sábado, 1 de janeiro de 2022

DISCURSO DO MONSENHOR ADELMAR DA MOTA VALENÇA NA APRESENTAÇÃO DO LIVRO "VERSOS" - OBRA E VIDA DO POETA ARTHUR MAIA


Desde os tempos de aluno, Ivo Amaral vem revelando, cada dia, qualidades extraordinárias. Surpreendia-me, vendo-o, criança ainda, entre uma risada e outra, retribui, com outro apelido, os apelidos com que algum colega o mimoseava. Isso sem sangas, sem brigas, sem perder a calma, coisa comum em crianças. No correr dos anos, outras qualidades foi revelando, como essas que,  como administrador público, tem revelado e que são de todos nós conhecidas. Uma qualidade, porém, surpreendeu-me, agora, mais que as outras: e de exímio estrategista. Pois, aproveitando a minha comoção, no final da missa de 7º dia da morte de minha irmã, comunicou-me que a apresentação do livro de Arthur Maia seria feita por mim. Tivesse ele escolhida outra ocasião para essa comunicação, eu saberia declinar do convite, como sempre tenho feito. Mas, ali, recebendo pêsames, com a ungida de comoção e de saudade, falhou-me por completo a válvula das negativas. Quando vim refletir, já ele ia longe e só me restava baixar a cabeça e admirar a sua estratégia, sabendo escolher a hora propícia para uma intimação. Cabe, portanto, a ele, a culpa da minha presença aqui, nesta solenidade, presença perfeitamente desnecessária, sobretudo porque,  neste livro, já existe uma apresentação  e encantadora, feita por Amadeu Aguiar. Bastaria que um de nós vieste aqui lê-la e estaria feita a melhor apresentação deste precioso livro.


Fui aluno de Arthur Maia nos  meus 7 e 8 anos de idade, ali, na rua Santos Dumont, por trás da Caixa Econômica, em 1915 e 1916. Depois de minha santa mãe, que me ensinou as primeiras letras, foi Artur Maia, o meu primeiro professor. Um encanto de mestre que, com sua delicadeza e seus métodos, diferentes dos métodos de ensino da época, estimulava em nós o progresso constante nos estudos. Não admitia soletração; de trás para diante, letra por letra, sílaba por sílaba, a palavra era aprendida facilmente. Por exemplo, a palavra "aluno" nós líamos assim_ o - no - uno - luno - aluno. Para que ficássemos  familiarizados com as letras de imprensa, Arthur Maia insistia para que, após as aulas, fôssemos separar tipos numa tipografia perto da escola, naquela mesma rua, o que era bom para nós que  aprendíamos, e bom também para o tipógrafo, que, sem gastar nada, tinha cada tarde, os seus tipos colecionados. Interessava-se até mesmo pela nossa saúde: veio, certa noite, à casa dos meus pais, aconselhando-os a aplicar em mim um certo remédio, para  melhorar a minha aparência de menino amarelo e bochechudo. Nunca  mal humorado, não nos inspirava medo. Delicado no extremo, nunca o vi empregando expressões fortes e duras  para corrigir-nos. Quando um dia, o querido e inesquecível João Tude jogara papéis no chão atijolado ele disse, sorrindo: "Vou trazer uma vassoura, para que você limpe o que sujou!" Ao que, aquele aluno, delicado como o mestre, respondeu, humildemente: "Não faço questão! Arthur Maia sabia merecer o respeito dos alunos, até mesmo naquela manhã em que, no fim do corredor declinado da sua  escola, sua jovem esposa, Maria Brasil, morena, um belo tipo de mulher, apareceu chorando alto: e quando esperávamos que ele a repreendesse, vimo-lo, ao contrário, abraçando-a, consolando-a, enxugando aquele pranto tão estranho para nós. sabia ser mestre. Se vivo fosse, estaria a lamentar a existência de certa pedagogia que recomenda a educação horizontal, colocando, num mesmo nível, mestres e alunos.

As consequências da triste hecatombe de janeiro de 1917, levaram-no a fechar sua escola. Lembro-me bem  do tom de tristeza da sua voz, quando foi avisar isso a meus pais. Tristeza de um mestre sem escola, igual a tristeza de um rio sem água.

Em versos, desabava suas tristezas. Era poeta exímio, também. Ao chegarmos aqui , naquela tarde chuvosa e fria de 22 de maio de 1913, meus pais traziam na alma a dor imensa da perda da filha mais velha, Corina, um mês antes, em Gravatá; sabedores da sua fama de poeta, pediram a ele que fizesse um soneto sobre ela. E ele não fez. Não porque não soubesse fazê-lo, mas porque não queria aumentar neles a dor da saudade que punge a alma dos pais que perdem filhos.

Neste seu livro de versos, seus sonetos ocupam a primeira parte. Foi ótimo isso. Quem não gosta de sonetos! Bem feitos, são como uma música suave que nos enche de doçura. E como são belos os sonetos de Arthur Maia. "Maio (e ele morreu num mês de maio), "Mãe", "Jesus", "Esperança", "Sapo" e todos os outros, são sonetos que causam inveja àqueles que os fazem sem saber fazê-los. Na segunda parte, outras poesias, enriquecidas de rimas, que bem poderiam figurar em qualquer grande grande  antologia do mundo. "Saudade", "Esperanças", "Jesus, meu Deus", "Noivos", "Crianças", e todas as outras, são poesias cheias de encanto. Naquela intitulada "Crianças", Artur Maia nos diz, "Por isso, eu gosto de crianças - Pois que traduz esperanças - O riso dos lábios seus - Elas são como avezinhas - Fugindo do teu céu, azinhas - Por um descuido de Deus!" Agobar e eu eramos crianças da sua escola, e posso dar o testemunho de que essa poesia expressa uma realidade, pois ele era amigos das crianças. Amadeu Aguiar diz que ele era um homem triste. Sim. Mas o que é certo é que, diante de  nós, seus alunos, Arthur Maia disfarçava sempre essa tristeza. Possuía a dignidade do silêncio. Passados os anos da minha infância, comecei a confirmar o que Amadeu Aguiar dissera e compreendi que a Arthur Maia faltara o indispensável conforto da Religião, ausente, no tempo da sua infância, das escolas por ele frequentadas. Formação cristã que só começou a ser plantada nas escolas, com a advento, em 1912, do Colégio Santa Sofia e, em 1915, do querido Ginásio de Garanhuns. Mas, de qualquer modo, havia dentro da alma de Arthur Maia, uma sede espiritual. Era aquilo e que Santo Agostinho se referia, quando dizia que nosso coração, feito para Deus, está inquieto, até repousar n'Ele. A tristeza de Arthur Maia se percebe em seus  versos, nos quais nós encontramos essa sede espiritual que a Religião lhe teria saciado.

No relatório que ele escreveu em 1923, sobre a Instrução em Garanhuns, quando se refere à sua Escola, coloca, entre os seus ex-alunos, em primeiro lugar, os nomes de Francisco Sales Jorge, que estudava num Seminário, em Roma, e o de Agobar Valença, que estudava no Seminário de Olinda.

Revela, claramente, a sua vaidade em ter ex-alunos preparando-se para o sacerdócio católico. Moço ainda, chegou no final da sua vida que lhe teria sido risonha a bela se as luzes da Religião lhe tivesse iluminado os seus caminhos.

No leito de morte, falsos amigos, tenazmente, procuravam evitar a presença de um padre. Um alma caridosa conseguiu perguntar-lhe, ao ouvido, se recebia a visita de Nosso Senhor. E ele, suavemente, respondeu: "Se eu recebo a visita de todo mundo, por que não receberia a de Nosso Senhor? Os seus "muy amigos" não permitiram, porém, a visita de um ministro de Deus. Triste infantilidade de homens que o escondiam de um padre, mas se esqueciam de escondê-lo de Deus! E, na hora extrema, aquela mesma alma carinhosa que  lhe falara de Deus, colocou, em suas mãos, uma imagem de Cristo, o crucifixo, que ele apertou e que, espero, tenha sido o Cirineu que ele, em seus versos, deseja ter e teve, naquela hora, para acompanhá-lo na "Curva extrema do caminho extremo". Morto Arthur Maia, começou, pouco a pouco, a se imortalizar como poeta e mestre.

Não digo, como Pedro II, que era justiça de Deus na voz da História, porque a justiça de Deus é sempre feita; mas digo que era a justiça dos homens na voz da História.

Imortalizou-se, logo após a sua morte, com a publicação da primeira edição deste seu livro de versos; depois, com a construção do Grupo Escolar, na Boa Vista, que tem o seu nome; depois, com a celebração de uma missa no Colégio Diocesano, no centenário do seu nascimento e com a carinhosa homenagem prestada por Ivo Amaral naquele Grupo Escolar; depois, na Academia de letras de Garanhuns, com uma cadeira que tem o seu nome, ocupada, com justiça, pelo nosso Edil Graciliano. E mais se imortaliza agora com esse gesto admirável de Ivo Amaral, que de tudo se lembra, menos de si mesmo e de sua saúde, publicando este livro que exalta a maneira de Arthur Maia.

E como saiu bonito este livro! Uma árvore, talvez o tamboril da rua da Areia, tão dentro das minhas saudades, tantas vezes visto por Artur Maia nos seus poéticos passeios a Gruta d'Água, donde voltava vendo, extasiado, esse crepúsculo que todos nós vemos a enfeitar o céu de nossa terra. Um caminho sinuoso e, acima dele, no firmamento azul de Garanhuns, que nós sabemos seu o mais belo do mundo, o nome de Arthur Maia, como um astro.

Ah! se Artur Maia estivesse vivo e pudesse ver a capa deste livro que encerra, carinhoso, os seus versos, choraria, não de tristeza que vivia na sua alma, mas da alegria que merecia ter tido; sorria e não mais diria o que disse num de seus sonetos: "E  o riso que ensaiamos, confunde-se afinal com o pranto que choramos, pois ele não é mais que o pranto disfarçado!" Parabéns, Ivo Amaral, por esse gesto de zelo pelo patrimônio cultural de Garanhuns, gesto nobre de exaltação ao nome desse querido poeta e não menos querido mestre.

Reafirmo que não era necessária esta apresentação feita por mim, pois o nome de Arthur Maia e o prefácio de Amadeu Aguiar são suficientes para ofuscar qualquer apresentação que eu fizesse. Não é apresentação, portanto; mas uma homenagem pálida e fraca, como fraco e pálido era aquele alunos de Arthur Maia, em 1915 e 1916, e que, hoje, de público, dá o testemunho de sua gratidão.

Orgulho-me de ser padre, orgulho-me  de ser ex-aluno do Colégio Diocesano; mas me orgulho, também e muito, de ter sido aluno do querido Arthur Maia. Talvez por não ser poeta, tive a felicidade que ele invejaria, de viver muitos anos mais do que  os que  ele viveu nesta terra colocada por Deus nas alturas, terra tão decantada por ele em seus versos, terra que era para ele, e que é para mim e para todos nós "um verde e querido ninho murmuroso de terna poesia..."

Monsenhor Adelmar da Mota Valença

Garanhuns, 26 de Dezembro de 1981.

Fotos: (1) - Mons. Adelmar fazendo a apresentação do livro "Versos" de Arthur Maia (2) - Arthur Brasiliense Maia.

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