segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

História de Garanhuns


No fim do século XV, os Unhanhú (Kariu) se estabeleceram, logo de início, nas colinas que margeiam o paisagístico vale do rio Mundaú, para depois galgarem o dorso da montanha.

Fixados, então, nas colinas, nas proximidades do brejo viveram até os primeiros séculos da colonização do país da caça e de frutos silvestres, como povo altamente caçador, praticando uma lavoura rotineira nas ribeiras do vale, ou no alto da serra, nas chans, cultivando o milho (Zea mays Linneu), cujas sementes trouxeram consigo, na sua migração, e a mandioca (Manihot utilissima Pohl), depois do contato com os tupis (Caetés e Tabajaras), em derredor das tabas, perto das malocas.

No microclima da serra, nas argilas férteis, profundas, e nos massapês dos colúvios, cultivaram incipientemente a espécie de fumo ( Nicotiana Langsdorffi Martius) do qual preparavam o tabaco - "badzé", que fumavam em cachimbos de raízes de jurema (Mimosa nigra Martius), nas reuniões cerimoniais do  Ajucá, do culto Urikuri, segundo o Prof. Osvaldo Gonçalves de Lima.

Nos solos rasos, compactos, da caatinga e nos cascalhentos, ou nos arenosos, incoerentes dos tabuleiros, era mesmo impossível uma lavoura lucrativa, só servindo, quando cobertos de pastagem, para a pecuária, desconhecida até então dos íncolas, ou dando margem a uma indústria extrativa têxtil de fibras do "karuá" ou caroá (Neoglaziovia variegata Mez.), para as vestimentas sagradas, para as bolsas de caça "aió", cordas e tecidos grosseiros da indumentária.

Como indústria caseira, fabricavam o "cotchá", especialmente o "cotchá-lhá", beberagem fermentada das raízes da jurema (Mimosa hostilis Bentham), com que acalentavam os sonhos e as recordações nostálgicas de sua cultura ancestral, ou da pátria de origem, da "região do lago encantado", da "terra onde nunca se morre".

O filólogo Rodolfo Garcia, na Introdução que escreveu para o "Catecismo Kiriri" do Padre Luiz Vicêncio Mamiani, disse que "etnograficamente, se distinguem os "Kariri" dos povos vizinhos pela agricultura mais  desenvolvida, embora em grau inferior a dos Tupis; teciam e faziam redes de algodão, e fabricavam cerâmica rudimentar, semelhante a de certas tribos amazônicas. A aversão pelo litoral, que Martius lhes imputou, é contrária à documentação histórica. Sabe-se que daí só se retiraram quando forçados pelos adversários mais poderosos; mesmo internador no sertão, suas residências preferidas eram as ribeiras; só procuravam as serras como refúgio efêmero contra agressões de inimigos".

A área geográfica habitada pelos "Kiriri" era mais extensa do que se supunha:

"Desde o Paraguassú e o rio São Francisco até o Itapecurú, talvez, mesmo até  o Gurupi, encontravam-se disseminados os "kariri", quando os portugueses começaram a ocupar o Norte e Nordeste do Brasil. Da tradição conservada pelos missionários, infere-se que vieram da parte norte, de um lago encantado, que bem pode ser o Amazonas, - sugere Capistrano de Abreu; descendo pelo litoral seriam detidos primeiros pelos Tupiniquim, depois Tupinambá, que os teriam acossado para o interior, rumo do oeste." Após a conquista, resulta certo que somente os Teremembé aparentados próximos dos "Kiriri", ocuparam maior trecho da costa que fizeram mau uso, e foram por isso, impiedosamente castigados em 1679, pelo Mameluco Vital Maciel Parente, de ordem do governador do Maranhão, Inácio Coelho da Silva; outras tribos salteavam-na apenas, enquanto a maior parte se internava sertão a dentro, nas serras da Borborema, dos Cariris-Velhos e dos Cariris-Novos que ainda recordam os seus  nomes da toponímia brasileira), nas ribeiras do Acaracú, do Jaguaribe, do Assú, do Apodi e outros, no baixo São Francisco e territórios adjacentes".

"Sob o nome genérico de Tapuias andaram nos primeiros tempos confundidos com outros índios que infestavam a região de seu domínio, por isso mesmo, ainda se torna difícil saber, com absoluta certeza, entre tantas alcunhas tribais, quais eram os de origem "Kariri", quais eram os Caraibas e o "Gês".

"Kiriri", alterado em "Kariri", é qualificativo tupi que significa calado, silencioso, e que indica, sem dúvida, uma característica etnográfica tanto mais notável quanto se sabe que os outros índios eram palradores incoercíveis".

"Kiriri", aplicar-se-ia mais propriamente às tribos da Bahia; "Kariri" às tribos do norte". (Conforme o Catecismo da língua Kiriri do Padre Luiz Vicêncio Mamiani, citado por Max H. Boudin.

O Prof. Artur Ramos, na sua obra "Antropologia Brasileira", cita a família "Kariri", concluindo nos seguintes termos:

"Os Kariri acham-se quase totalmente extintos, ou assimilados. Resta um pequeno núcleo dos Kariri em Pernambuco, do  grupo histórico dos Karnijó, em Águas Belas, talvez os últimos representantes da família, outrora tão extensa. Se as informações históricas e os dados linguísticos  são apreciáveis, os estudos étnicos e culturais são, ao revés, falhos ou quase inexistentes.

Apenas, sabemos que os Kariri se aproximavam culturalmente dos  Tupi: conheciam agricultura, embora mais rudimentar que a destes últimos, faziam redes de algodão e conheciam uma cerâmica rudimentar".

A sua cerâmica era, ainda, muito primitiva, como a dos Tupis, limitando-se a vasilhas grosseiras e rústicas igaçabas de barro cozido, destituídas de desenhos ou ornatos, que serviam para depósitos de bebidas fermentadas como a "tekira" ou o "cotchá", ou, simplesmente, água potável, e não como urnas funerárias, como a princípio se pensou, uma vez que os mortos eram inhumados em covas rasas.

Os "Kariri" eram um povo bem nutrido, dada a quantidade e a variedade de alimentos vegetais e animais existentes, não obstante a agravante das secas periódicas da região em que estavam encravadas as suas tribos, pois se utilizavam, nas suas refeições habituais, de raízes suculentas, ricas de amido e princípios minerais, como o cará (Dioscorea alata Martius), a macacheira, "aipi" (Manihot utilissima Pohl) variedade dulcis; de fubá de milho (Zea mays Linneu); de frutos silvestres como o imbú ou umbú (Spondias tuberosa Arruda), o ananá (Ananas sativa Lineu), melancia (Citrullus vulgaris Linneu), a jaboticaba (Eugenia cauliflora Veloso), o maracujá (Passiflora edulis Martius), o araçá (Psidium araçá Raddi), a pinha (Anona squamosa Linneu), o genipapo (Genipa brasiliensis Martius).

Quanto ao reino animal, além dos doces favos de mel de abelhas, pelos quais os selvícolas eram gulosos, de Meliponídeos e Trigonídeos selvagens, como o Uruçú ou Iruçú (Mepipona scutellaris Grib.), a Cupira (Trigona cupira Smith), a Jati (Trigona dorsalis Smith) a Tubiba (Trigona bilineata Freire Alemão), a Irapuá ou Arapuá (Trigona rufricus Latr.), etc., alimentavam-se eles da carne moqueada de Capivara (Hidrochoerus hydrochaeris Linneu), Veado catingueiros (Mazama simplicicornis Iliger), Veado campineiro (Cervus campestris Cuvier), Paca (Cuniculus paca Linneu), Cutia (Dasyprocta aguti), Tatú (Dasypus novemcinctus Linneu), Mocó (Cavia rupestris Neuwiedi), preá (Cavia aperea Linneu), etc.

Martius, em "Viagem no Brasil", afirma que os selvícolas apreciam a carne assada, sobretudo, quando ainda sangrenta, mais do que a carne cozida. O tapir (Tapirus americanus Linneu),  os macacos (Alouatta sp) e (Cebus sp), os porcos do mato - "Tayassú" e "Caitetú" (Dycoteles sp), o tatú (Dasypus sp), a Cutia (Dasyprocta aguti Linneu), são seus manjares prediletos.

Quando o índio, diz ele, quer conservar uma parte da carne, mete-a em moquém, isto é, numa cesta colocada acima do fogo, que fica tanto tempo no fumeiro, até se tornar dura como pau.

Moquém, proveniente de "mocaém", segundo Teodoro Sampaio, corruptela de "mocaê", é o que faz secar ou assar, isto é, gradeado de madeira sobre brasas para assar a carne.

Conheciam os Kariri o uso do fogo que propagavam através de pederneiras ou fusis de pedra (isqueiros de silex) - duas  lascas de calcedônia com um chifre de veado cheio de algodão mocó (Gossypium purpurescens Poir) besuntado de resina de madeira, para ateiar a chama.

Utilizavam-se, também, do sal encontrado nas margens do rio São Francisco, bem como o do litoral nordestino das salinas de Macau, no Rio Grande do Norte, e outras.

Os "Kariris", em geral, pilavam os grãos de milho em almofarizes de pedras, fabricados de pedaços duros de diorito ou de quartzo, ou em pilões grosseiros escavados em blocos de granito aflorantes nos terreiros das malocas, na taba.

O Padre Cardim, no primeiro século do descobrimento, já se referia às migrações dos tapuias, do sertão para o litoral, acossados pelas grandes secas. Citando os tapuias não queria se referir tão somente aos Gês, mas, às populações gê-kariri, que habitavam o interior do país, expulsas que foram da praia pelos valentes e nômades Tupis. Tapuias, na accepção de povos estranhos, bárbaros e incultos.

Os "Kariri" receberam mesmo deles a designação que quer dizer soturnos bisonhos, nostálgicos.

O nome tapuia, diz Lima Figueiredo, é de origem tupi e significado bárbaro, pois a sua denominação era Gês. Estes acossados pelos Tupis, na sua marcha ascendente, foram obrigados a  emigrar para oeste, fugindo da sanha guerreira dos invasores. Martius e Ehrenreich estudaram essa nação e concluíram que o progresso das tribos era assinalada à medida que marchavam para o ocidente. As tribos de leste estavam em estado de barbárie absoluta. Não sabiam construir canoas nem choupanas; desconheciam a tecelagem e, portanto, também, a rede; viviam como verdadeiras feras, em luta contínua pelo alimento diário, que era constituído pelas frutas silvestres e a carne crua. A agricultura não havia entrado em suas cogitações. Já nas tribos ocidentais, os citados cientistas encontraram, no médio Xingú, os "Suiá", que possuíam alguma cultura; construíam suas choças colmeiformes, fabricavam objetos de cerâmica e não  perfuravam o nariz, as orelhas e os lábios".

Os "Kariris", entretanto, fabricavam não só as redes de dormir de fios de algodão mocó (Gossypium purpurescens Poir), como, também redes de pescar de fibras de palmeira tocum (Bactris setosa Martius), à semelhança dos Tupis. Fabricavam, ainda, as cestas de taquaras , designadas "panacum". À sua civilização não era inferior a túpica. Apresentava, no momento, a mesma agricultura, a mesma indústria extrativa, o mesmo  estágio primitivista. A economia era uma economia apropriativa de bens e utilidades naturais. A civilização diferia apenas no idioma, sendo o túpico a língua geral (abanheenga ou nheengatú) mais falada e muito mais suave, enquanto a kariri ou Kiriri, muito mais ríspido, de sons aglutinados.

Fonte: A Terra dos Garanhuns / Professor João de Deus de Oliveira Dias / Ano 1954 / Foi mantida à grafia da época.

Foto: Moça Indígena Garanhun. Foto: Lula Samuel.

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