domingo, 9 de janeiro de 2022

Frinchas à Saudade

Anos que correm, dias que voam, noites, horas e instantes que ficam, apesar de obscuridades pela neve do tempo, na alma da gente, e quem de vez em quando, voltam nitidamente ao nosso consciente. Acontece por acaso, às vezes, e outras nos chegam por provocação, como aqui e agora, comigo.

Nos anos 50, passaram-se 27 anos, meu Deus, era eu aluna interna do Colégio Santa Sofia em Garanhuns, cidade flor, cidade beleza, cidade clima, cidade educação. Sob o número 78, estava lá, no Colégio das Damas, uma adolescente mais ou menos comportada, por conta e risco de um temperamento difícil de controlar,  e por isso mesmo recebendo da Mestra Geral, uma porção de encargos para ocupar minutos ociosos bloqueando a possibilidade de atividades extra-curriculares que não agradavam às freiras, já que iam geralmente de encontro à disciplina do internato, como, receber cartas do namorado que era fatalmente, aluno do Colégio de Padre Adelmar Valença, o mioto. Ah!... o primeiro namorado! Moreno, alto, de olhos verdes, servindo ao Tiro de Guerra, e cantando mesmo desentoado, o "Rancheira, rancheira brejeira minha companheira dos canaviá", de Levino  Epaminondas. É a vez de repetir Ataulfo Alves... "eu era feliz e não sabia".

Tocava o pandeiro da batucada do Colégio, era zeladora do Apostolado do Coração de Jesus, e era encarregada dos livros de canto da Capela. E, justamente por entoar mais ou menos bem, saber cantar uma segunda voz como ninguém, e ainda lidar com os livros de canto, aconteceu automaticamente, a aproximação natural com o Capelão da época, ainda  hoje meu amigo, Padre Edgar Carício. E foi então, por intermédio de Padre Carício que conheci O Monitor e aprendi a lhe querer bem.

Quem conversasse com Padre Carício, haveria de gostar do Jornal. Era sua aspiração maior, fazer do seu jornalzinho um grande veículo de informação e cultura.  E nós, suas alunas, participávamos do seu entusiasmo. Ficavam as oficinas impressoras, ao lado de Catedral, pertinho da casa de Monsenhor Anchieta Callou. E, um dia, o padre levou um grupo de alunas para conhecer as instalações daquele jornal, que ele chamava de "meu repouso". Perguntava-me. Por que repouso, se todos ali estavam trabalhando. Naquela ocasião, minha mente não alcançava a filosofia do padre, pois eu só pensava na matinê do Cinema Jardim.

Somente agora, quando a maturidade dos meus 40 anos abrigam-me a pensar, quando o cabedal de dois cursos universitários aguçaram-me o intelecto, quando a atuação na vida política abriu horizontes ao meu entendimento, e principalmente quando, o coração começa a sentir a nostalgia que nos obriga a chorar, é que compreendo o que quis dizer o padre, com aquele "meu repouso". Os que  me leem agora, e já trazem no malote da vida uma trouxa de saudades e lembranças, alcançarão a verdade do que disse o ex-editor deste jornal. Está na grandiosidade que há no direito de escrever, e na satisfação gratificante de ser lido. Poder transformar sentimentos em palavras, levar alegria aos outros, quando nós estamos às vezes muito tristes, transmitir aos nossos irmãos, nossas ideias sobre as coisas.

Aconteceu que, avivando fatos passados, chega-me um convite. Um meu colega do Curso de Direito, me pede para escrever alguma coisa para O Monitor. Pois bem, vamos ver o que se pode fazer daqui pra frente, porque desta primeira vez, só poderia sair isso mesmo. Recordações que me vieram, provocados pelo nome Monitor, título do jornal, que marcou minha adorável adolescência, vê agora minha gostosa maturidade, e espero e desejo, possa ver minha velhice, sempre crescendo no âmbito da Imprensa Matuta.

*Xica Catão / Garanhuns, 29 de Outubro de 1977.

Foto: Da esquerda para a direta: Padres Edgar Carício e Emílio.

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