quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Dominguinhos Canta e Conta Gonzagão

Manoel Neto Teixeira (Foto)*

Sob o título acima circula nas redes sociais (internet) o filme (audiovisual) em que o cantor/compositor/sanfoneiro narra, na primeira pessoa, sua relação – familiar, profissional e sentimental com o seu padrinho (Gonzagão) e ele próprio, o afilhado, desde 1954, quando do primeiro encontro, casual, na porta do então sanatório/hotel Tavares Correia, em Garanhuns.

Era uma manhã de sábado, mês de junho de 1954. Gonzagão, já consagrado nacionalmente como O Rei do Baião, reunido que estava no grande salão do Tavares Correia, ouve um som de sanfona de oito baixos vindo de fora para dentro. Era o pai (Chicão), acompanhado pelos três filhos, menores de idade: Valdomiro, Morais e Domingos, que faziam a singela percussão.

Costumavam tocar na calçada do Tavares Correia e de outros hotéis, onde presumiam, se hospedavam pessoas importantes que, foi não foi, jogavam um dinheirinho dentro do chapéu de palha estendido na calçada. Naquela manhã, tudo foi diferente. Quem os escutava, lá dentro, era o Rei do Baião. Chamou-os até o salão e ouviu de perto o som dos oito baixos de Chicão e a destreza com que se acompanhava pelos próprios filhos. Algo singular.

Sem maiores conversas, “puxa do bolso um pacote de dinheiro e encheu o chapéu dos matutos tocadores”, revela. E, por último, entregou-lhes o seu cartão pessoal com o endereço do Rio de Janeiro, dispondo-se a recebe-los lá. Foi o que aconteceu, poucos anos depois: “pegaram um pau de arara”, o transporte da época, e depois de 11 dias varando estradas empoeiradas, desembarcamos na então capital do Brasil”.

Dominguinhos conta haver perguntado ao pai quem era aquele. Pois, na sua casinha, zona rural de Garanhuns,  não tinham um aparelho de rádio, à época, o principal meio de comunicação do Brasil. Faltava-lhes dinheiro para tanto. “Eu não sabia de quem se tratava, nem ele nem outros ídolos da Música Popular Brasileira.

Nasceria ali, naquela manhã daquele sábado de 1954, um “namoro” que só a morte acabaria. Foi o que aconteceu. No Rio, vão à procura de Gonzagão, em sua mansão no bairro grã-fino do Méier. São recebidos com carinho e atenção. Lá pras tantas, o Rei entra num quarto e volta com uma sanfona de 80 baixos, “novinha em folha”, e presenteia Chicão e os meninos.

Qual não foi a alegria de pai e filhos. A partir daí, o ainda Domingos, começa a tocar, como solista, em boates do Rio, e logo depois em emissoras de rádio, onde era conhecido como “Nenê”. A primeira mudança, vindo do Gonzagão, foi para que ele, ao invés de “Nenê”, passasse a se chamar Dominguinhos, pois soaria melhor como nome artístico. O jovem não hesitou e logo mais estaria conhecido e consagrado nos meios artísticos com o novo nome.

Dominguinhos conta esse e tantos outros fatos que se passaram ao longo de sua relação com o Rei, inclusive quando, ao saber que havia engravidado sua namorada, conta o fato ao seu pai, este não hesita e determina que ele teria que se casar. Dominguinhos não tem dúvida, vai em seguida ao encontro de Gonzagão, conta-lhe o fato e formula o convite para ele ser o padrinho do enlace. Qual não foi o esporro: “Como é, rapaz, você não tem juízo não, um moleque com 17 anos se casando. Eu só casei aos 34 anos e não foi nada fácil. Desapareça daqui, não quero saber dessa conversa não”.

Conhecendo já o temperamento do Rei, foi não foi, um tanto explosivo, sem meias palavras, volta cabisbaixo; oito dias depois, é chamado por Gonzagão, que decide ser o seu padrinho de casamento, juntamente com Helena, sua esposa. Foi aquela festa, com direito a fotos e tudo mais, conforme consta no filme. 

Dominguinhos revela essas e tantas outras passagens e momentos vividos na companhia de Gonzagão, colhendo e assimilando seus conselhos e lições, estradas afora por onde circularam realizando shows e apresentações, em praças públicas, circos, auditórios de rádios e teatros em todas as regiões do Brasil. Atuando inclusive como seu motorista que, foi não foi, recebia um esporro.

Conta que certa feita, foram embarcar num aeroporto do Rio, quando Gonzagão aponta para um avião de grande porte e diz que, qualquer dia, compraria um e transformá-lo-ia numa grande boate, onde só tocaria música nordestina.   

Com a simplicidade e humildade que marcaram sua pessoa, seu jeito de ser, não obstante a força de sua veia artística, Dominguinhos fala mais sobre o seu padrinho, artístico e de casamento, e menos de suas próprias vitórias como mestre da sanfona, compositor de vários sucessos, gravados por muita gente importante da MPB. Dedica maior parte da gravação discorrendo sobre fatos pitorescos e sua convivência ao lado do Rei, a revolução que a obra de Gonzagão projeta além fronteiras. Ele que cantou como ninguém a alma, a beleza e as intempéries que marcam a paisagem e vida do sertão nordestino. Suas festas, onde o São João é o grande rio que invade as casas e encanta almas e corações de todos, da roça às cidades.   

*Autor, dentre outras, da obra GARANHUNS – ÁLBUM DO NOVO MILÊNIO (1811-2016), é membro da Academia Pernambucana de Letras, cadeira 44). E-mail: polysneto@yahoo.com.br

Texto transcrito do Jornal O Século.

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