quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Dois dedos de prosa com o escritor Nivaldo Tenório


O ESCRITOR NIVALDO TENÓRIO É O ENTREVISTADO DESTA SEMANA DO PROFESSOR CLÁUDIO GONÇALVES

O escritor Nivaldo Tenório de Vasconcelos nasceu em Garanhuns (PE), em 1970. É formado em Letras pela Universidade de Pernambuco (UPE). Tem participação em diversas antologias, integrando um grupo de escritores que está renovando a literatura pernambucana. Nivaldo Tenório é um dos mais prestigiados autores da nova safra garanhuense, considerado pela crítica literária como um dos melhores ficcionistas do Estado.

1) Como ocorreu seu envolvimento com a literatura?

R. No início, quando eu era só uma criança, me senti seduzido pelo objeto livro. Parece que fantasio, mas é a mais pura verdade. Eu gostava do livro mesmo antes de saber ler. Então li o primeiro e não parei mais. Escrever foi uma ação reflexa de ler. Sempre me considerei mais leitor do que escritor.

2) Que gêneros literários e escritores foram referências no início de sua produção literária?

R. Li muito Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, ainda leio Machado e também Faulkner, Philip Roth – dois autores americanos que continuo lendo depois de muitos anos – e tantos outros, citar todos é tarefa que não me atrevo, ao longo da vida construímos uma biblioteca pessoal, nela estão nossos escritores mais queridos – nem sempre os melhores – talvez aqueles por quem nos afeiçoamos porque neles vimos nossa própria face refletida, dizem que o leitor é outro Narciso, deve ser mesmo. Na minha cabeceira não falta Tchekhov, Borges, Cesare Pavese, K. Mansfield, V. Woolf, Yasunari Kawabata, Montaigne, Saramago, Fernando Pessoa. Há escritores e escritoras representantes de todas as línguas. Todos me convêm. Gosto mais dos gêneros contos e romances.

3) A partir do lançamento do seu primeiro livro, você começava a se definir como um contista?

R. Sim. Meu primeiro livro foi um erro. Gostaria de recolher todos os exemplares e queimar. Seria a mais justa de todas as inquisições, mas é verdade que nele já está delineado o escritor que me tornaria; um contista. É nesse gênero que me sinto confortável para escrever.

4) Em seu processo de criação como surge a inspiração para seus contos? Personagens e temáticas?

R. Não acredito em inspiração, é tudo trabalho, trabalho e trabalho que nasce da observação, da inquietação e do esforço tremendo de transformar tudo em linguagem.

5) Existe uma rotina ou conjunto de hábitos que precedem a preparação para a escrita?

R. Acordo cedo, e depois das coisas de praxe, preparo um café. O café não me faz bem, mas eu tento ignorar essa indisposição gástrica. Preciso de sua energia ou da rotina de prepará-lo, é algo como uma concentração antes do que me espera diante do computador. Não é sempre que ocupo a manhã inteira escrevendo, isso só acontece quando estou muito envolvido no processo de escrita do livro. Normalmente gasto as primeiras duas horas com a leitura de um desses livros que ao longo da vida elegemos para nossa biblioteca pessoal.

6) Ainda falando sobre o seu processo de criação. Quais os seus desafios e paradigmas?

R. Não escrevo aleatoriamente. Quando penso num conto, penso no conjunto de histórias e, portanto, num livro. Aprecio num livro de contos, entre outras coisas, sua unidade. Então anoto em algum lugar aquilo que quero para esse livro, os tipos de  personagens, atmosferas, ambientes e tudo que fará do livro aquilo que ele necessita para existir. A ação narrativa que deve acontecer numa determinada hora do dia, se prevalece o claro ou escuro, se algum tipo de barulho, música ou ruído é recorrente etc etc, e de tais detalhes, cores e outras nuances vou construindo mais ou menos o mundo onde acontecerão as histórias. Foi assim com meu último livro, Ninguém detém a noite (confraria do vento, 2017) o universo onde situei as personagens nasceu primeiro e só depois as personagens e as histórias. Um livro de contos precisa ter corpo, o leitor precisa respirar sua atmosfera, ficar impregnado com seu cheiro e engendrar esse universo é de fato muito difícil no começo, mas depois prevalece o prazer de escrever.

7) Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

R. Não tenho uma meta de escrita diária. Deveria ter. Sempre há um intervalo entre um livro e outro. É quando mais me dedico à leitura, algo que continua me dando prazer. Conheço amigos (escritores) para quem a experiência da leitura, depois de muitos e muitos anos, perdera o encanto, o sabor. Sinto muita pena deles, deve ser muito triste perder algo tão alentador. Então, entre um livro e outro, me comprometo só com a leitura. O intervalo pode durar seis meses, às vezes mais, até de novo me sentir invadido por certa urgência em sentar e escrever. São idiossincrasias de um diletante que nunca precisou escrever para viver. Não recomendo o intervalo. Voltar é sempre doloroso, parece que de novo precisamos aprender, o esforço é tal que o suponho além das forças.

8) Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

R. Escrevi meus primeiros trabalhos numa máquina de escrever, presente de minha mãe. Lamento que tenha perdido a máquina. Gostaria de tê-la guardado como lembrança daqueles primeiros passos. Não pelo saudosismo dos primeiros trabalhos, todos muito ruins, mas por minha mãe. Mas faz tanto tempo que escrevo no computador que domino o necessário para escrever.

9) Você dialoga muito com o escritor Nivaldo Tenório?

R. Tento dialogar com minhas personagens, mas nem sempre obtenho sucesso.

10) Você participou de oficinas literárias e fez intercâmbios em outros estados brasileiros. Como essas experiências contribuíram para a formação do escritor Nivaldo Tenório?

R. Acho que o mais importante na formação de um escritor, além de todos os livros que leu, é sua infância, sua relação com as pessoas da sua vida, suas obsessões e seu olhar para o mundo.

11) O mais instigante nos seus contos são as questões relacionadas ao subjetivo, o desvendar do enredo, uma leitura que não termina com o ponto final, o que provoca no leitor uma leitura de reticência. O que mais o escritor Nivaldo Tenório acrescentaria sobre o seu fazer literário?

R. Acho que foi O’Connor quem disse que a ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se alguém despreza o fato de ser pó, é melhor não tentar escrever ficção. Acho que ela tem razão. Somos pó e parece que não há nada que possamos fazer a respeito. Herdei isso de meu pai; um melancólico desconsolo com a nossa finitude e transformei essa obsessão em tema de meus contos, pois o que vejo é a dimensão trágica do mundo muito além do alcance de nossas ações. Duvido do livre  arbítrio. E é essa dimensão humana, marcada sobretudo pelo efêmero aquilo que é o objeto de minha literatura. De fato, é isso o que sempre me fascinou na boa literatura. Mas nada disso tem importância se não se consegue progresso na forma, e transitar pelo secreto, as reticencias, o não dito, foi o modo que encontrei de transformar minha obsessão em literatura. Gosto do texto que sugere mais do que diz, por isso exploro as camadas do conto buscando o sentido secreto por trás das ações de personagens, e não estou interessado nos grandes feitos, mas nas coisas mais comezinhas, é ali que encontramos o humano.

12) Na sua trajetória literária você ganhou alguns prêmios, recebendo o reconhecimento de autores consagrados como Raimundo Carrero que o considera um autor sério, criativo, habilidoso artesão e ótimo ficcionista. Poderia nos contar sobre seus prêmios conquistados e como se sente em fazer parte dessa geração responsável pela renovação do gênero no estado?

R. Vou responder dizendo que ainda há tanta coisa pra fazer que nem penso em prêmios ou se contribuí com alguma coisa. Devo me concentrar em terminar de escrever o próximo livro. Só ele importa.

13) Nos seus livros “Dias de Febre na Cabeça” e “Ninguém Detém a Noite”, os personagens se encontram em situações limites. Podemos dizer que o escritor Nivaldo Tenório em suas narrativas busca refletir as questões de conceito e do seu tempo?

R. Sim. Quando escrevemos refletimos sobre nosso tempo, e a dimensão humana, marcada sobretudo pelo efêmero, como eu já disse, é o objeto de interesse da minha literatura.

14) Analisando a sua trajetória literária, quais as mudanças que você considera no seu processo de escrita?

R. Sempre me impressionaram os escritores que produziram suas melhores obras na juventude. Rambout me parece um milagre assim como Mozart, eles riem do meu esforço quixotesco. Eu precisei do tempo e a garantia da experiência que se ganha com ele. Aos 19 anos o poeta deixou de escrever. Já havia feito o suficiente para garantir-lhe a posteridade. Aos 50 eu acho que só acertei o passo.

15) Existe algum ideal de pensamento de escrita que você ainda persiga?

R. Acho que só deixamos de perseguir esse ideal quando desistimos de escrever.

16) Qual o momento você considera que foi marcante na sua trajetória literária?

R. Se você está se referindo a visibilidade, acho que foi o lançamento do Dias de Febre na Cabeça, ainda pelo selo u-carbureto, selo criado por mim, Mário Rodrigues e Helder Herik que nele também publicaram suas obras. O livro, apesar de todas as dificuldades – sem distribuição ou mídia – conseguiu chamar a atenção da crítica, e tive resenhas favoráveis em jornais de literatura como O Rascunho, de Curitiba, suplementos culturais e cadernos de cultura de muitos jornais importante dentro e fora do Nordeste. Críticos importantes como o Sérgio Tavares deram nota máxima ao livro. Acho que foi a partir desse momento, fora da minha cidade, que fui de fato reconhecido como escritor.

17) Como você avalia o ambiente literário em Garanhuns?

R. Esse ambiente já foi avaliado por jornais da capital, tivemos uma matéria de duas páginas no Diário de Pernambuco, e a avaliação que se fez é ótima, tem muita gente boa fazendo literatura aqui.

18) Considerado um dos melhores contistas da nova geração, como você definiria esse gênero literário?

R. Como o melhor gênero e aquele no qual meu esforço é recompensado.

19) Existe algum trabalho prestes a ser pulicado?

R. Sim. Neste momento finalizo mais um livro de contos que deve ser publicado no final deste ano ou começo do próximo.

20) Agradeço por conceder essa entrevista e pela atenção para com os leitores e admiradores.

R. Também agradeço a entrevista. Muito obrigado.

*José Cláudio Gonçalves de Lima, Garanhuense, professor, Pós-graduado em História, Pesquisador, escritor e Sócio fundador do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns.

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