sábado, 15 de janeiro de 2022

Contos do tempo do Ginásio de Garanhuns


Clovis de Barros Filho*

São Paulo (SP) - Waldomiro era nosso colega no Ginásio. Juntou-se a nós já no meio do curso científico lá nos anos de 1966/1967. Até hoje não se sabe de onde veio e onde estudou. Sempre chegava atrasado às aulas no período noturno. Nossa turma era toda conhecida, vínhamos juntos desde o ginásio salvo raríssimas exceções como a do Waldomiro. Uma noite estávamos assistindo uma aula de Física com o professor Álvaro, quando de repente alguém bate à porta, conversa rapidamente com o professor e  pela reação dele percebemos logo que se tratava de algo mais sério. E era mesmo. O professor Álvaro pediu um minuto de atenção e deu a trágica notícia: Classe o Waldomiro desapareceu nas águas da barragem do governo. Ficou todo mundo num misto de incredulidade e tristeza. Não precisa nem dizer que a aula acabou. Muitos foram embora para casa. Outros como eu, resolvemos mesmo já noite ir à barragem a procura o corpo de Waldomiro. Uma missão no mínimo perigosa. Primeiro, que não se sabia exatamente o lugar onde ele tinha se afogado. Segundo, que a barragem era muito grande,  a área represada era enorme e  muito perigosa devido aos buracos, árvores semi-encobertas pelas águas e animais peçonhentos no brejo e nas margens. Terceiro, para completar a cena, era noite de lua clara, mais era noite, e tornava tudo mais perigoso. 

Nos dividimos em vários grupos e fomos todos em vários carros. Não havia qualquer planejamento, cada carro seguia numa direção aleatória, praticamente sem rumo certo. Nosso carro foi um dos que chegaram ao local mais provável de onde o Waldomiro teria desaparecido quando tentava pescar. Já havia algumas pessoas no local. A área era um brejo, um alagado cheio de árvores mortas e capim com a água chegando quase aos joelhos. Uma das pessoas que lá estava contou-nos que ele havia se distanciado daquela margem e após um mergulho num local mais profundo, não conseguira mais retornar à superfície. Depois de alguns minutos discutindo o que fazer e de várias opiniões, um grupo decidiu voltar para o paredão do outro lado da barragem. E foi ai que por pouco não cometi um erro que poderia ter me custado também a vida. O pessoal que ficou nas margens da represa como eu, decidimos afinal ir embora. o problema é que todos deveriam ir até o outro lado atravessando toda represa de barco já que o carro tinha retornado com outras pessoas. Havia um pequeno barco de pescadores próximo ao local da tragédia. E ai começamos a entrar no barquinho de madeira. Não me lembro bem quantos, acho que umas 4 ou 5 pessoas. Eu fui o último a entrar, mesmo com medo comecei a entrar no barco. Ao por os pés no fundo do barco senti que estava com muita água. Perguntei a um dos colegas o que estava acontecendo. Ele na maior tranquilidade me falou que tinha um pequeno furo no casco mais que não haveria problemas, pois iriam tirando aos poucos a  pouca água que infiltrava com um pequeno balde. 

O problema é que eu não sabia nadar. Refleti rapidamente sobre aquela situação. Pensei no que poderia ocorrer com o barco  já fazendo água se mais um peso de aproximadamente 60 kg que era o meu fosse adicionado. Achei melhor não ir. O pessoal tentou me convencer do contrário alegando que ficaria ali sozinho sem ninguém e se ter como retornar para casa. O medo de morrer também afogado foi maior e quem sabe aquela decisão pode ter salvado a minha vida e a deles também. Resolvi ficar naquele local ermo cheio de água, sem saber para qual lado seguir em plena noite só com a lua para me guiar. O primeiro problema que tive naquela situação foi saber para que lado deveria ir. Perdi totalmente a noção de espaço. Se ia em frente já sabia que poderia me afogar. Mais ao caminhar para os lados também pisava em buracos cheios de água e achava que estava indo pro fundo. O mesmo parecia acontecer quando tentava voltar era só água, buraco, capim e muito medo. Chegou uma hora que parei literalmente. Tentei me guiar pelo caminho que viera de carro. Porém, como  movimentamos muito pelas margens não sabia realmente o que fazer. E ai, o que parecia ser uma noite de terror de repente se fez luz. Literalmente. Subitamente ouvi um barulho de carro com os faróis ligados se aproximando do local onde estava. E lá estava a minha salvação. Era um grupo de alunos que se perdera e chegara atrasado àquela margem. Ficaram espantados quando me viram ali, sozinho com água batendo quase nos joelhos. Expliquei a eles o que tinha acontecido e pedi para me levarem de volta. Porém, má sorte quando vem nunca é pouca. O carros que os caras estavam era uma camionete a diesel só com a boleia, sem carroceria. E dentro da boleia não cabia nem pensamento mais. Havia 4 pessoas e a única opção que me ofereceram foi ir agarrado ao chassis do lado de fora, correndo o risco de uma queda fatal. Naquela situação que estava, com certeza não era mau negócio. Assim que pegaram a estrada toda de terra batida não aliviaram nada a camionete corria pra valer na buraqueira.

Fiz muita força mesmo para não soltar do chassis, caso me soltasse, seria morte certa; podendo ser  atropelado pela própria camionete. Gritava para que parassem mais eles não ouviam e assim com muita sorte cheguei vivo à cidade e foi só quando pararam o carro. Quando cheguei em casa muito tarde da noite os meus pais se espantaram com o meu visual. Todo molhado, com os cabelos eriçados pelo vento e os olhos vermelhos da fumaça do diesel. Mesmo tendo passado o sufoco da viagem, no fundo estava muito feliz por ter saído daquele inferno de água, lama e escuridão. O corpo do Waldomiro foi encontrado na manhã seguinte boiando.

*Clovis de Barros filho nasceu na Serra da Prata (Iatecá). Estudou no Colégio Diocesano de Garanhuns do Admissão ao Científico onde concluiu em 1968. Reside em São Paulo desde 1970. É Licenciado e Bacharel em Química Industrial pela Universidade de Guarulhos e Químico Industrial Superior pelas faculdades Oswaldo Cruz - SP.

*Ginásio de Garanhuns na década de 1940.

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