domingo, 16 de janeiro de 2022

Casos folclóricos em Garanhuns

(Foto: Anchieta Gueiros)
João Correia Filho*

João Panta - Se porventura fosse, algum dia, contemplado com o prêmio maior da Loteca, uma de minhas primeiras medidas seria, por  certo, a contratação do primo Augustinho, cuja missão seria contar para o Milionário, com o ar facecioso que lhe é peculiar, as mirabolantes histórias que sabe.

Augustinho é uma figura jocoso-folclórica que  tem o dom de temperar com o mais carregado e  especial molho os acontecimentos do dia a dia. Os portadores de doenças neurovegetativas ou de insuficiência renal, as pessoas excessivamente preocupadas com o lufa-lufa da vida e com a sobrevivência encontram, junto ao  eclético contador de histórias, a melhor medicina.

Auscultando a memória, lembro-me do Dr. raiz morador nas cercanias da  saudosa Inhumas e que, segundo Augustinho, atendia aqueles que não dispunham de recursos financeiros para ir à procura de médicos em Garanhuns, já que a medicina, a exemplo de nossos dias, também naquela época, era privilégio de Senhores de Engenho, de Ricos e Fazendeiros. Para os menos afortunados, existia o CAÊ-GINU, com sua rica farmacopeia, extraída da fauna e flora locais, de  onde é lícito concluir que  a homeopatia não é privilégio nem descoberta dos tempos atuais.

Dr. Raiz, fugindo um  pouco ao que sugere o próprio nome, recomendava por vezes, alguns remédios de farmácia, dentre estes a Aguardente Alemã, Água Rubiná, Jalapa e outros já conhecidos e acreditados como pertencentes ao  rol de suas "mezinhas".

Certa feita, fora chamado às pressas para atender um vizinho, cujo "hobby" era comer carne. Era o famoso glutão João Panta, que até chegaram a comer 6 quilos de carne de uma só vez. Agora, voltara da  feira de Garanhuns, trazendo uma baita manta de carne, pesando 7 quilos. Chegando em casa, caiu logo numa rede, feliz e a  cantarolar, enquanto a mulher já recebera ordem para assar na brasa a metade, com que desejava entreter-se o glutão, aguardando o guisado da outra metade, que seria seu jantar. De narinas acesas e olhar devorador, João Panta estava inquieto e dando pressa à companheira, que cuidava, ao mesmo tempo, do assado no borralho e  do guisado na panela. Pronto o assado, a ele se  fez o glutão, deglutindo  grandes pedaços de carne com farinha e rebatendo com água, quando o boca - do emperrava no gogó. E  recomendava - cuida, Maria, do guisado, que eu quero comê-lo com pirão escaldado, mais tarde.

Lá pelas tantas, o guisado ficou pronto. O velho, no entanto, ao ser informado pela laboriosa companheira de que já estava tudo em ordem, mal ergueu a cabeça de dentro da rede em que jazia e demonstrou não poder levantar-se. É que, no dizer do  saudoso Coroné Ludugero, estava "inturido". A bucha que acabara de comer o empanturrara. Na verdade, comera mais de três quilos de carne gorda, com  dois litros de farinha seca e bebera um pote de água. Sua barriga assemelhava-se a uma zabumba. Estava sentindo um "farnizin", uma "arfação" e uma "laxadura" nos peitos, segundo cochichava o  estrebuchante glutão. Suas dores aumentavam de  minuto a minuto, a ponto de sua mulher não hesitar em mandar chamar o Dr. Raiz, já às altas horas da  noite. Chegando o "meizinheiro", entrou imediatamente em ação, tal a gravidade do estado de João Panta. Seus gemidos de morte, o suor e a palidez de sua face inspiravam sérios cuidados. Às presas, Dr. Raiz fabricou meia garrafa de  azeite de mamona, pilado e coado na hora. Com muito sacrifício, o paciente conseguiu ingerir a dose única. Agora, só restava esperar os efeitos do santo remédio, o que  aconteceria em questão de minutos.

Pouco depois, o velho Panta começou a estrebuchar violentamente. Estava sentindo calafrios e um terrível reboliço nas  tripas. Sua companheira, juntamente com o Dr. Raiz, após muito esforço, conseguiu retirar o moribundo da rede e levá-lo para uma queimada que ficava a 50 metros da casa. Como não havia sanitário, os dois prepararam o doente pra o que desse e  viesse. Puseram-se de cócoras, abraçado a um toco. Ali, numa posição deveras peripatética, CAÊ-GINU aplicou-lhe o resto do medicamento, que nada mais era que algumas "nargadas" de rapé. Com uma  ponta da mão, cheia da  milagrosa essência, Dr. Raiz chegava-a ao nariz do glutão e insistia: "cheire, cumpadre" Você fica bom". Tateando e pelejando entre a vida e a morte, João Panta tomou umas boas "nargadas". Os espirros fizeram-se ouvir incontinenti, acompanhados dos  efeitos desejados. A cada estampado, respirava mais  aliviado o enfermo guloso. Seus olhos se aboticavam e o suor corria em suas faces agonizantes, mas estava salvo. Mais uma vez, estava provada a eficácia do remédio GAÊ-GINU para os impedimentos provocados por caroços de pitomba, umbu, jabuticaba, caroço de jaca e outros exageros do apetite humano, além de beneficiada aquela malha de  terra com um dos melhores fertilizantes.

*Jornalista e historiador 

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