sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

História de Capoeiras - PE


O Patriarca João Borrego - No glossário de Aurélio, o verbete borrego significa, familiarmente, indivíduo sossegado, manso, pacífico - manso que nem um borrego, expressão que nós, do Nordeste e das terras agrestinas do sol nascente, estamos acostumados a ouvir desde os primeiros tempos.

Na minha infância e adolescência de Garanhuns, eu vi meu pai acercar-se de amizades genuínas, dentre elas a do coronel João Borrego, patriarca da família Siqueira, legítimo condutor político do povo de Capoeiras, à época em que ainda distrito de São Bento do Una, mas, também com prestígio irradiado em todo o município e municípios circunvizinhos.

No portal da avenida Santo Antônio, que  unia e ainda une esta principal artéria à rua Santos Dumont, situava-se a loja de tecidos "A Preferida", que o coronel João Borrego administrava com seu  filho Heronides, onde Aureliano ajudava nos dias de sábado, formando-se no caráter de trabalho e dignidade que marcou a vida edificante do avô e do pai.

Na reconstitucionalização marcada pela Carta de 1946, quando Agamenon chefiava o Partido Social Democrático em nosso Estado, o agreste tornou-se marcantemente pessedista, pelas vitórias eleitorais construídas por homens do porte de João Borrego, José Abílio, Elpídio Branco, Anísio Carapeba, e outros saudosos varões da hora "H", reconstrutora da democracia.

Depois da batalha eleitoral de 1947, onde o marechal Osvaldo Lima obteve os louros consagrantes da vitória de Barbosa Lima Sobrinho, socialista emérito, que Agamenon fez governador de Pernambuco em acirrada disputa, contra a UDN e oposições coligadas, situadas em torno da candidatura de Neto Campelo Júnior, dissidente do PSD.

Quando estive na ativa militância da imprensa paulista, repórter político de conceituado jornal, o Diário da Noite, do doutor Assis Chateaubriand, eu fui agraciado com a incumbência de entrevistar o ex-governador de Pernambuco, na sua  residência do Rio de Janeiro. Naquela época, a ponte aérea ainda era operada pelos DC-3, e o percurso São Paulo-Rio era feito em mais de uma hora. Desci no  Santos Dumont euforicamente realizado, mesmo antes de redigir a matéria da entrevista, porque jamais imaginei que o menino de 17 anos, que tivera sido apresentado ao doutor Barbosa, na fazenda do coronel João Borrego, no agreste de São Bento, pudesse um dia ser repórter do doutor Assis e entrevistar o doutor Barbosa.

À porta fui recebido por dona Maria José, ex-primeira dama do meu Estado e pelo filho Fernando, com quem em Garanhuns houvera iniciado uma amizade fraternal, que mantemos até hoje, quando ele ainda continua no batente do jornalismo profissional, comandando valorosa equipe de comunicação na TV. Fui levado à biblioteca e, na magistral presença do doutor Barbosa, eu confesso que tremi nas bases, numa emocionalidade tamanha que gaguejei nas primeiras perguntas ao entrevistado. Jornalista tarimbado, homem de cultura e cultor da pernambucanidade, o ex-governador fez de tudo para que eu, repórter primário de primeiras águas, sentisse-me à vontade  e pudesse, com calma, realizar o meu trabalho.

"Deixemos a entrevista pra daqui a pouco, Fernando falou-me que você é de Pernambuco, de Garanhuns se não estou enganado, vamos falar de lembranças da  nossa terra?" - Com aquela magnanimidade, ato próprio de quem é magnânimo como o doutor Barbosa, eu fiquei animado e consciente da responsabilidade  histórica de entrevista.

Fernando, presente e solitário, providenciou um cafezinho; dona Maria José, que é paulistana de nascimento, quando pernambucana pelo casamento, deflagrou-me cordial pergunta: "Você sendo de Garanhuns, deve conhecer Neusa, esposa do médico Alfredo Américo Leite, filha querida do coronel João Borrego, em cuja fazenda eu e Alexandre estivemos e fomos recepcionados fidalgamente; tem tido notícias  dessa exemplar família?". E a conversação, deixada a entrevista do Diário da Noite de lado, tomou um curso descontraído.

O passado se faz presente na vida e na política, dizia-me meu pai. 

*Rinaldo Souto Maior / Jornalista, cronista e historiador / São Paulo, 25 de Junho de 1988.

Foto: Chegada de Barbosa Lima Sobrinho (1º a esquerda) para Convenção do PSD em Pernambuco. Recife, julho/1945

Créditos da foto: http://www.fgv.br/cpdoc/guia/detalhesfundo.aspx?sigla=BLS

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