quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Aula Espetáculo de Ariano Suassuna durante o 2º FLIG em 2007


Predominância da harmonia e da razão sobre a paixão. É como Ariano Suassuna concebe o clássico na literatura e nas artes em geral. A partir desse conceito o homenageado do II Festival de Literatura de Garanhuns proferiu aula-espetáculo, dia (7), no Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti, para delírio da plateia que tomou os mínimos espaços nas cadeiras e pelo chão, a fim de ver e ouvir  de perto esse ícone da literatura brasileira. E os aplausos ecoaram do princípio ao fim, entremeando toda a exposição.

Na véspera da palestra, havia dúvida sobre a sua vinda a Garanhuns. Estava ele acometido de uma forte gripe, havendo inclusive recomendação médica para não viajar. Comunicou-se, na sexta-feira (6), com o médico e seu amigo Rostand Paraíso, que já estava em Garanhuns participando do FLIG, informando-o sobre o seu estado de saúde, tendo ouvido: "Primeiro, a sua saúde; agora, se você não vier, vai ser uma grande frustração para milhares de fãs e admiradores que aguardam com intensa expectativa a sua presença aqui", disse-lhe Paraíso.

Não deu outra. Acompanhado da sua esposa, Zélia, de sua filha Mariane e do seu secretário particular Guilherme, contrariando a medicina e segurando com firmeza o peso dos seus 80 anos de vida, Ariano, pegou a estrada e, para delírio da multidão que o aguardava, desembarca às 14h30 do sábado (7), na Praça Guadalajara onde está situado o Centro Cultural de Garanhuns.

Na singularidade do seu estilo, que às vezes chama mais a atenção do que propriamente o conteúdo do que diz, o mestre Suassuna narrou a "odisseia" da sua viagem Recife-Garanhuns, na abertura da sua palestra, salientando com humor e ironia que esse "indivíduo (referia-se ao médico e escritor Rostand Paraíso) vai me pagar, um dia  (aplausos).

O homenageado do II FLIG queria mesmo era falar de arte popular. Mas fez inicialmente breve incursão pelo clássico, salientando que este tem a marca da harmonia e da razão sobre a paixão. Ofereceu vários exemplos de autores considerados clássicos da literatura universal. Situou o barroco como o segundo momento dessa cadeia (estilos) da produção artístico-literária.

POVO É O QUARTO ESTADO

Para Suassuna o Brasil já nasceu barroco, século XVI, justamente o tempo em que essa concepção da vida e do universo se expandia pelo Ocidente. E os europeus, nosso colonizadores, desembarcaram no Novo Mundo, os trópicos, trazendo essa marca que iria se fundir em mistura e culminar no que temos de melhor como arte popular.

Leia-se povo no seu melhor sentido, ao contrário das deturpações sociopolíticas que muita gente faz  quando se refere à arte popular. Lembrou o ilustre palestrante de algumas passagens da Revolução Francesa (1789) para situar o papel e a posição do povo. Naquela época havia a classificação das três classes sociais: clero, nobreza e povo. "Mas, com relação ao povo - explicou -, já existia certa enrolada porque no povo era incluída a burguesa, que ameaçava ascender ao poder; era a burguesia composta por comerciantes de tecidos, industriais etc. Então, você  tinha a nobreza, onde se incluía a aristocracia, o clero, a burguesia e o povo. Este, o povo, sim, era o operariado urbano e os camponeses pobres. Então os chamados três estados de fato eram quatro estados; e o que eu chamo povo é o quarto estado ainda hoje. O folheto de cordel, por exemplo, é a arte popular feita por gente do povo e para o povo.

Depois de situar os elementos caracterizadores desses estados, a fim de realçar a autêntica cultura popular, onde o folheto de cordel constitui uma das primeiras manifestações, Ariano declarou: "Mas a minha peça O AUTO DA COMPADECIDA, que é baseada em três folhetos populares, não é popular nesse sentido. Porque às vezes, chamam de popular uma coisa que é divulgada, ou seja, pelo fato de ser muito divulgada. Mas isto não quer dizer que seja realmente uma obra popular".

Ao lado do seu próprio exemplo, citou outras obras, até de autores clássicos, para mostrar que nem tudo que é muito divulgado pela mídia pode ser classificado como arte popular. Recitou sonetos de Shakespeare para justificar o seu entendimento.

Nesse sentido, segundo Suassuna, só existe uma forma de teatro popular no Brasil, que são as novelas de televisão porque são divulgadas de forma massiva, ou seja, ao alcance da maioria do povo. A televisão tem um público muito maior do que o teatro e o romance, não é  verdade? - indagou.

Recorreu ainda ao seu próprio exemplo: O AUTO DA COMPADECIDA, concebida em 1955, foi encenada em vários teatros; fizeram até filme. Mas só a partir de 1999, portanto, cerca de 44 anos depois, é que chegou à televisão; parecia até que eu a tinha escrito em 1998, porque eu encontrava com as pessoas na rua e elas me confessavam: "Ariano, que beleza de peça você acaba de fazer"! Sabem por que?  Justamente porque tinha sido exibida pela televisão.

Vale lembrar que Ariano Suassuna tomado por certa melancolia com que via o Brasil descaminhando a partir do golpe de 64, sem liberdades de expressão, passou um bom período afastado sem escrever nem dar entrevistas para jornais e televisão, curva-se agora à força da telinha, por entender finalmente que se trata de um veículo de grande alcance popular e que pode e deve perfeitamente ser bem utilizada na transmissão de boas obras de arte e da verdadeira cultura popular e erudita.

Recorreu a tais exemplos para explicar que às vezes as palavras são usadas com três, quatro sentidos. Então, aqueles escritores nos quais predominam a harmonia e a razão sobre a paixão são os que integram a corrente dos clássicos. O oposto ao clássico é romântico onde acontece o inverso, ou seja, a paixão prevalece sobre a razão, segundo Suassuna.

Contextualizou Machado de Assis como um clássico da literatura brasileira. Nele, Machado de Assis, esses elementos - equilíbrio, harmonia, razão e reflexão - predominam sobre a paixão. Em seguida, o palestrante citou o barroco como sendo importantíssimo para o Brasil. O barroco, no caso brasileiro, se estende desde  a obra de um Aleijadinho (pintura e escultura) até Vila Lobos, um músico barroco; Guimarães Rosa é um escritor do barroco; quer dizer, ele o barroco se caracteriza pela unidade de contrastes, de onde provém o popular, a arte popular brasileira, confirmou.

Pela unidade de contrastes, nós brasileiros, segundo Suassuna, já nascemos barrocos, conquanto, no século XVI quando os europeus chegaram até aqui, deleitando-se com o chamado "novo mundo", o continente tropical, eles já traziam o barroco, que se  encontrava em franca expansão pelo Ocidente, amalgamando-o aos valores primitivos, daí a projeção do contraste no barroco brasileiro e o sentido e alcance da nossa cultura popular.

Situou Camões, um renascentista,  como pré-barroco, porque o genial autor de OS LUSÍADAS  já incorporava essas contradições do barroco, no entender do palestrante.

E, finalmente, para realçar a fusão dos contrastes na arte e na literatura, daqui e de além mar, o criador de O AUTO  DA COMPADECIDA e de tantas peças e obras que o colocam como um dos maiores ficcionistas da literatura brasileira, daí os inúmeros prêmios e homenagens pelo Brasil afora, na passagem dos seus 80 anos de vida, dos quais mais de 60 dedicados à criação literária, recitou o seguinte poema de Camões:

Amor é um fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É mal que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;

É não solitário andar por entre a gente;

É não contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder.


É um estar-se preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata, lealdade.


Pois como causar pode o seu favor

Nos cortar os corações com conformidades

Sendo a si tão contrário é o mesmo Amor.

Fonte: Anais do II Festival de Literatura de Garanhuns - FLIG - Manoel Neto Teixeira (coordenador geral). O II Festival de Literatura de Garanhuns - FLIG, foi realizado de 5 a 8 de julho de 2007. Comissão Organizadora: João Marques dos Santos, Manoel Neto Teixeira, Luzilá Gonçalves Ferreira, Waldênio Porto, Vital Corrêa de Araújo, Lucilo Varejão Neto, Olímpio Bonald Neto, Alexandre Santos, Lourdes Santos e Ana Maria César.

Ariano Vilar Suassuna foi um dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor brasileiro. Idealizador do Movimento Armorial e autor das obras "O Auto da Compadecida" e "O Romance d'A Pedra do Reino". Foi um preeminente defensor da cultura do Nordeste do Brasil. Ariano Suassuna nasceu no Palácio da Redenção, na cidade de Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, capital da Paraíba, em 16 de junho de 1927. Faleceu no Recife, no dia 23 de julho de 2014.

Foto: Ariano Suassuna profere palestra no Teatro Luiz Souto Dourado, Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti - Garanhuns - PE.

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