sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Em louvor do escritor Luís Jardim

Gilberto Freyre*

A propósito do critério de  definir-se a qualidade de  vida característica de um  passado coletivo, através  de depoimentos autobiográficos daqueles indivíduos típicos nos quais mais  se projetam, ou se venham projetando, os característicos dessa qualidade, ninguém como o garanhuense Luís Jardim em relação com Garanhuns, se apresenta mais representativo. Representativo em relação com Pernambuco. Em relação com o Nordeste. Em relação com o que o Nordeste representa para  o conjunto nacionalmente brasileiro de vida e de cultura. Exemplo weberianamente ideal, o de Luís Jardim, para essa ligação de  indivíduo com coletividade. Pois se trata de um garanhuense singular por ser paradoxalmente plural. Mestre da arte de ficção: do conto, do romance, da  estória para menino. Da literatura de memórias. Do desenho. Da pintura.

Projeta-se esse nordestino de  Garanhuns na geografia cultural do Brasil quase com um vigor igual ao que seria essa projeção se aqui tivesse emergido, neste último meio século,  todo um grupo de escritores e de artistas, notáveis por sua criatividade. E não apenas um só Luís Jardim.

Não exagero em destacar a presença do Nordeste em geral, de Garanhuns, em  particular, na cultura brasileira, dando o relevo que dou à figura do multiplamente criativo Luís Jardim nascido em Garanhuns; criado em Garanhuns: descendente de gente ali enraizada. E completado na sua  formação, pelo Recife.

Surgido no Rio de Janeiro em quase nada deve ao Rio ou a São Paulo pelo que foi sua  formação; levando ao Rio de Janeiro e a São Paulo uma expressão autêntica e direta do  Nordeste. No que pode ser considerado exemplo do  que têm sido as presenças de outros artistas, escritores, intelectuais nordestinos na cultura nacional do  Brasil; acréscimos a essa  cultura; enriquecimento dessa cultura; em alguns casos, nordestização positiva, em vez de negativa, da vida e da cultura brasileiras.

Pois seria erro só se ligar a palavra Nordeste o subdesenvolvimento brasileiro em termos regionais: E  a palavra nordestização a  um processo socioeconômico que significasse, em confrontos com outros processos, inferioridade absoluta de padrões de vida dentro do Brasil. Processo, o de nordestização assim compreendido, do qual o Brasil devesse resguarda-se. Não é  o caso. Que o diga o fato de Garanhuns, em particular vir produzindo escritores da qualidade e do valor de Luís Jardim - dentre os  mais jovens triunfados - é  Waldimir Maia Leite.

Toda literatura de interpretação ou de reinterpretação do Nordeste brasileiro precisa de insistir neste ponto: como, vem sendo,  dentro de um Brasil plural, uma região, ela própria, plural. Com positivos e negativos. Plural sem lhe faltar um ânimo unificador para uma efetiva defesa ou promoção de seus diferentes valores. Inclusive acentua-se - valores plurais como os que reúnem o extraordinário garanhuense Luís Jardim: tão esquecido quando se fala em nordestinos para a Academia Brasileira de Letras.

Fonte: Texto transcrito do jornal O Monitor de 7 de outubro de 1979.

Créditos da foto: https://www.todoestudo.com.br

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