quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Casinha de Dr. Ivan - Família Rodrigues tombam imóvel na Praça Souto Filho em Garanhuns


Por Ivan Rodrigues

No dia do nosso casamento, em 7 de Julho de 1949, ao terminar a cerimônia, fomos morar neste endereço, na cidade de Garanhuns - eu e Dulce!

A praça era apenas um arremedo, tinha apenas três casas e a rua não era, sequer, calçada. Vizinhos, de um lado, o Prof. Uzzae Canuto, na casa que pertencera ao Reverendo William Thompson, que considero “o mais garanhuense dos missionários americanos que aqui aportaram”, e do outro, o meu querido primo e compadre Zito Branco. 

Do outro lado da rua, o longo muro que cercava o Colégio 15 de Novembro e - à esquerda - a sede bonita do Sport Clube de Garanhuns, hoje desfigurada.

A casinha ainda está lá fincada e continua a oferecer a mesma paisagem: Casa simples, pequena, murinho baixo vasado por uma grade de ferro bem fininha que não perturba a visão da paisagem que oferece; o ineditismo de um inusitado juazeiro junto às flores do jardim em frente da casa; um quintal grande com pitangas, acerolas, abacates, bananas, goiabas, carambolas, seriguelas, (objetos de cobiça de um bando de perambulantes saguins que não dão sossego), e - para garantir boas saladas - nunca faltam couves, coentros, salsas, espinafres, e vai por aí afora.

Até a conta de luz emitida pela Celpe traz, em seus detalhes, um endereço inconfundível e de autor desconhecido (juro que não fui eu ...): “Praça Souto Filho, 71. Em frente à Fonte Luminosa” !. Usei a Fonte, durante muitos anos, para criar um belo repuxo artificial de “NEVE”, adicionando às suas águas belos pacotes de sabão em pó cheiroso, que lhe dava novas características e proporcionava belas fotografias – ostentando a “neve de Garanhuns” - aos turistas que aqui aportavam durante o ano inteiro.

Grupos de rapazes e moças que, curiosamente, paravam em frente para admirar a casa com todas as portas e janelas escancaradas, e de forma curiosa, surpreendidos com as prateleiras da parede fronteiriça da sala, entulhada de livros, que davam à casa uma impressão de algum órgão cartorário, puxavam e curtiam uma boa conversa, sentavam no terraço comigo, bebiam meu vinho e só saíam tarde da noite.

A minha longa vida profissional obrigou-me a uma segunda residência no Recife, mas nunca me afastei dessa “casinha” charmosa, simpática e fascinante, em que criei filhos e netos, alguns ali nasceram, inclusive sobrinhos e, mesmo sem que se apercebesse, criou-se uma verdadeira mística na família em torno de sua existência. 

Parece existir um certo fascínio, uma sedução e uma aura que a circunda e atrai a atenção das pessoas que por lá transitam. Não é referência de fatos históricos, não possui qualquer componente invulgar, nunca foi palco de atrações retumbantes nem ocorrências excepcionais. É apenas uma casa como as outras...

A última pintura nela realizada conjugou uma variedade de cores surpreendente que lhe emprestou uma imagem (na opinião da família) que atrai a admiração de quem passa, dos estudantes que frequentam regularmente a praça e até dos turistas que aqui aportam durante o ano inteiro.

Levei muito tempo, procurando entender os motivos dessa atração que contaminava, inclusive, os estranhos que passavam por ela e no que diz respeito à família, é impressionante o apego, o carinho e a afeição que todos dedicam à modesta casa.

Meu filho falecido, José Ivan, foi procurado certa vez por um seu amigo que lhe interpelou: “Zé Ivan, Dr. Ivan não vende aquela casa da Praça Souto Filho, não?”, ao que meu filho respondeu de pronto: “Dr. Ivan não tem casa, não! Aquela casa é da família e não se vende, não se aluga, nem se troca!”.

Noutra ocasião, uma moça bateu na porta e quando atendida por Dulce, foi logo perguntando se ela era a dona da casa. Com a confirmação, ela pediu para que a casa lhe fosse mostrada, pois era apaixonada por ela e não cansava de “namorá-la” toda vez que passava na sua frente. Dulce mostrou-lhe a casa, advertindo, desde logo, que ela iria se decepcionar, pois a casa era modesta e não tinha qualquer atração especial; mostrou-lhe a simplicidade da casa, percorrendo com ela todos os seus cômodos. Encerrada a “visita”, a moça agradeceu o que considerou uma gentileza e lhe fez uma singela e espantosa pergunta: “A senhora não tem um filho, pra eu casar com ele e vir morar aqui”?, ao que Dulce lhe respondeu com toda a sinceridade que lhe era peculiar: “Nem invente, que você sai perdendo!”

A força da singularidade dos casos que a casa, recalcitrante, oferece; a história de quase 70 anos de convivência regular do casal e dos descendentes (filhos, netos e bisnetos), inclusive aderentes; o apego e carinho que todos sempre lhe dedicaram; a exultante alegria que revestiu a compreensão de todos os netos que transformaram o fato em festa; a generosidade e desprendimento de meu filho Pedro Leonardo que, junto com minha querida nora Malú, demonstraram ao aceitar todas as restrições impostas pela doação, como a reserva de usufruto, antecipação da legítima parte, e o encargo de preservá-la em sua forma atual, etc.; firmaram minha disposição, junto com Dulce, de criar uma regular permanência da “CASINHA DE DR. IVAN”, preservando sua inteireza física, arquitetônica, estrutural, perante algumas gerações atuais e vindouras.

Os sonhos despertos; as visões idealizadas; os desejos imaginados; as soluções arquitetadas; as decisões tomadas na busca incessante pela preservação das coisas boas da vida que nos fazem bem e alegria, e nos induz a repelir o conformismo da aceitação das esquisitices de uma falsa modernidade; e a constatação do manifesto inconformismo da população de Garanhuns, pela destruição de alguns imóveis referenciais de nossa terra.

Porque deveríamos aceitar, como inexorável, a destruição das coisas bonitas, singelas e simples do nosso quotidiano, através da inútil intenção de uma falsa modernidade? Não encontro bem estar nos espigões, nas escadas rolantes sem fim, nem adereços modernosos; considero uma maravilha as facilidades da tecnologia, mas não me escravizo aos seus condicionamentos; não me sensibilizo com comidas enfeitadas “de capa de revista”, impostas pelos “chefs” famosos; já vivi quase 90 anos com opções definidas por uma vida despojada e de poucas ambições materiais; uma vigilância atenta para descobrir e assegurar a beleza das simplicidades que fazem a VIDA BELA e me conferem a situação de ser um HOMEM FELIZ, como diria meu velho pai Zé Batatinha, a despeito de todas as agruras e dissabores que enfrentamos no dia a dia.

Por todas essas razões é que queremos avisar aos parentes, amigos e a todos que nos conhecem: Já firmamos a necessária escritura pública estabelecendo uma decisão da família, agora consolidada: a “CASINHA DE DR. IVAN”, NA PRAÇA SOUTO FILHO Nº 71, GARANHUNS, doravante não poderá ser alterada, nem modificada, e, muito menos derrubada, para garantir - como concretas e permanentes - as imagens do sonho de um velho maluco e de sua abençoada família (Ivan, Dulce, os filhos Pedro Leonardo e José Ivan (aonde estiver!), os netos Felipe, Marcelo, Cesar, Maria Laura, Ivan Neto, Danilo, Erica, Sofia, Clara e os bisnetos Maria Alice, Rebeca, Caio, Lara Giovana, Marina, Maria Clara e Hugo).

A casinha da Praça Souto Filho foi tombada pela família e todos nós esperamos que, durante muitos e muitos anos além, a imagem acima seja mantida incólume.

Fonte: Blog do Jornal O Século

Fotos: (1) e (2) - Casa Tombada na Praça Souto Filho, (3) - Ivan Rodrigues e D. Dulce na comemoração dos 60 anos de casamento, (4) Zé Ivan  (falecido), (5) - Ivan e seu filho, Pedro Leonardo.

Créditos das fotos: Ronaldo César.

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