quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Destruição do Patrimônio Histórico de Garanhuns

Garanhuns é, como o seu próprio nome indica, uma cidade histórica. São os guarás e os anuns. Os índios, os negros. Os sertanistas, os caboclos. O rio Mundaú, as vilas, as águas, as serras, o clima e, é tão bonito dizer isto, as flores. Os homens também. Os titulares da história, que fizeram Garanhuns... que plantaram as árvores e que construíram as casas. Os que moraram e que deixaram os sinais da passagem. São muitos, mas é urgente que se rememore um apenas. Um dos maiores vultos: Ruber van der Linden. De quem o nosso historiador Alfredo Leite Cavalcanti disse: "Um dos mais preciosos cidadãos garanhuenses" - História de Garanhuns, Vol. II, pág. 140. Este homem foi engenheiro, professor e poeta. Planejou e executou os primeiros serviços de água e de luz de Garanhuns. Os mesmos que, com os anos, sendo alterados pelo progresso, estão aí hoje, sob o domínio da Compesa e da Celpe. Teve grande participação na cultura, ensinando línguas, física e química. Organizou e escreveu muitas revistas e jornais. Fez o "Pau Pombo", hoje com o seu nome.

Homenageado também, não fazia um ano de sua morte, pelos fundadores do Grêmio Cultural Ruber van der Linden, em 1949.

Em seu famoso soneto "Garanhuns", em que deseja e prevê o progresso desta cidade, escreveu os dois primeiros versos assim: "Alcandorado no pendor de um monte/ um casario a se elevar no barro". Tempos depois (1944), construiu a casa onde morou e que foi a sua última morada: o prédio - atualmente conhecido como "O Castelinho", que fica à Avenida Getúlio Vargas, atrás do Colégio Evangélico XV de Novembro. Na época, foi uma das melhores casas de Garanhuns e continua, hoje, bonita e de valor histórico muito grande. É a casa de Ruber van der Linden! O marco que melhor pode guardar a sua memória, querida, que jamais será apagada por Garanhuns. Porque esta morada ilustre está historicamente entre "Um casario a se elevar do barro". E em barro só nunca, é o desejo da família garanhuense, haverá de se tornar.

Esta casa, não obstante o que representa, encontra-se, todo mundo sabe, abandonada. Contudo, o Prefeito de Garanhuns, promete que ela vai funcionar como um "Espaço de Cultura", onde acomodará exposições artísticas e servira para lançamentos de livros. Isto tranquiliza! O anseio é que Garanhuns não padeça. A sua história, pelas formas mais vivas e presentes, que são casas, as praças, os monumentos, não venha sofrer perdas.

O prédio do Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti, outro monumento de grande importância, foi tombado como patrimônio histórico, oficialmente. Em 19 de julho último, por ocasião da abertura do Festival de Inverno, Bartolomeu Quidute, como Prefeito, e Raimundo Carrero, como Presidente da Fundarpe, assinaram o documento definitivo. O Centro Cultural, como o nome do gremista e historiador Alfredo Leite Cavalcanti é uma memória assegurada por lei. O Grêmio Cultural Ruber van der Linden aplaudiu o ato, como Garanhuns ficou feliz. Salve a nossa história!

Matéria publicada no caderno Espaço Cultural do jornal "O Monitor" em agosto de 1996.  "Quatro meses após essa matéria "O Castelinho" de Ruber van der Linden foi ao chão".

CASA DE D. SÍLVIA GALVÃO TAMBÉM É DERRUBADA UM MÊS APÓS O "CASTELINHO"


Na tarde do sábado 21 de dezembro de 1996, quando o dia ia acabando, foi dado início à vergonhosa ação de derrubar a casa de D. Sílvia Galvão. Poucos dias depois, no Natal, a paz, que se buscara nas árvores, nos ares e nas casas, era subitamente magoada, quando os olhos de qualquer garanhuense que ama a terra, deparavam com o lugar da casa e, no lugar, os torrões, as pedras, lembrando os tempos da pré-história. Antes, em novembro, a casa de Ruber van der Linden tinha sido derrubada e, em protesto, a imprensa do Estado divulgou o crime consumado.

Garanhuns ficara abalada, tão grande como foi o tombo do "Castelinho". Pois, quando ainda se chorava a perda histórica, a ignorância escancarou os seus dedos sujos e, com a forte mão do poder e do peso do ouro, agrediu pesadamente a casa e o sentimento dos que amam. Os que amam não fazem estas coisas! Está lá, no lugar da casa, a casa vazia das suas paredes e do seu telhado. Mas continua lá... Como D. Sílvia e o não menos inesquecível Dr. Celso Galvão, duas vezes prefeito de Garanhuns, a casa azul (nunca mais amarela como era), azul ou da cor do ar.

O ar tem cor, o horizonte, a poesia, o sentimento, a cultura... mas a ignorância, não! Esta só ostenta o que pode, o que pesa.

Fonte: "Jornal "O Século" de maio de 1997.

Fotos: (1) - O Castelinho em Julho de 1996. (2) - O que restou do Castelinho em Novembro de 1996 (3) - Casa de D. Silvia Galvão.

Reflexão: A cultura está para um povo como a alma está para a vida, um povo sem memória, é um povo sem destino. É muito triste quando culturas são esquecidas, transformadas, ignoradas, mutiladas, é triste quando um povo não pode contar sua história.

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