quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

História de Garanhuns

Na sesmaria dos Aranhas foram fundadas as fazendas da Lagoa (Buíque) e a do Garcia, assim como foram organizados os sítios do Flamengo e do Buraco (Garanhuns).

Na sesmaria dos Burgos, logo denominada de "Nossa Senhora do Desterro", foi fundada a fazenda do Burgo, e na dos Vieira de Melo, a fazenda do Jupi.

No planalto da serra do Ararobá foi, pelos padres da Congregação de São Felipe Neri, instalada a "Missão do Ararobá", destinada a dar assistência aos índios Xucurus ou Sucurus, assim como para o desbravamento e cultivo das terras.

Todas as fazendas prosperaram, com exceção, porém, da  "Missão do Ararobá" e fazenda da Lagoa. Todas aquelas fazendas, inclusive os sítios, sofreram as consequências de uma anomalia então existente na Capitania de Pernambuco, o que ocasionou, a interrupção dos seus desenvolvimentos, por vários anos.

Essa anomalia foi a organização da chamada "República dos Palmares", pelos negros rebelados.

Muitos negros cativos, fugindo aos maus tratos que lhes davam os seus senhores, embrenhavam-se nas matas das imediações do litoral, onde organizavam mocambos e o modo primitivo de vida da África, de onde vinham presos e, eram vendidos pelos traficantes.

Com o seu grupo sempre  aumentado, tanto pelas contínuas adesões, como pelo crescimento da prole, quando tinham necessidade de certos produtos que completavam a sua manutenção, os obtinham por troca por produtos de suas lavouras e peles de animais que caçavam ou então, em bandos, atacavam as povoações e os adquiriam pela força.

Impossibilitado o governo da Capitania de atender as reclamações dos prejudicados, por se achar empenhado na guerra de defesa contra a invasão dos flamengos, cujo governo se mantinha sempre em guerra com os patriotas, foi por isso a quantidade de negros aumentando, cada vez mais, pelas constantes levas de aderentes, o que os tornavam mais audaciosos.

Só depois da restauração da Capitania e consolidado o seu governo, tornou-se possível a perseguição aos negros rebeldes que, por isso, foram abandonando as imediações do litoral e se internando no sertão, onde  centralizavam os novos mocambos que iam organizando e neles construindo quilombos, que eram fortalezas de grossos e longos toros de madeira a pique, e assim ofereciam resistência e prejudicavam a ação das tropas perseguidoras.

E, assim, o Zumbi - rei dos negros - construiu o principal e o mais forte dos quilombos no planalto da serra da Barriga, a meia distância entre as atuais cidades de União dos Palmares e Atalaia, no atual estado de Alagoas.

Dali, mandou o rei atacar e destruir as fazendas e sítios já existente para o norte e o oeste, em cujas terras foram os negros organizando mocambos e construindo outros quilombos, como o do Magano, nas cabeceiras do riacho São Vicente, subúrbio da atual cidade de Garanhuns.

No decorrer dessas destruições, foi tão depredada a fazenda do Garcia que, quando adquirida, por compra, em 1705, pelo então sargento-mór e posteriormente tenente coronel, Manoel Ferreira de Azevedo, era chamada "Tapera do Garcia".

Para a destruição do quilombo do Magano e os mocambos das suas redondezas, como aconteceu com o do Gongo, da negra Maria, o do Timbó, o do Zumbi, o da Curica, e o da Camixanga etc., o mestre de campo Domingo Jorge Velho, que, pelo governo da Capitania, tinha sido contratado para, com sua bandeira de paulistas, ajudar as forças pernambucanas na destruição dos Palmares, destacou, do cerco do quilombo da Serra da Barriga, um forte contingente da sua bandeira e o enviou sob o comando do cabo Luiz Mendes da Silva que, para iniciar o ataque, assentou o seu arraial, que por isto, ficou sendo chamado e, ainda hoje, conserva o nome de "Sítio Paulista", sendo atualmente um subúrbio da cidade de Garanhuns.

Com destruição do quilombo da serra da Barriga, em 1696, teve fim a malfadada "República dos Palmares", e, quatro anos depois, o governo da Capitania fez instalar nos Garanhuns,  um distrito judiciário sob a forma de julgado, com a denominação de "Capitania do Ararobá", e uma freguesia sob a forma de curado, denominada Freguesia de Santo Antônio do Ararobá.

A fazenda de Jupi, na sesmaria dos Vieira de Melo, fundada pelo seu principal sesmeiro Bernardo Vieira de Melo, por intermédio de um seu vaqueiro e escravos, sofreu as mesmas devastações que a do Garcia, na sesmaria dos Aranhas, pois, os negros rebeldes dos Palmares, "matando-lhe" o vaqueiro e levando-lhe os negros que beneficiavam os gados e estes perdendo-se por si num poder conduzir."

Em consequência deste revés, a referida fazenda, assim como toda a sesmaria esteve por muitos anos inativa.

No entanto, quando os negros rebeldes começaram a sofrer as primeiras derrotas pelas forças do governo da Capitania, já era  adulto Antônio Vieira de melo, filho do principal sesmeiro, que não trepidou em assumir a administração da sesmaria pertencente ao seu pai, e para isto veio ele para o Jupi. E não poderia ser melhor administrada a sesmaria do que foi por aquele grande homem, que terminou como proprietário de quase toda ela, tanto que lhe tocou nos inventários dos seus pais, como por compra de quinhões aos seus irmãos.

Era Antônio Vieira de Melo, muito bem educado, possuidor de grande coragem e de tino altamente empreendedor.

Ao chegar ao Jupi, cuidou da restauração dessa fazenda e da fundação de outras, o que conseguiu, não obstante as contínuas lutas com os negros rebeldes e índios Tapuias, habitantes das margens do rio Una.

Nas últimas fases da luta pelas forças do governo da Capitania, ajudadas pela bandeira paulista, para a conquista dos Palmares, um dos cabos desta bandeira, Luiz Mendes da Silva, incumbido da destruição de pequenos quilombos e mocambos, à frente de forças da referida bandeira, "rompendo matas chegava as fazendas de Antônio Vieira de Melo, nas quais mandou sempre o dito assistirmos com todos com os suprimentos necessários de mantimentos, pólvora e bala e tudo mais condicente, e assistiu na ocasião do cerco e batalha que alcançamos do Zumbi na qual se houve com todo o valor e procedimento que veio ferido de uma perna."

Além disto, contribuiu para facilitar o movimento das tropas... "fazendo uma estrada de comunicação deste lugares para a costa pelo mais largo interior dos Palmares logrando com ela maior suavidade as mesmas Tropas Paulistas para mais frequentassem da campanha e sua conquista".

Terminada a campanha dos Palmares, com a destruição do formidável quilombo da Serra da Barriga, pode Antônio Vieira de Melo voltar a sua atenção definitivamente para fundações de mais fazendas, abrindo estradas de comunicação de uma para as outras e de todas para o Jupi. (Fonte: História de Garanhuns / Alfredo Leite Cavalcanti (foto)  / Volume I / Outubro de 1968 / Foi mantida a grafia da época).

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