quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Centro Proletário de Garanhuns

José Pantaleão dos Santos*

O que pouca gente sabe é que  foi em Garanhuns organizada a primeira associação das classes proletárias (trabalhadores)  no Brasil. Antes dos sindicatos de Camaragibe e de Goiana, no século passado, já tínhamos o "Centro Proletário de Garanhuns" para as reivindicações dos trabalhadores, onde eram discutidos todos os problemas dos proletários, as obras políticas e sociais que iam aparecendo e sobre todas as notícias que interessavam à classe operária, divulgadas pelos jornais da Capital. Alguns tinham conhecimentos gerais de administração, de organização e até das obras de Tomás de Aquino, de Santo Agostinho, Bossuet, chegando ao estudo do ascetismo de Francisco de Assis, discutindo os assuntos que interessavam ao operariado. Numa pequena tipografia, do Elesbão, eram impressos boletins e panfletos desses debates, para distribuição gratuita entre associados.

Seu pai, embora zelador do apostolado da Oração,  era um entusiasmado nos debates do Centro. Ele contava as discussões havidas entre os modestos trabalhadores a respeito da encíclica "Rerum Novarum" lançada ao mundo por Leão XIII, em 15 de maio de 1891, depois divulgada pelo jornal "O Sertão". Para aqueles obreiros ela revelava a realidade da sociedade então existente. Mas se vê que ainda perduram seus exemplos: - "De um lado a onipotência na opulência: - Uma facção que, senhora da indústria e do comércio, torce o curso das riquezas e faz correr para o seu lado todos os mananciais. Do outro, a fraqueza na indigência: - Uma multidão com a alma ulcerada, sempre pronta para as desordens". Entre eles havia um grande orador, que falava horas seguidas, o negro Martiniano, aliás um bom alfaiate; um crítico e polemista veemente, o gráfico Elesbão. O professor Câmara, um ancião respeitável e de muita cultura; o sapateiro Calado, da Boa Vista, que se suicidou por ter sito preso injustamente.  Na Vila Regina, numa tarde, encontrou Serapião o antigo Secretário do Centro, o barbeiro Belarmino de Paula, um entusiasta, que recordou as atividades dos primeiros idealistas e as festas que se realizavam no  "Dia do Trabalho", criado em 1889, pelo Congresso Internacional de Paris. Ele não esqueceu de lembrar que no centro jamais houve um arregaço, e que ali eram respeitados os ensinamentos da Igreja.

Assim começou o nordestino a formar a sua mentalidade, sob os exemplos daqueles trabalhadores sertanejos, guardando as explicações de "O Sertão" sobre as lições do Papa da igualdade e da fraternidade, o inesquecível Leão XIII, já naquela época, compreendido pelos homens de boa vontade, no momento crítico da questão social. Hoje os governantes esclarecidos acatam o seu brado: - "Mas do que nunca, é no povo que repousa a maior parte do bem do Estado". Os Bispos do Nordeste já obedeceram à sua ordem: - "Ide para o povo! Ide para os trabalhadores! Ide para os pobres!" E aquela ordenação é transmitida aos padres, para chegar aos matutos. O Governo já ouve a voz de todos. Não esqueceu o sacristão as falações dos proletários contra o Governo e contra os políticos. E, para avivar a sua memória, chegava-lhe com um jornal da manhã uma crônica de Tristão de Ataíde sobre os problemas universais, começando: - "Capitalismo e socialismo, burguesia e proletariado saíram do Século XIX e entraram no Século XX, como dois irmãos irreconciliáveis, embora provindos da mesma fonte - o Economismo". 

Fonte: Um Nordestino de José Pantaleão dos Santos.

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