sábado, 1 de janeiro de 2022

Espiciá


José Francisco de Souza*

Tipo Popular de Garanhuns - Nossas ruas marcaram a sua presença. Vendia doces num tabuleiro. Era fabricado por ele mesmo. Assim ganhava o pão de cada dia. Aqui chegou de outras terras e gostou da nossa. Trabalhava como um touro; madrugador e vivia sempre com um sorriso nos lábios. Orgulhava-se de ser um pobre, agia por conta própria. Não descansava um só instante. Todos os dias eram ocupados por seu trabalho. Não temia os sacrifícios. Domingo, dia santo e feriado pertenciam ao mundo dos calendários. Andava sempre com algumas centenas de cruzeiro, produto do seu trabalho honesto. Disso se gabava com certa empáfia. Moreno de pele tostada pelo sol causticante do Equador. Homem de pequenas proporções físicas que trajava humildemente, seu verdadeiro nome não sabemos. O doce de coco que fabricava vendia pelas ruas. Dizia ser especial. Nem igual existia. Era preterido pelas crianças. Talvez, por isso, deram-lhe  alcunha de "Espiciá". 

Quando aparecia no começo ou no fim de qualquer rua gritava "chora menino": Espiciá vai passando. "Olha o doce é espiciá"... "Chora menino para comer pitomba"... "Chora menino para comer pitomba"... Oh mamãe lá vem o home. Oh menino deixa ele vim" Eu não devo nada ao home" nem o home deve a mim". Assim conquistava a simpatia de gregos e troianos. Os pais de família gostavam dele e a meninada não se fala. Agradava as crianças fazendo maiores os mercados de doce que embrulhava em papel amarelo. A presença de "Espiciá" era festa na rua, os meninos de todas as idades, eram uma espécie de bandeirolas festivas. Vendia muitos tabuleiros de doce por dia.

As vezes tomava "boa pinga" e ficava agressivo bancando valentia. Desafiava a polícia. Mesmo nesse estado, "Espiciá" não usava palavra de baixo calão. Limitava-se, a rolar pelo chão pontilhando de grama verde. Não tinha medo de soldado porque era amigo de gente rica... Nas tradicionais festas juninas gostava de sambar, tirar coco e embolada. Dizem que era um repentista e muito respeitado no "Ganzá". A sua presença era reclamada. Sem ele a festa não tinha graça, chegava com seu instrumento na mão e era acompanhado por várias pessoas do bairro pobre. E entreva no samba até o sol despontar. A madrugada loira dava sinal de que o "santo" acordou com seu carneirinho na mão. Mas logo mais estava no seu trabalho vendendo doce. "Espiciá" casou-se com uma filha de verdureira. Diziam que foi muito infeliz no matrimônio. Comprara com o produto do seu trabalho, duas casas na rua do Corrente (Rua São Miguel).

Isso lhe dava importância de rico e consequentemente aumenta as exigências da filha da verdureira sua esposa. Vaidosa possuía vocação para granfina. Nesta condição provocava conflitos de toda natureza e contava sempre com o auxilio de sua mãe, sogra de "Espiciá". Nesse sentido os vizinhos comentavam fatos assustadores. O doce lar de "Espiciá" transformou-se num recanto de ódio. Passou a ser a força indomável do instinto. Era um inferno. Os dramas que se desenrolam na  vida íntima, sempre terminaram em tragédia pública.

Um dia a triste notícia correu por toda cidade, "Espiciá" morrera afogado. Seu corpo fora encontrado boiando sobre as águas do "Rio Mundaú".  "Espiciá" teve um fim trágico a começar pelo casamento.

*Advogado, jornalista e historiador / Garanhuns, 05 de setembro de 1981.

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