quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Caminhos


João Marques | Garanhuns

Gosto dos caminhos. Pequenos, estreitos, que vão só de uma casa a outra. Tortos, mas que  a vista possa acompanhar as curvas à frente. Caminhos brancos, de areia, cheios de rastros de pés descalços e de cascos de animais. Sair pisando, passando as voltas... para mim, é como o malabarista que exibe os passos na corda bamba. Pisar o chão, com o prazer de andar. Uma intimidade com o ambiente. Uma afinidade com a simplicidade, que desenha o itinerário. Como nos primeiros passos da criança. A graça da andar. A beleza do caminho. O significado da rota.

Os caminhos da minha infância... Lá vou correndo atrás de minha mãe, que caminhava. Eu notava que ela, apenas, caminhava. Eu achava graça, porque era preciso correr, para acompanhá-la. Eu achava graça. Divertia-me (brincava) com o caminho pequeno como eu. Eram muitos, meus irmãos. O caminho da cacimba. O caminho da bodega. Caminhos, cada qual com seu jeito, mas todos meus irmãos pequeninos. Depois, fomos crescendo, fomos ficando mais longe.

As trilhas viraram estradas. As estradas, pistas. Passei a andar com passos largos, a percorrer avenidas. Pouca, alguma simplicidade dos meus caminhos ainda carrego. Faço poesias e músicas a eles, meus irmãos que se foram. Saíram, como eu. Uns se perderam, quando deram em estradas mais largas e mais transitáveis. Outros, acidentalmente, desapareceram. Não sei para onde. Sei que não estão mais em seus lugares. Só existem comigo, qui na saudade.

A propósito, penso em quem nasceu na cidade grande. Nasceu e cresceu. Vive sem caminhos. Cresceu com os  edifícios. As saudades são outras. Não sei de que sente saudades. Mas, sente, porque é gente também. Contudo, ao ler reminiscências como estas, dos caminhos, padecerá, de alguma forma, como eu, a falta deles. Que caminhos seriam os seus? Por entre ruas, o roteiro da escola? A linha de ônibus que levava ao parque? Não sei. Acredito que todos nós temos caminhos, diferentes, mas caminhos.

Um dia, já grande, tomei uma estrada e fiz dela meu caminho, como gosto. Tinha andado cerca de seis quilômetros, quando, ao ver um besourinho de asas coloridas no chão, parei. De cócoras, fiquei apreciando o bichinho, enquanto o fazia subir em um jato, que eu tinha à mão. Antes, encaminhava-me em direção do sítio, indo da cidade (sem os caminhos). Aconteceu que, estando eu ali, parado, um transeunte que ia, também, da cidade, alcançando-me perguntou-se se eu vinha do sítio. Antes de dar a resposta, senti que  estava satisfeito pela caminhada e, imediatamente, resolvi voltar. Respondi que sim, que vinha do sítio. Voltei para cidade. Mais tarde, no mesmo dia, chegou um portador do sítio, vindo, também, a cavalo, para perguntar a mandado de meus pais, o que tinha acontecido, pois souberam que eu havia sido visto do sítio para a cidade, quando não havia saído de lá. Foi-me muito difícil das as explicações convincentes, pois, nem todos que viajam entendem os caminhos.

*João Marques dos Santos é escritor, poeta, diretor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns - ALG.

Créditos da foto: Anchieta Gueiros.

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