quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Cafés de Garanhuns


Quando o bacharel e poeta José Inácio Rodrigues, prefeito constitucional, radialista de ofício, retorna para  deleitar ouvintes da Rádio Difusora, num programa marcado na cadência de evocações - outro poeta, também como bacharel, José Ribamar Ferreira Araújo Costa, imortal da Academia Brasileira de Letras, presidente da República com o nome de José Sarney, através de uma editora de Londres, prepara o lançamento, em idioma inglês, de parte da sua obra literária, Águas do Norte e Maribondo de Fogo.

Antes de serem políticos, esses dois homens, que, na pia batismal, receberam o nome de José, evocando o pai terreno de Jesus, são pessoas que se assumem na verdadeira identidade, na vocação de escritores e no profissionalismo que praticaram, antes da assunção aos importantes cargos públicos atualmente exercidos, de prefeito do Município e presidente  da Federação! As posições do poder são efêmeras como efêmera é a própria vida através da voracidade temporal, enquanto ser poeta, vaticinado Fernando Pessoa é condição permanente antes e depois da morte.

Mas não é sobre os dois Josés a temática da crônica de hoje, embora neles tenha-me inspirado para escrevê-la, sobretudo na minha identidade com o passado vivido na nossa cidade. Com licença de Eduardo Portella, digo que José Inácio e José Sarney estão prefeito e presidente, mas, na essência fundamental das coisas do espírito, são poetas permanentes!

O título poderia ser referente à planta de Kaffa que lhe daria o nome originário da Etiópia e que , séculos depois, Garanhuns seria principal produtor de cafés finos no Nordeste ("remember" Francisco Figueira, José Custódio das Neves, major Antônio Pedrosa, dentre outros fazendeiros da minha época), um dos melhores produzidos no País e, como tal, destinado à exportação.

Minha intenção manifesta é reconduzir-me ao passado e com os contemporâneos fazer um passeio sentimental pelos Cafés: o Glória, aristocrático, dos irmãos Arnóbio e Anísio Pinto; o Central, da classe média, que sucessivamente teve como proprietários Colimério Gomes, Joaquim de Barros Lins, Fausto Souto Maior e Sandoval Soares de Almeida. Ainda na avenida Santo Antônio, situado num prédio que foi do querido Chico Leal, o Garanhuns, também hospedaria, com fundos para a Maurício de Nassau, pertencente a David Jorge Rodrigues.

O Ponto do Índio, esquina com dom José, onde hoje está instalada a Moderna Sapataria, e vice-versa, que Pedro Brandão e Djalma Miranda, seguindo os  desígnios de Manoel Paulo, tornaram-na mais elegante loja de calçados, acessórios de moda da cidade. No Ponto do Índio, de João Coimbra, pai das irmãs Acyoman, celebrizadas no início das atividades da Rádio Jornal do Commercio (Pernambuco falando para o mundo!), tomava-se o melhor café pequeno e saboreava-se as mais bem feitas empadinhas da terra, além da famosa gasosa "Princesa", sabores limão e maça, de fabricação de Luís Schetini, mais tarde de Aloísio Souto Pinto antes de ser vereador, prefeito e deputado (Garanhuns não tem donos!).

Na Santos Dumont, onde hoje uma parte da rua é denominada de Brás, o Café Avenida, de Doca (Pedro Gonçalves de Medeiros), pegado ao Café Carioca, de Adalberto Vilela, e quase defronte o de Antonio Dimitias, popular anfitrião do cronista em saborosos pratos de sarapatel, como somente ele sabia fazer na condimentação de inigualáveis temperos. Além da boa aguardente-de-cabeça, vinda do Engenho de Filinto Borges, das Antas!

O alemão Rodolfo, na praça João Pessoa, numa casa alugada ao comerciante português José Costa Leite (pai de poetas festejados, Waldimir e Ronildo), instalara-se com um café-bar, mais o último que o primeiro, onde não servia aguardente nacional que era substituída pelas similares estrangeiras: bagaceiras de Portugal, estanegras germânicas ou vodcas russas e polonesas. Os vinhos brancos eram do Reno, os rosados italianos e os tintos da Espanha, e por concessão aos brasileiros, mantinha algum estoque de  cabernês engarrafados em Caixas do Sul, região da serra do Rio Grande. Um belo dia Zé Catão, com a turma petulante do "Espada d'Água", acabou com o internacionalismo do alemão Rodolfo: chegamos e nos sentamos todos quase lotando o salão, pedimos pratos de bem preparados quitutes, que saboreamos amaciados por excelente cachaça pernambucana, cana de primeiríssima  qualidade, levada clandestinamente em preciosas garrafas sem rótulos. O alemão chiou. Porém o "chefe" Zé catão, assessorado por Pedrosinha e Nequinho, acabou fazendo Rodolfo sentar-se conosco para beber. Daí por diante o nacionalismo da cachaça pernambucana ficou implantado no sofisticado bar-café!

*Rinaldo Souto Maior / Jornalista e historiador / São Paulo, 30 de Agosto de 1986.

Fotos: (1) - Bar e Café Ponto do Índio (2) José Sarney, Wilson Campos, Dr. Othoniel Gueiros, entre outros (3) - José Inácio Rodrigues.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Concurso Prefeitura de Paranatama – PE: 180 vagas imediatas; até R$ 8 mil

Já está em andamento o concurso da Prefeitura de Paranatama, que oferta 180 vagas imediatas, com ganhos na faixa entre um salário-mínimo e R...