quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

História de Garanhuns

Deusdedit Maia - Não esqueço nunca a sabedoria de um antigo ditado chinês - "Infeliz do homem que esquece seu mundo de criança" -, e é justamente dentro deste preâmbulo que relembro em Garanhuns a figura admirável de Deusdedit Maia, um dos melhores e mais justos varões que conheci, nos meus tempos de menino e da mocidade já distante.

Do engenheiro-agrônomo e escritor Alberto da Silva Rêgo, vem a calhar uma frase bem sintomática - "Minha terra não tem memória" -, querendo dizer com isto que a atual geração garanhuense, menos por culpa dela do que dos responsáveis pelo ensino da História local, não conhece, não valoriza nem cultua a memória dos  seus grandes homens. E, sabidamente, Deusdedit Maia foi um deles.

Filho do célebre capitão Thomaz da Silva Maia, patriarca de umas das mais importantes famílias de Garanhuns, o meu homenageado de hoje foi um incentivador do progresso comercial e político do Município, e, tanto numa como em outra atividade, destacou-se com eficaz liderança. Na Câmara Municipal - a da reconstitucionalização democrática de 1947 -, integrando a brilhante bancada da UDN, foi o mais ativo presidente da Comissão de Orçamento, talvez o mais competente de todos quantos já passaram pelo Legislativo garanhuense.

Aquela bancada udenista, composta por Ernesto da Costa Dourado, Othoniel Furtado Gueiros, Raimundo de Oliveira Cavalcanti, Jonas Dantas de Barros, Pedro de Souza Lima, João Bezerra Sobrinho, Uzzae Canuto e Alfredo Leite Cavalcanti, teve em Deusdedit Maia um gestor na orientação das finanças; um fiscal eficiente das dotações orçamentárias do Município. Não era homem de muitos discursos plenário, mas sua atuação dinâmica na Comissão de Orçamento, onde trabalhou como apóstolo devotado à causa pública, justificou sobejamente sua passagem pela Câmara. Não só a UDN mas toda Garanhuns política e administrativa deve muito aos conhecimentos de Deusdedit Maia.

Político fiel aos desígnios do partido do Brigadeiro, nunca alienou suas convicções e o ideário pelo qual lutou durante toda vida; como chefe de família, honesto e responsável, conceituou-se à admiração da sociedade em que viveu, honrando-a com a dignidade sobranceira dos justos. O equilíbrio humano de Deusdedit Maia era apontado na cidade como autêntico paradigma - um homem de bem à toda e qualquer prova.

Nem por pertencer aos quadros udenistas deixou de ser amigo do meu pai, desde que ele chegou de Bom Jardim a Garanhuns em 1935. Mantiveram uma sólida e invejável amizade, um relacionamento de lhaneza - sinceridade, simplicidade e lisura -, que, mesmo depois, de afastados da política e de Garanhuns, permaneceu incólume no Recife e em Olinda.

Este respeito e admiração recíproca entre Deusdedit Maia e meu pai é uma das páginas vivas de lembranças que carrego como exemplo e ao relembrá-lo vejo como foi importante esta lição de hombridade que eles souberam aprender como ensinar aos seus pósteros. Antes que a morte, esta ceifadeira impreterível, o levasse - alguns anos antes do meu pai -, Deusdedit Maia, tanto visava o velho Fausto na velha casa de Olinda, como por ele era visitado e, juntos, saudosamente, rememoravam os dias e os tempos de Garanhuns...

Já em São Paulo, desde 1949, fui a Pernambuco apadrinhar o matrimônio do meu irmão Ronaldo, e lá na Igreja das Graças, no Recife, entre meus familiares, vi pela última vez Deusdedit Maia sentado na primeira fila com a esposa, juntos de Fausto Souto Maior e Maria Irenita, minha mãe. Após, na recepção aos nubentes fiquei o tempo todo conversando com Seu Dede, um amigo do meu pai que tomei cheio de afeição. E não será preciso dizer que o centro da conversa, como não poderia deixar de ser foi um único assunto: os dias e os tempos da nossa Garanhuns...

No dia em que faleceu, recebi um 'Western' do velho Fausto: 'Morreu hoje nas graças de Deus meu amigo e companheiro de Câmara, Deusdedit Maia, um homem a quem Garanhuns deve muito'. Tenho este despacho telegráfico nos meus arquivos, imperecível como a lembrança que guardo do incomparável garanhuense.

*Rinaldo Souto Maior / Jornalista e Historiador / São Paulo, 19 de Maio de 1984.

Foto: Douglas Maia, filho de Deusdedit Maia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Secult-PE/Fundarpe divulga resultado final das propostas classificadas do FIG 2022

A Secult-PE e a Fundarpe divulgam o resultado final das propostas classificadas na análise de mérito artístico-cultural do 30º Festival de I...