sábado, 22 de janeiro de 2022

Educador de homens

João Marques | Garanhuns

Uma cidade não é o mundo todo. Pode ser conhecida e engrandecida no mundo, contudo. Um homem que viveu ou vive numa cidade não é a humanidade toda. Pode representar, entretanto, os melhores de um tempo. Quantos heróis, das pequenas cidades e das grandes, não chegam a ser reconhecidos. Esta cidade de Garanhuns tem uma história assim.

Conheci Padre Adelmar da Mota Valença. Foi meu Diretor no Colégio Diocesano de Garanhuns. Conheci o Educador. A primeira vez, quando era ainda menino. Depois, quando já me punha adulto. Por duas fases da vida estudei no Colégio. Em diferentes tempos e em turnos da manhã, da tarde e da noite. Conheci-o à luz do dia  e à luz da noite.

Não o perdi de vista, eu deixando o Diocesano. Durante 45 anos, via sempre o antigo Diretor. Envelhecia, mas não se tornava velho. O porte, o de um sacerdote. O que sempre esmerou. Erguido, jovial, forte e de uma serenidade que vinha de dentro, da paz interior. Os cabelos encanecidos davam-lhe, acima da batina preta sinais das virtudes da vida. O esforço de se  mostrar inteiro, saudável, era das maiores virtudes certamente. Forte, com Deus. Quem visse o Padre Adelmar da Mota Valença, mesmo de longe, sabia tratar-se de um homem especial. Porte de dignidade e se admitia estar ali, naquela batina um religioso maior. De perto, melhor se  observara. Eu via as diferentes maneiras de se portar. Na Capela do Colégio, na missa ou na aula de civilidade, era calmo e falava pausadamente. No Colégio, como Diretor, tinha a face séria e nunca sorria. Se necessário, repreendia qualquer aluno à vista de todos e com rigor. Em outros momentos, com familiares dos alunos e encontrando-se à vontade, sorria e se fazia ouvir sua voz em tom ameno e amigo.

Homem, tinha um compromisso com Deus. O de ser Sacerdote. Diretor, tinha um compromisso com a Educação. O de ser um grande diretor. E no Colégio Diocesano de Garanhuns, não se aprendia só "ciência e fé". Ser homem também. A postura do Padre era primeiro seu grande exemplo. Depois, a forma correta de viver. Exemplos foram muitos. Eu ouvi muitas vezes ele dizendo, em tom grave, "Eu sou diretor de homens". Nada contra as mulheres. Mas ensinava aos alunos ser homem. Íntegros. Tinham de ter caráter, personalidade. O Colégio e a sua disciplina eram uma fortaleza de edificação. Bondoso, permitia que muitos alunos pobres estudassem sem pagar. E não explorava os que pagavam. E fazia questão de afirmar que o Colégio era pobre. Todo mundo tinha de se adaptar às "limitações" ou normas da Direção. Questão de honra. E sempre conseguiu pagar em dia a todos professores. Mantinha tudo limpo e de boa apresentação. Um grande economista. E em tudo por que foi responsável foi grande.

Conheci-o e não esqueço de nada. Até acontecimentos mínimos, em que sempre era inflexível. A ordem era mantida. A partir da praça que ficava à frente do Colégio. Ele observava os alunos, da janela de seu gabinete. O "quarto do padre". Ai  de quem fosse flagrado em alguma atitude comprometedora. Como ensinava tudo, fazia recomendações dos bons hábitos de alimentação. E, embora não proibisse vender picolés à saída do Colégio, recomendava aos alunos não comprarem o produto. Dizia que era impróprio o momento e anti-higiênico o hábito de sair lambendo ou comendo qualquer coisa pela rua. Falava sobre o asseio do corpo, o vestir e, sobretudo, a postura de homem. O respeito às autoridades, aos mais velhos a às mulheres. O bom comportamento nos interiores das igrejas e nos lugares públicos. Não falar alto. Não falar demais e nem dizer asneiras. Tudo ensinava e, com mais ênfase, a obediência a Deus. Homem ímpar, o Mons. Adelmar da Mota Valença. E querido por todos, apesar de ter sido rigoroso e dado muitos gritos em alunos.

Um fato que muito me comoveu, por fim. Quando ele faleceu, acompanhei o séquito à Catedral, onde foi sepultado. Ao sair da capela do Colégio, descendo pela rua  Joaquim Nabuco, vi, um homem a janela de sua casa. Era Zé Maria, ex-aluno e, também, meu ex-colega do curso primário. Chorava muito. As lágrimas escorriam-lhe o rosto, copiosas. Encontrava-se só, de pé. Eu sabia que ele estava doente. Seriamente doente. E no instante a dor foi minha também. Mas não chorei. Senti a dor de Zé Maria. Abria os olhos, de tantas lágrimas, como havia aberto o janelão. Entretanto, pude imaginar que seu maior descontentamento era porque não podia vir também acompanhando o enterro.

Poucos anos depois, morria Zé Maria com sua vida de choro. Mas com sua vida cuidada pelo grande Diretor. Vamos morrendo todos nós, como parece. O Colégio Diocesano que conheci não morre, quando muito vira Catedral. Os alunos continuam encarapitados das janelas do velho "Ginásio", olhando e percorrendo o caminho ensinado pelo Padre que conheci.

*João Marques dos Santos é escritor, cronista, poeta, jornalista, diretor/redator do jornal O Século, autor do Hino de Garanhuns e ex-presidente da Academia de Letras de Garanhuns - ALG.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Secult-PE/Fundarpe divulga resultado final das propostas classificadas do FIG 2022

A Secult-PE e a Fundarpe divulgam o resultado final das propostas classificadas na análise de mérito artístico-cultural do 30º Festival de I...