, com doze anos, resistiu horas ao fogo dos cangaceiros. A sua casa era cheia de rosas, pequenos furos nas paredes para entrincheiramento, cobertos apenas pelo rebôco caiado. Ao clarear do dia, restava o estrago feito pelos bandidos: a casa quase destelhada, animais mortos, móveis quebrados e Dona Nuta ferida, debaixo de uma cama de couro, coberta por sacos de milho,  feijão e farinha. E dia claro ainda gotejava coisa do telhado. No quintal dois estavam deixados. Feridos mesmo, não foram encontrados.

Mas viu-se depois que um rastro de coisa ia da casa até o oitão da Capela, e soube-se que era do Chefe Garapão, levado para Poço Comprido, gravemente ferido, falecendo no caminho. Os seus companheiros trouxeram o corpo e sepultaram à entrada da vila, num vale onde possuíra uma roça. Seria mais uma cruz na estrada.

Fonte: Livro Um Nordestino /José Pantaleão Santos.

Fotos: (1) - Monsenhor Afonso Pequeno - (2) - Capitão Américo Ferreira de Melo.

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