sábado, 1 de janeiro de 2022

De Labiata a Lagoa da Canoa

José Alexandre Saraiva

Por José Alexandre Saraiva*

A aconchegante Calçado, da Andréia Ferreira e do boi preto de patas brancas (o topônimo surgiu desse detalhe no animal), fica ali à esquerda, entrando por Jupi. Logo após Neves, distrito de Jucati, terá à frente Garanhuns, berço de Dominguinhos, do Quinteto Violado, do sanfoneiro Zé da Onça, Chá Preto, Preto Limão, do Zezinho de Garanhuns, Gonzaga de Garanhuns, de Dalva Diniz, de Anchieta Gueiros, de Antonio Vilela de Souza, de Yale Feitosa, de Zeca Preto, das vaquejadas, dos festivais de inverno e do Castelo de João Capão.

Sabedor de minha queda por Garanhuns, parada de Francisco Rodrigues de Melo antes de chegar a Labiata (Panelas) para construir, no início do século XIX, a capela Senhor Bom Jesus dos Remédios, após longa caminhada desde  Petrolina, Derinho novamente cede-me a palavra.

- Comovente a história desse castelo. O então menino de rua João Ferreira da Silva, nome de registro de João Capão, prometeu presentear a mãe com um castelo medieval igual ao por ele visto num filme exibido no cinema. O primeiro passo foi juntar pacientemente, durante logo período, o bota-fora das construções e das reformas realizadas nas casas da cidade. Doou-se ao sonho até a sua morte, aos 81 anos. A obra, iniciada já na fase adulta, quando era encanador e eletricista, recebeu acréscimos e inovações constantes. O castelo de João Capão e ponto turístico dos mais visitados em todo o Agreste Pernambucano.

Há outro castelo em Garanhuns. Direi melhor: Garanhuns é em si um monumento imaterial sedimentado e erguido nas páginas seculares de sua história. O topônimo da cidade provém de seus habitantes pioneiros - indígenas da nação cariri (Kiriri). Entre outras características, eram aguerridos, calados e sinceros. Garanhuns significa campo dos guarás e dos anuns. A  origem dos cariri, como de resto de todos os ancestrais dos indígenas brasileiros, remonta aos movimentos migratórios de ameríndios andinos. Conforme relata Abdias Moura em seu excelente livro "O Sumidouro do  São Francisco - Subterrâneos da Cultura Brasileira", arrimado em pesquisas científicas, milênios de anos antes do descobrimento da Terra de Vera Cruz, eles teriam fugido do rigor totalitário do império inca e alcançado o nosso solo.

Os primitivos habitantes das terras dos Garanhuns já estavam de certo modo amalgamados com os desbravadores brancos, incluindo europeus, e com os negros fugidos da escravidão quando, no início da década de 1690, o mestre de campo Domingos Jorge Velho estabeleceu quartel general na região para exterminar os remanescentes do Quilombo dos Palmares na Serra da Barriga. Frustrada a primeira tentativa, permaneceu dez meses com seu exército naquelas cercanias planejando o ataque decisivo. "O negro está deliberado a morrer dentro da estacada; pois está inexpugnável",  escreveu ele ao então governador de Pernambuco Caetano de Melo Castro. Por conta disso, pediu e recebeu gigantesco reforço de guerra, conforme relata o historiador paranaense Rocha Pombo, citado pelo pesquisador João de Deus de Oliveira Dias em seu belo livro "A Terra dos Garanhuns". Nesse interregno, dissipou núcleos isolados de resistência, cooptou índios e mamelucos e atraiu apoio de ruralistas em conflito com quilombolas.

A derrocada da Confederação dos Palmares rendeu vastas áreas de terras, no sistema sesmarial, a Domingos Jorge Velho e aos demais envolvidos na guerra. Descontado o quinto da Coroa, o "rateio" baseou-se no nível pessoal de comportamento no massacre. Após o lancinante massacre, os sobreviventes aptos para trabalhos braçais foram divididos na condição de escravos entre seus caçadores. Outros, com mais sorte, buscaram esconderijo nas matas e nas serras distantes. Sítios, currais e fazendas expandiram-se a galope nos arredores da Serra da Barriga e nos brejos de Garanhuns.

A uma dessas propriedades - fazenda ou sítio Tapera do Garcia, de Simôa Gomes, neta de Domingos Jorge Velho -, a História reservaria capítulo especial. Nascida no auge da campanha contra Zumbi, graças a um idílio de Miguel Coelho Gomes, filho daquele mestre de campo paulista com uma nativa cariri, Simôa, embora analfabeta, era mulher inteligente, expedita e generosa. Um dia, no ano de 1756, quando passava os olhos em suas terras montada em cavalo adrede selado, foi tomada de louvável sentimento: decidiu doar parte da fazenda, herdada do segundo casamento, à Irmandade das Almas da paróquia local. A única  condição da então sexagenária dama consistia na destinação dos rendimentos e dos frutos havidos do bem doado à celebração de missas para as almas no  purgatório. Com a finalidade de assegurar a plena satisfação de sua vontade, no termo lavrado em cartório foram nomeados procuradores da própria confraria religiosa. Cem anos depois, porém, constatado o descumprimento absoluto do requisito sine quanon, a justiça anulou a doação e declarou devoluta a propriedade, incorporando-a ao patrimônio público. Na área, encontra-se hoje a "Suiça Pernambucana", erguida entre sete colinas, são elas: Antas, Columinho, Ipiranga, Monte Sinai, Triunfo, Quilombo e Magano. Ainda no distante ano de 1887 Garanhuns recebeu sua ferrovia com ligação para duas capitais, Recife e Maceió. Os ciclos do couro, do café e, mais recentemente, do leite elevaram o município ao maior polo econômico do Agreste Meridional de Pernambuco, reunindo em seu entorno dezenas de municípios. Também é referência regional na área da saúde e na formação educacional, com destaque para os laudáveis colégios XV de Novembro, Santa Sofia e Diocesano de Garanhuns.

O legado de Garanhuns aos pósteros não se limitou ao solo fértil e às riquezas materiais nele produzidas. Na terra "onde o Nordeste garoa", brotaram expressões humanas com presença proeminente nos diversos campos do conhecimento humano. Entre eles, o engenheiro, poeta e pesquisador Ruber van der Linden, idealizador de aprazível parque ecológico cravado no coração da cidade, por ele batizado de Pau Pombo (depois oficializado com seu nome), o escritor e artista plástico Luís Jardim, laureado pela Academia Brasileira de Letras com as obras "Isabel do Sertão" e  "Proezas do Menino Jesus". No rol da vasta criação literária de Luís Jardim, foram ainda aclamados pela crítica nacional os livros "Boi Aruá", premiado em concurso de literatura infantil do Ministério da Educação, e "Maria Perigosa", vencedor em 1938 do tradicional "Prêmio Humberto de Campos" da Livraria José Olympio. Neste último certame, cuja banca contava com abalizadores julgadores, a exemplo de Graciliano Ramos, um dos livros concorrentes era o clássico Sagarana, de Guimarães Rosa, na versão original.

É extensa a galeria dos vultos históricos, literários e culturais da terra de Luís Jardim, sejam eles ali nascidos ou com raízes inquebrantáveis, alguns citados na bibliografia deste trabalho como fonte valiosa de pesquisa. Além dos já mencionados, despontam os  os nomes de Alfredo Leite Cavalcanti, com sua alentada obra "História de Garanhuns"; Augusto Calheiros, "A Patativa do Norte", filho adotivo da cidade, Manoel Neto Teixeira, nascido na vizinha cidade de Itaíba, biógrafo de Pinto Ferreira e autor do luminoso e denso livro "Garanhuns - Álbum do Novo Milênio (1811/2016)"; Márcio Mário de Almeida Santos; Arthur Brasiliense Maia; Luzinette Laporte, nascida em  Catende; Humberto Alves de Moraes; Maurilo Matos, Waldimir Maia Leite; Cônego Magno Godoy; monsenhor Adelmar da Mota Valença; Ronildo Maia Leite; Edson Mendes, Jodeval Duarte; Bahia Filho; Fernando Castelão; Rubens Vaz da Costa; Carmosina Araújo; Gladstone Vieira Belo; José Mário Rodrigues; Luzilá Gonçalves Ferreira; Luís Afonso de Oliveira Jardim; Cristina Tavares e João Marques dos  Santos, jornalista, poeta e escritor, nascido no bucólico povoado Mochila. Autor de "Temas de Garanhuns" e do romance "euHeroi", fundador do jornal O Século e compositor de músicas gravadas pelo Quinteto Violado, da mente brilhante de João Marques nasceu o hino da terra dos guarás e dos anuns:

Filhos da terra, oh! gente
Ergam a voz, brilhem as frontes
Cantando com a alma que sente
E que vai nas brisas dos montes
Salve Garanhuns!
Os jardins, as palmeiras e alguns 
Pedaços do céu... mãos divinas!
Salve as sete colinas!
(...)

A nova safra de intelectuais garanhuenses faz por merecer o bastão cultural recebido das gerações anteriores. Conta com o brilho de uma plêiade de literatos, artistas plásticos, pesquisadores, memorialistas e historiadores, a exemplo, de Igor Cardoso, autor do magistral livro "Fernand Jouteux: O Maestro de Chapéu de Couro". A obra consiste em exaustiva pesquisa biográfica sobre o maestro francês Fernand Jouteux, notável peregrino da arte musical. No fim do século XIX, ele veio conhecer sons e ritmos do nosso país, aportando primeiro no Nordeste. Atraído pelo clima de montanha da "Suiça Pernambucana", anos depois voltou para fincar raízes em Garanhuns, onde adquiriu um sítio batizado por ele de Belle Alliance. Sem delonga, dedicou-se à criação de histórica ópera inspirada no clássico "Os sertões", de Euclides da Cunha. Discípulo do compositor Jules Massenet e aclamado na Europa, Jouteux levou longos anos percorrendo o país em busca de recursos para encenar sua famosa criação, genuinamente brasileira. Já em  provecta idade, pobre e com saúde fragilizada, finalmente contou com apoio de Juscelino Kubitschek, então governador de Minas Gerais (1951-1955), estado onde viveu os últimos anos. Segundo apurou o escritor Igor Cardoso, momentos antes da estreia da ópera em Belo Horizonte, no Teatro Francisco Nunes, o octogenário e incansável maestro Farnand Jouteux desabafou feliz: "Quem, durante 40 anos, não morreu de dor, de certo não morrerá em uma dia de alegria, como este." Morreu dois anos depois. sem bens materiais a inventariar, foi sepultado em jazigo adquirido por um amigo.

- Nota: Matéria extraída do Livro "De Labiata a Lagoa da Canoa" a ser publicado brevemente.

Fonte: Jornal O Século fevereiro/2018

José Alexandre Saraiva (Panelas, 27 de abril de 1954) é um advogado, jornalista, músico e escritor brasileiro. Especialista em Direito Tributário, pertence às seguintes instituições jurídicas: Instituto dos Advogados do Paraná; Instituto de Direito Tributário do Paraná; e Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. É inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Paraná; na Federação Nacional dos Jornalistas, com registro no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná; e na Ordem dos Músicos do Brasil, Seção do Paraná.

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