sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Garanhuns Antiga

O CRIME DE ZÉ DE ÚRSULA - Naquele tempo, a cidade era pequena, os tempos eram ruins e, só quem possuía automóveis, eram os grã-finos da cidade, e alguns motoristas de praça. Aureliano Calado era dono de uma casa funerária e, também, subdelegado de polícia no exercício do cargo.

Aprender dirigir automóvel era na época, a coisa mais desejável do mundo. José de Úrsula aprendeu na "fubica" que conduzia defuntos para o cemitério de São Miguel. Subir e rua do Mundaú conduzindo um automóvel ou quais quer outras da cidade era a coisa mais grandiosa que Zé de Úrsula achava., embora, o que conduzia  fosse tão asqueroso quanto o morto que fazia a última viagem para a cidade dos pés juntos.

Havia, entretanto, para Zé de Úrsula, um terrível empecilho a remover, para poder ficar como motorista da funerária do delegado Aureliano Calado. O defunteiro titular que lhe ensinou conduzir o veículo não tinha pretensão de deixar o emprego, mas, Zé de Úrsula precisava vê-lo ausente do cargo para assumir definitivamente.

Foi ai que começou a desgraça. O motorista efetivo da funerária, cujo o nome não me vem na memória, residia nas imediações da Igreja de São Sebastião, no bairro da Boa Vista.

Embora, fosse em época de pleno verão, naquela tarde, o céu encheu-se de nuvens cor de chumbo e o por do sol estava cor-de-rosa, parecendo a natureza em plena menstruação. A hora era propícia para Zé de Úrsula colocar em cena o plano que há dias havia arquitetado diabolicamente.

Às cinco horas da tarde daquele dia, Zé de Úrsula foi a casa de um vizinho e tomou emprestado um enxadeco, alegando que precisava daquele instrumento para abrir uma valeta de proteção  às paredes de sua casa, que poderiam ser levadas pela enxurrada da trovoada, que segundo ele, iria desabar naquele noite.

O pobre e desaventurado motorista de Aureliano, estava muito longe de imaginar o que iria acontecer naquela noite funesta.

Como residia sozinho, e também, como a cidade não oferecia vida noturna, não saia de casa à noite, entretanto, gostava quando alguns  amigos com ele ficavam até a hora de dormir. Naquela noite o companheiro de bate-papo, foi justamente, o seu competidor na luta pela vaga de motorista do papa-defunto, Zé de Úrsula, que já havia tramado o crime hediondo. Zé de Úrsula teve cuidado de deixar aberta, isto é, sem tranca, uma janela que dava para o lado da rua José Leitão, e por onde mais tarde seria levado morto o homem que cometeu o erro de ensinar José de Úrsula a profissão de defunteiro.

Às primeiras horas da noite, Zé de Úrsula penetrou na residência do amigo e esmagou-lhe a cabeça com o fatídico enxadeco, e em seguida foi embora, pensando haver cometido um crime perfeito.

Descoberto Zé de Úrsula foi preso e ficou na cadeia pública, à disposição do seu patrão Aureliano Calado que também era delegado e gostava de aplicar aos presos os mesmos castigos que alguns delegados gostavam de aplicar. Antes de que lhe fossem arrancadas as  unhas dos pés, porque, às das mãos haviam sido. Zé de Úrsula contou tudo direitinho.

Passados os primeiros "arrouxos" e com tempo para pensar, o criminoso pôs em prática um plano de fuga, e deu certo. No dia seguinte, o carcereiro, somente encontrou na cela, as grades e o buraco na parede, porque Zé de Úrsula deu adeus a Aureliano Calado e entrou no eco do mundo.

Dezoito anos depois, em uma farra, em um engenho da zona da mata do Estado, por haver dito a um companheiro de farra que já havia matado um corno e poderia matar outro. Zé de Úrsula foi preso, e levado a julgamento sendo condenado a 21 anos de reclusão, não obstante a brilhante defesa de seu advogado José Francisco de Souza.

*José Rodrigues da Silva / Escritor, professor, cronista e jornalista / Garanhuns, 22 de agosto de 1981.

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