quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Dois dedos de prosa com o escritor Mário Rodrigues


O ESCRITOR MÁRIO RODRIGUES É O ENTREVISTADO DESTA SEMANA DO PROFESSOR CLÁUDIO GONÇALVES

O escritor Mário Rodrigues é natural de Garanhuns. Professor de Português, Literatura e Redação. Atualmente é um dos principais destaques da literatura nacional. Contista e romancista, Mário Rodrigues vem colecionando leitores fiéis, prêmios literários nacionais, críticas elogiosas e obras que causaram grande impacto no cenário da literatura brasileira. O consagrado escritor fez sua estreia na literatura ainda na infância, os primeiros passos de um jovem leitor, que se tornaria um talentoso escritor, por sua originalidade de estilo, estética, técnica e narrativas que encantam os leitores. Mário Rodrigues é um orgulho da Cidade das Flores, um diamante da literatura, que já passa a integrar a galeria dos consagrados escritores garanhuenses e brasileiros.

1. Como surgiu o seu interesse pela literatura? Seu envolvimento com a escrita foi acontecendo a partir das primeiras leituras?

R - Comecei a ler muito cedo. Fui alfabetizado, na verdade, pela minha irmã mais velha. De maneira que, antes mesmo de ir para a escola, eu já conseguia ler. Isso fez com que eu entrasse no universo da leitura muito cedo. Embora na minha casa não houvesse muitos livros, mas os livros que lá havia me chamaram muito a atenção. Entendi, então, o grande prazer da leitura. “Uma espécie de felicidade”, como disse Jorge Luís Borges. Enveredei por esse universo onde estou enredado até hoje. Acredito que, sim, o destino de todo leitor fanático é acabar num momento ou outro da vida utilizando a expressão escrita como forma de comunicação e de estar no mundo. Não há escritor que não seja um grande leitor. É uma impossibilidade.

2. Há diversas maneiras e razões pelas quais alguém se torna escritor. Acredito que o autor Mário Rodrigues tem uma bela história do início de sua consagrada e reconhecida carreira literária.

R - Costumo comentar nas mesas e palestras a que participo que tenho um privilégio. Tenho plena consciência de quando comecei a escrever. Eu havia ganhado uma máquina de escrever do meu pai - uma Olivetti Lettera. E, em homenagem ao meu pai, escrevi um conto, pouco original, era um filho que gostava muito do pai etc. E com aquela pequena história presenteei meu pai. Meu pai era um homem nordestino-raiz, nunca chorava. Mas com aquele conto nas mãos, eu gosto de imaginar que vi seus olhos marejados. Meu pai guardou aquela história com ele até sua morte. Então, percebi o poder da palavra escrita de emocionar e tocar as pessoas. Ao ver essa força da literatura, decidi fazer isso, emocionar as pessoas com minha escrita. Tocar esse nervo da sensibilidade do leitor, fazer com que ele saia da sua zona de conforto e, através de minha literatura, vivencie algo novo.

3. Por duas vezes, você foi semifinalista do Prêmio Nacional de Literatura promovido pelo Sesc e recebeu uma Menção Honrosa na categoria romance. Em 2016 seu livro “Receita Para Se Fazer um Monstro” venceu o concurso na categoria contos e foi finalista do Prêmio Jabuti, além de ser publicado pela renomada Editora Record. Podemos considerar que além da excelência da obra, o prêmio trouxe uma visibilidade nacional para que seu trabalho conseguisse alcançar tamanha repercussão? Qual a maior recompensa de se ganhar um prêmio de Literatura?

R - Bom, primeiro eu quero pontuar que a pessoa escrever e fazer sua literatura independe, naturalmente, de sucesso comercial ou fama, a sua arte deve existir por si mesma. Você quer confeccionar uma obra e essa é sua expressão artística, então você deve respeitá-la e aprimorá-la. Por outro lado, sabemos que existe o mercado literário. Esse mercado é muito fechado pelas dificuldades de distribuição que nós temos inerentes ao Brasil em diversas áreas, inclusive na literatura. Por ser um mercado muito fechado, algumas obras não têm a visibilidade que mereceriam ter. É onde entra o Prêmio Sesc de Literatura. É a maior iniciativa nacional para a divulgação de um livro. O livro é publicado pela Record, uma das maiores editoras do Brasil, e distribuído pelo país interior. Além disso, o Sesc faz com que o autor premiado cumpra um circuito nacional divulgando seu livro. Isso é o sonho de todo autor: ele vai ter o livro bem editado, bem distribuído, oportunidade de falar sobre a obra para o público. Isso vai aumentado sua base de leitores. Dará repercussão ao livro e abrirá espaço na imprensa estadual e nacional. Mas o maior prêmio é ter o leitor, é saber que sua obra está chegando até às pessoas. E é este o objetivo de todo escritor que publica: encontrar-se com seu leitor.

4. Entre os vários momentos mais marcantes de sua carreira literária, acredito que uma delas foi à homenagem recebida na Academia Brasileira de Letras, logo após lançamento do romance A Curva Secreta da Linha Reta. Que recordações você guarda desse memorável reconhecimento da ALB ao seu trabalho literário?

R - Nessa trajetória literária, eu tive dois momentos bem marcantes relacionados à Academia Brasileira de Letras. Um deles foi quando eu recebi uma Menção Honrosa, ela foi entregue a mim na ABL, no Rio de Janeiro, com a presença de alguns acadêmicos (imortais), naquele cenário que realmente remete a Machado de Assis, seu primeiro presidente, e a tantos outros nomes que na minha admiração são marcantes e que passaram por ali. Estar naquele recinto em virtude de um feito literário é algo inesquecível. O outro aspecto é que o presidente da ABL, Geraldo de Holanda Cavalcanti, leu meu livro A Curva Secreta da Linha Reta e escreveu um texto sobre a obra - um dos textos mais elogiosos já escritos sobre minha literatura. Claro que, como toda instituição, a ABL não está livre de críticas, mas esses momentos inegavelmente foram bem importantes.

5. Receita Para se Fazer um Monstro, é uma obra que traz um recorte temporal dos anos 80 e começo dos anos 90 e que atravessa a infância de um menino que protagonizará todos os contos do livro e, cada nova história, percebemos detalhes que se cruzam em momentos distintos de sua existência, numa trama em que cada história se encaminha para um desfecho quase sempre cruel. Em alguns momentos a maldade do personagem incomoda, em outros há certa empatia com aquele que causa tantas crueldades. Tentar entender como tratamos a infância e o mundo com todas as suas mazelas foi os motivos de inspiração para dar vida a este personagem ou houve algum fato ou vivência para a construção do enredo?

R - Receita para se fazer um monstro é uma obra que pretende se debruçar e refletir sobre a infância de um determinado personagem, suas experiências, e como isso acaba reverberando mais tarde na construção da personalidade de menino. Inclusive, nas suas escolhas adultas. É como se as experiências infantis fossem, de fato, os ingredientes responsáveis por mais tarde gerar adultos monstruosos. O livro tem uma armadilha sentimental, porque, ao fazer o recorte dos anos 80-90, as pessoas que são dessa geração se sentem fisgadas pelas boas lembranças da época, brincadeiras e lugares que remetem à infância de muitos. Mas, ao mesmo tempo, essas histórias são cravejadas por atos de crueldade e sadismo. Essa escolha narrativa coloca o leitor numa situação ambígua. Por um lado, ele se aproxima afetivamente do personagem, mas ao mesmo tempo, se sente rechaçado pela violência do mesmo. Escrever é a mistura entre invenção e memória. Os contos são ficcionais, mas ao ativar a memória do escritor e do leitor, ganha a potência capaz de virar literatura. E, óbvio, como disse o pintor Goya, ao ser perguntado por que pintar barbaridades, respondeu: “Para dizer aos homens que não sejam tão bárbaros.”.

6. O romance A cobrança alcançou grande repercussão, um sucesso na critica literária e esportiva, numa narrativa que tem como palco dramático a final da Copa do Mundo na Rússia entre Brasil e Alemanha, tendo como dilema os segundos que antecedem a cobrança de um pênalti decisivo pelo jogador Saúva, num instante quase congelado, em três atos, a narração familiar do protagonista se desenvolvendo no remonte dos acontecimentos político-sociais que determinaram os últimos 30 anos do Brasil e os questionamentos do protagonista dentro daquele gramado. Qual a receita para se fazer um romance com uma narrativa tão brasileira e universal, com um personagem rico em toda sua complexidade, linguagens singulares e ainda problematizar os contextos político-sociais atuais que afligem o nosso país?

R - A cobrança traz um personagem chamado saúva. Ele é volante e capitão da seleção brasileira de futebol. Vai bater um último pênalti numa fictícia final de Copa do Mundo, entre Brasil e Alemanha. Encontramos esse jogador, portanto, já adulto, maduro, aos trinta anos. Todavia, à medida que ele se dirige para a cobrança, através de flashbacks, nós vamos conhecendo a vida desse personagem. Ele acaba sendo um daqueles personagens que nós encontramos em abundância pelo Brasil. É aquela pessoa cujo Estado brasileiro simplesmente sonegou todos os seus direitos, inclusive aqueles preconizados na lei máxima da nação, a Constituição. E o Estado brasileiro lhe nega tudo, mas, além disso, as medidas políticas tomadas na macroeconomia acabam afetando diretamente as microvidas dos personagens, como a vida do pai e da mãe de Saúva. Aquelas medidas ocorridas no Plano Collor fazem com que a família se desestruture e se acabe - e o Saúva passa, na juventude, por uma série de privações e sofrimentos. E agora, diante da cobrança de pênalti, ele tem a chance de dar a esse país, que tudo lhe negou, uma alegria imediata e um orgulho perene por ser campeão do mundo. E ele questiona se isso vale a pena ou é a chance de ele se vingar desta nação. Para fazer esse romance, foi preciso estar atento à nossa dinâmica social. É preciso certa dose de empatia, para que o escritor consiga captar os dilemas, a voz e as aspirações daqueles que, muitas vezes, estão à margem. E vê como tudo isso se transforma em linguagem. A linguagem técnica e fria do noticiário político, totalmente indiferente para os mais fracos. A linguagem interna, que é o pensamento do personagem, que reflete essa angústia da possibilidade de ser vilão ou mocinho, num país em que só vilões se dão bem. E a linguagem fragmentada como representação da vida íntima fragmentada. Esse microcosmo amplia, como lupa, nossas questões sociais presentes.

7. Em seu processo de criação como surge às ideias e inspirações para os seus romances e contos? Podemos considerar resultado de suas vivências e influências literárias?

R - Todos os meus livros primeiro nascem de um tema central sobre o qual eu preciso refletir, me sinto instigado a refletir. Por exemplo, nos dois livros anteriores, eu queria refletir sobre a infância e sobre como agir se tivesse em mãos a oportunidade da vingança. Depois do tema, penso num personagem que consiga catalisar aquela discussão. Como ele seria influenciado, como agiria, que tipo de linguagem seria a ele apropriada, que tipo de circulação social nos veríamos da parte dele. Então, entra a questão técnica da literatura. O foco narrativo, a pessoa, o ritmo do texto - se cadenciado, se veloz. Saídas e soluções para dar verossimilhança àquela história. Nesse processo, as influências literárias, todo o cabedal de leitura que o escritor carrega, acabam aparecendo.

8. O escritor Mário Rodrigues escreve todos os dias ou períodos concentrados? Existe um conjunto de hábitos ou rotina que precede o seu processo criativo?

R - Quando eu era mais jovem, antes de me casar e das responsabilidades típicas de um pai, eu escrevia todos os dias. Todas as manhãs eu me dedicava à literatura em certo horário. Depois, o tempo ficou mais escasso. De lá para cá, minha rotina tem a seguinte dinâmica. Passo boa parte do ano tomando notas, fazendo leituras, planos de escrita, arcos romanescos - e concentro a escrita efetiva no período de férias. Sou professor, então, entre novembro e janeiro, concretizo a escrita daquelas notas, cenários e enredos que vinham sendo anotados ao longo do ano. Na produção mesmo da escrita, o chamado trabalho de carpintaria, aí é necessário alguns rituais: escrevo na minha mesa de trabalho, preciso de silêncio e de café, muito café. Na elaboração do livro - e isso é um conselho pra quem escreve -, planeje o livro todo: o arco narrativo, as personagens, a epígrafe, a dedicatória, a orelha, o título, a organização dos capítulos etc. Imagine o livro pronto. Isso será um estímulo pra encerrar a obra. É muito comum o livro “gorar”, parar no meio. Com esse estímulo, você vai ao final com mais segurança.

9. Autor de contos premiados e finalistas de vários concursos literários. Como foi a trajetória para começar a escrever romances?

R - Não veja diferença de valor nos gêneros literários. Acho que um contista genial e um romancista genial têm o mesmo valor literário. Mas, como todo prosador, comecei a escrever narrativas menores, contos. Porém, percebi, e até hoje percebo, que penso de maneira prolixa, mais ampla. É como se pintasse painéis e não quadros. Mesmo gostando e produzindo contos, acredito que sou um narrador de histórias longas. Isso começou com 20 e poucos anos, quando publiquei meu primeiro romance A suíça Pernambucana, em homenagem a Garanhuns. Na minha literatura, me interessa discutir muitas coisas simultaneamente, então os vários conflitos - políticos, sociais, psicológicos, artísticos  pendem mais espaço. Na verdade, gosto da imperfeição narrativa que o romance permite.

10. Qual a sua avaliação dos cursos de escrita criativa, laboratórios e oficinas literárias na formação de novos escritores?

R - Acredito no talento e acredito na técnica. Creio que, de fato, há pessoas com uma predisposição para escrita e elas podem saber expressar-se melhor artisticamente falando através da literatura. Assim como há pessoas que veem as cores e as formas de modo especial - e se sentem melhor produzindo artes plásticas. Isso é vulgarmente chama de talento. Mas a técnica é e sempre será imprescindível. É saber entender das ferramentas que você tem à sua disposição. O material bruto que você acessa. A relação dessas ferramentas com o objetivo final do processo. De maneira que não vejo dificuldade em conciliar as duas coisas. A pessoa tem talento e esse talento pode ser aperfeiçoado através do conhecimento técnico. Daí entram os cursos, oficinas e laboratórios de criação literária - e são bem-vindos. Nesse espaço, geralmente o que acontece: um professor, com um repertório maior da técnica, acaba mostrando àquela pessoa, que teoricamente tem talento, que ferramentas utilizar. Não há demérito nisso. Vejo com bons olhos. Sem falar no cenário que se cria: pessoas que gostam de literatura falando sobre livros e isso é engrandecedor. Mas, é claro, como todas as ofertas de todos os cursos, desde se fazer um sapato ou costurar um paletó, tem que se escolher um bom professor, que tenha bagagem e conheça do métier.

11. Você foi uma das grandes vozes do Festival de Literatura de Garanhuns, que reunia talentosos escritores locais e nacionais. Atualmente contamos com o excelente trabalho desenvolvido pelo Sesc no incentivo e divulgação de escritores e, duas bienais, o Festival de Literatura Infantil e a Bienal do Livro do Município de Garanhuns. Além desses eventos, o que poderia ser feito para que os escritores garanhuenses e da região pudessem ganhar mais visibilidade?

R - De fato, foi muito bom lembrar o trabalho do Sesc, que é um trabalho essencial, primoroso. Merece todos os elogios. E realmente tem transformado, na medida do possível, o cenário da literatura no Brasil e na nossa cidade. Afora isso, tem dois aspectos que precisam ser trabalhados para que a literatura produzida em Garanhuns e região tivesse mais visibilidade. O poder público deveria ter uma política permanente voltada para os escritores e leitores da cidade. Lembrando que Garanhuns tem, historicamente falando, uma vocação literária. E, atualmente, tem sua melhor geração literária de todos os tempos. Essa é sua identidade artística: a literatura. O poder público poderia ter uma ação para publicar essas obras, ajudar a distribuí-las na própria rede municipal de ensino e através de bibliotecas. Deveria estudar como adquirir obras de escritores de Garanhuns e fazê-las circular em nossa sociedade. Poderia levar esses escritores às escolas da cidade e fomentar o público leitor. Cabe, ainda, uma festa literária em Garanhuns. O outro aspecto: a mentalidade dos habitantes locais, ou seja, consumir a sua própria literatura garanhuense.

12. Atualmente está trabalhando em uma nova obra? Poderia revelar aos seus leitores?

R - Sim, vem livro novo por aí. Tudo indica que o lançamento será em novembro, vai depender é claro do andamento da pandemia, mas essa data está sendo colocada como norte. É o tão esperado livro intitulado “A Morena”. A narrativa é uma grande reflexão sobre o amor. Sobre os mais variados aspectos desse sentimento. Nós sabemos que O Banquete, de Platão, é a base da reflexão sobre o amor no ocidente. Ali vários personagens discursam sobre o amor, espalhando os vários tentáculos do sentimento amoroso. “A morena” traz essas várias óticas relacionadas ao sentimento amoroso, para muitos o mais poderoso de todos. O livro é um grande catálogo de encontro e desencontros. Nas palavras do historiador Pedro Henrique Teixeira, que escreveu a orelha: “É um livro-aula. Onde você saberá sobre filosofia, arte, literatura, a química dos carbonos, a química que vai nos olhares dos amantes. Neste livro, você se emociona aprendendo e aprende se emocionando.”

13. Agradeço pela oportunidade de entrevistá-lo e o parabenizo pelo seu talento, conquistas e brilhante carreira.

R - O prazer foi todo meu. Aproveito para parabenizá-lo pela iniciativa em dar visibilidade à literatura produzida na cidade. E elogiá-lo também pelo seu livro “Os sitiados”, que li com prazer, logo depois do seu lançamento. Um livro que deveria ser lido por todos em Garanhuns.

Obras publicadas pelo escritor Mário Rodrigues:

A Suíça Pernambucana (2002);

A Madrugada dos Anjos (2003);

A Curva Secreta da Linha Reta (2011);

Brasil, 2014 (2012);

A Galega (2014);

Receita para se fazer um Monstro (2016);

A Cobrança (2018);

A Morena

*José Cláudio Gonçalves de Lima, Garanhuense, professor, Pós-graduado em História, Pesquisador, escritor e Sócio fundador do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns.

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