sábado, 1 de janeiro de 2022

Bacharé


Dr. José Francisco de Souza*

Tipo Popular de Garanhuns - Bacharé sempre vivera aqui. Quando se afastava era para algum recanto ignorado. Diziam que alguns dos seus parentes residiam nas "Águas Belas". Poderia ser nascido naquela cidade sertaneja. A sua procedência era ignorada. Seu verdadeiro nome ninguém o sabia ao certo. Os da nossa geração o conheciam pela alcunha de "Bacharé". Sujeito que não irradiava qualquer simpatia. Estatura mediana, pálido, macerado, barba espessa. Usava um par de óculos branco, na ponta do nariz. Metido a importante e se dizia herói do Contestado, onde lutara contra os "cabanos", perdendo uma  das vistas. Contumedioso, temperamental, e muito agressivo, especialmente com as pessoas de seu nível social. Andava sempre fardado com uniforme de exército ou da polícia. Impunha-se  como conhecedor da gíria da caserna. Perfuntório, tinha obrigação moral de andar fardado. Usava um boné suarento cuja pala sombreava a sua visão ao sol. Calçava botinas velhas quase imprestáveis e perneira de couro preto engraxados de graça. Por conta do sacrifício à Pátria amada como costumava dizer. Quando lhe interpelava "Bacharé": - "Você é lá soldado nada". Respondia com ares de comandante de pelotão. "Não sou o que, seu recruta, moloide, paisano indisciplinado, cabra semiconflautico". Vai molengo dá última forma". Não sou de brincadeira e nem peixinho de ninguém" sabe?.

Andava sempre sozinho com uma tabica de cipo pau, ameaçava gregos e troianos. "Brincou vai direto para o xadrez". Sua imaginária autoridade tinha que ser mantida e respeitada.  Aqui na nossa encantadora cidade só se hospedava em casa de gente grande. Preferia sempre os prefeitos. Certa vez chegava no trem do horário, vindo não sabemos de onde, disse para um dos carregadores de frete que estava na gare da estação. "Ei rapaz vem cá", leva a minha maleta, minha valise para casa do coronel prefeito (Euclides Dourado). Você parece que não sabe o que seja valise? Valise quer dizer pequena mala. Vai leva a minha bolsa para casa do coronel prefeito, sabe? Mas o pobre "Bacharé" sabia falar inglês ao seu modo e não sabia que o coronel havia sido deposto. Então o carregador objetou o prefeito agora é outro. "Quem é agora"? É o capitão sicrano (Mário Lira). Leva a bagagem para casa do capitão não é ele o prefeito". "Comigo não tem essa história de política, não. "Sou soldado velho. E todo soldado está com o governo"" eu também sou revolucionário. "Para mim só presta e só tem valor quem está de cima". Vamos seu molóide para casa do prefeito. E assim momentos depois já estava, Bacharé, passeando pela Av. Santo Antônio como ordenança do prefeito da revolução de 30. Essa atitude vem se repetindo em todos os tempos...

Um dia "Bacharé" meteu-se numa encrenca séria. Um filho de um dos governadores perrepistas, estava aqui respirando o ar puro do nosso clima maravilhoso. Muito cortejado pelas granfinas. Uma delas era da capital. Costumava dar uns passeios pelos recantos da terra das flores ao lado do "D. Juan" dos palácios. E "Bacharé" metendo-se a agente de segurança pessoal sem ser chamado, recebeu em paga do seu chaleirismo uma bala de revolver, que quase o mata. Depois do atentado que não passou de brincadeira de mau gosto. Filhos de governadores podem alvejar à bala aos pobres, os insensatos, e isso não passa de gracinha de rapaz rico. Bacharé ficou meio avacalhado e foi embora voltando tempos depois. Não se modificara, voltou usando a mesma farda de polícia e do exército e bancando a mesma importância de sempre. Lutou segundo dizia em várias campanhas militares, falou inglês como entendeu.

*Advogado, jornalista e historiador / Garanhuns, 13 de setembro de 1980.

Foto: Garanhuns na década de 1950.

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