quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

História de Garanhuns

REGIÃO DA SERRA DO ARAROBÁ - Na posse de tão vasta região, os padres da Congregação de São Felipe Neri prosseguiram com o povoamento iniciado pelo  Procurador João Fernandes Vieira, logo estabelecendo no planalto da Serra do Ararobá, um missão para catequese e assistência aos índios Xucurus ou Sucurus, sob a proteção de Nossa Senhora das Montanhas, que  para o seu louvor erigiram uma Capela.

Em 1741, eram as fazendas e sítios mais prósperos na região: Ararobá, Madre de Deus, Acarú, Sapatos, São João, Gameleira e Mimoso das Bulhas, os quais, com exceção do Ararobá,  que integrava o território e jurisdição da Capitania do Ararobá, os demais integravam a Freguesia da Luz da Jurisdição de Olinda.

Em volta da capela de Nossa Senhora das Montanhas foi  pouco a pouco se formando um povoado, que veio a ser denominado "Povoação Monte Alegre" e somente, em 3 de abril de 1762,  data em que foi elevada à categoria de Vila, teve a sua denominação substituída para Vila de Cimbres, desmembrando-se, então da Capitania do Ararobá, que, em consequências, teve também a sua denominação substituída pela de "Julgado de Garanhuns", provavelmente devido a Vila de Cimbres ser localizada no planalto da Serra que dava o seu nome à Capitania.

A povoação do Ararobá, sede tanto da Capitania como da  Freguesia de Santo Antônio do Ararobá, passou a se chamar "Povoação de Santo Antônio de Garanhuns", o mesmo acontecendo com a denominação da Freguesia que passou a ser chamada de  Santo Antônio de Garanhuns.

Para compor o território do Município de Cimbres, foi desmembrado do território do Julgado de Garanhuns, tudo o que atualmente compõe os territórios dos município de Buíque, Pedra, Alagoinha, Arcoverde e Sertânia, e parte de Custódia e Inajá. Também passou a integrar o dito território, não somente o restante da região, que foi desmembrada da Freguesia de Nossa Senhora da Luz, mas também um trecho desmembrado da Freguesia de Santo Antônio de Tracunhaém, no qual, entre outros, eram mais prósperos os sítios: Salgado e Poço Fundo.


Quando em 1836, a povoação de Pesqueira passou a ser a sede do município de Cimbres, os territórios de Buíque Inajá, Custódia, Sertânia e Pedra voltaram a integrar o de Garanhuns.

A povoação do Monte Alegre, ou melhor a Vila de Cimbres, não teve o necessário amparo dos bons fados, pois, com  a formação da povoação de Pesqueira, esta lhe usurpou a sede e por fim a extinção do Município, que foi substituído pelo de Pesqueira, cuja sede é hoje uma das mais progressistas cidades do  interior pernambucano, enquanto Cimbres é judicialmente apenas um dos seus distritos.

Entretanto, como que - "e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" - sobrexiste em Cimbres a Freguesia de Nossa Senhora das Montanhas, criada, provavelmente, em  conjunto com o Município. Renomados historiadores afirmaram  ter sido em Cimbres a sede da Capitania do Ararobá, e entretanto, para ser comprovado o contrário bastaria levar-se em conta a permanência do preciso arquivo da referida Capitania nos Cartórios de Garanhuns.

Afirmaram, também, a existência da Freguesia daquele Vila em 1692, no entanto com tópicos de alguns documentos pertencentes aos supracitados Cartórios, que a seguir vamos transcrever, pretendemos demonstrar que essas afirmativas não correspondem à veracidade dos fatos. Se não vejamos:

"- Saibam quantos este público instrumento de carta de  alforria virem no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e setecentos e vinte e sete anos nesta Capitania do Ararobá em o Sítio da Igreja de Nossa Senhora das Montanhas  da dita Capitania onde eu tabelião fui vindo ai perante mim tabelião..."

"Digo Ana de Abreu viúva que fiquei por falecimento do meu marido Gaspar Pereyra Brandan que entre os mais bens que possuo de que sou legítima senhora e possuidora e bem assim uma moça por nome Ana Josefa filha da minha escrava Francisca das Chagas que me tocou pelo  a meação dos bens que  ficarão do dito defunto".

"... O Reverendo Cura desta freguesia Manoel de Araujo Cavalcante que a meu rogo a escreveu. Matriz de Santo Antônio do Ararobá nos Garanhuns, 26 de novembro de 1747 anos. - Manoel de Araujo Cavalcante - Anna de Abreu - Frutuoso Dantas da Costa - Teles da Costa Suares - Manoel Dias Santiago - Manoel da Cruz de Amurim".

"Saibam quantos este público instrumento de escritura de doação e ratificação dela virem que sendo no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e cincoenta e seis anos quinze dias do Mês de maio do dito ano neste Sítio da Cruz termo do Sertão do Ararobá de onde eu Tabelião ao  adiante nomeado fui vindo sendo ai em casa de moradia de Simoa Gomes de Azevedo viúva do Coronel Manoel Ferreira de Azevedo apareceu esta perante mim... possuidora de um Sítio de terras chamado o Garcia, nos Campos dos Garanhuns... no qual Sítio fazia doação a Confraria das Almas da Matriz dos Garanhuns de um pedaço de terras que medira em quadra fazendo pião na Igreja da Matriz correndo para a parte donde está a cruz das almas até a baixa de onde fica a dita cruz e o mesmo comprimento que se achar se dará para os mais lados para fazer a dita cujo pedaço de terra assim em quadra disse ela Simoa Gomes de Azevedo doava a Confraria das Almas da dita Matriz deste Sertão do Ararobá... e pela doadora não saber ler nem escrever assinam a seu rogo José de Barros de Abreu presentes por testemunhas João da Rocha Sá, José Gonçalves, Francisco Antunes..."

"Em nome  de Deus Amém. Saibam quantos este público instrumento verem de escritura de venda que no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e setecentos e sessenta e um aos vinte e dois dias do mês de setembro do dito ano nesta Povoação do Monte Alegre de Nossa Senhora das Montanhas termo do Sertão do Ararobá e Comarca de Pernambuco onde eu tabelião vim ai apareceram perante mim como vendedor o procurador da Congregação o Reverendo Padre Ponciano Coelho e como comprador Augustinho Cardoso de Abreu morador do mesmo lugar do Brejo da Madre de Deus todos que reconheço pelos próprios de que se tratam e pelo dito Reverendo vendedor que abaixo irão assinados foi dito em minha presença e das testemunhas ao diante nomeados e assinadas que sua  Congregação era senhor e possuidor de um sítio de terras de plantar no Brejo da Madre de Deus distrito de Pernambuco chamado Conceição com duzentas braças de comprimento ou as que na verdade for contestando da parte do Norte com Antônio Gonçalves e da parte Sul com Manoel Soares da Costa e da parte do Nascente contestando com o Riacho do Genipapo e Sítio de São Francisco e da parte do Poente contesta com a terra da Capela do Senhor São José... e eu Manoel Thomé Cavalcante escrivão o escrevi..."

Muitos outros documentos existem nos arquivos de Garanhuns que se referem ao assunto em foco, porém, cremos que, pelos tópicos que acabamos de transcrever, ter ficado suficientemente esclarecido, e que por eles se conclui ter sido a Capitania do Ararobá sediada em Garanhuns, assim como em Garanhuns era  sediada a Freguesia de Santo Antônio do Ararobá.

Os referidos assentamentos também esclarecem não ter existido em Cimbres nenhuma Freguesia antes do ano de 1761. Portanto, só podemos atribuir as más informações em que se basearam os historiadores tão renomados, para fazerem aquelas afirmativas, o que não nos impede de lhes rendermos as nossas homenagens, muito humildes.

A seguir, passaremos a nos referir a territórios onde se organizaram sítios, e que não eram integrantes de nenhuma das  Sesmarias que temos mencionado. As terras,  quais foi organizado o Sítio Gato, foram arrematados em praça pública de Juiz dos Cativos do Julgado de Garanhuns, em data que não nos foi possível constatar, por Manoel Cavalcanti de Albuquerque, que  delas desmembrou dois grandes trechos e os vendeu, por escrituras particulares.

Um dos trechos que já compunha o território do Sítio Cachoeira do Gato e que começando da Cachoeira que lhe  dava o nome "seguindo pelo Rio abaixo por uma a outra banda do mesmo Rio até a barra do Rio das Panelas para a parte do Poente até uma ladeira que fica entre o Rio do Gato e minha casa de vivenda servindo de estrema a mesma ladeira e para a parte do Sul até a Serra Giremum cujas terras assim confrontadas a ouve por compra a arrematassem que delas fiz em prazo pelo Juízo de Cativos deste Julgado", foi comprado por João Lopes Freire, em 6 de novembro de 1791. Esta compra, depois do falecimento do vendedor, foi ratificado por escritura pública pela sua viúva dona Inácia Maria da Conceição e seu filho Manoel Tomás Cavalcanti, em 20 de setembro de 1802.

O outro trecho foi comprado por José Antônio Frazão, casado com dona Maria de Jesus, que o dividiu  em duas partes e vendeu a que se compunha das terras que "pegará do meio da Chã que parte com Manoel Cavalcante e pela estrada abaixo testando com Matias José de Vasconcelos até o Riacho do Forno e por ele  abaixo até o Rio e pelo Rio abaixo até o aceiro do Rosado de Manoel Frazam da parte de cima e dai subira a testar com Manoel Cavalcante em cima da mesma chã onde principiou o primeiro rumo", em 3 de setembro de 1802, a Francisco José Soares, e  a outra parte, que "pegara da Barra do Gato e subira pelo dito Riacho acima entre a Caqueira da Gameleira onde está um marco e da outra parte pegando do marco para a parte do Sul entre o caminho que vai da cangalha para as Capoeiras e descera até topar com o Bonifácio e para a parte do  Norte pegara da dita cachoeira onde está o marco da Gameleira e subirá rumo direito até a estrada que vai das Panelas para as capoeiras e descera pela estrada baixo até a barra do dito Riacho do Gato onde principiou o primeiro rumo" o referido casal José Antônio Frazão e Maria de Jesus, em 7 de setembro de 1804, a vendeu a João Paulo de Vasconcelos.

No trecho comprado ao casal Manoel Cavalcanti, por João Lopes Freire, se organizou o Sítio Riacho do Gato que o casal deste comprador o vendeu a José Antônio Frazão, cujo casal por sua vez, em 3 de setembro de 1802, o vendeu a Matias José de Vasconcelos, assim demarcado: "pegara do meio da Chã do caminho que vai das Panelas para o dito Sítio do Gato e da Chã para a parte do Poente rumo que ela der e seguira até topar com a estrada que vai das Panelas para o Periperi e subira pela dita estrada até as testadas de Jose Fragoso e dai testando sempre com o dito José Fragoso para a parte do Sul até topar no Riacho do Gato e pelo Riacho entre o Sítio Riacho do Gato no que confronta com a estrada que vai para as Panelas e sempre pela estrada até acima da Chã onde teve princípio esta confrontassem e assim confrontadas a saber da parte do Norte com Manoel Cavalcante e para a parte do Poente com a estrada do Periperi".

O território do Sítio Periperi que "pegara na serra que vem do Gato onde faz o cabeço mais alto e cortara direito a bebida do gado e cortara rumo direito a outra serra que vai do boqueirão onde topara com terras do mesmo comprador" e que não conseguimos saber de quem o casal Antônio Teles de Menezes e Antônia Maria do Rosário, que vendeu, em 23 de agosto de 1804, a José Fragoso de Albuquerque.

Joaquim Ferreira, casado com dona Antônia Francisca da Conceição, arrematou em praça pública no "Juízo Comissário da Provedoria de ausentes por devolutas" as terras que constituíam o Sítio Poço Redondo, "pegando da Barra das Inhaúmas pelo rio acima do Pirangi até uma légua e por banda do mesmo rio meia légua por cada parte, digo por cada banda". Neste território organizou-se também o Sítio do Cocal, e depois do falecimento de Joaquim Ferreira, a sua viúva separou do território que ficava compondo o Sítio Poço Redondo uma parte que demarcou da barra das Inhaúmas pelo rio Pirangi acima até a barra do Pau d'Arco com meia légua, para o Norte e, por escritura lavrada pelo tabelião Manoel da Mota Silveira, na então Vila do Recife, em 10 de dezembro de 1808, e  a vendeu a Luiz Inácio de Souza e Januário Teixeira da Cunha.

O Sítio Cocal, composto do território que, "pegando da Barra do Pau d'Arco e subindo pelo Rio Pirangi acima até a Barra do mesmo Sítio Cocal, e daí entrara pelo rumo do Sul de onde fizer meia légua e o mesmo para a parte do Norte, seguindo daí para o Nascente até entestar com terras do mesmo comprador e deste lugar seguira para o Sul até a Barra do Pau d'Arco e pelo Sul até onde der meia légua", a mesma viúva de Joaquim Ferreira, dona Antônia Francisca da Conceição, o vendeu, em 22 de fevereiro de 1809, a Caetano José da Cruz.

Esse Caetano José da Cruz era casado com dona Eufrásia Gomes de Souza que, depois de vendas que fizera de trechos do  território do Sítio do Cocal, fizeram, também a doação que a seguir veremos, mas, que por lamentável lapso não anotamos em qual dos livros do 2º Cartório se acha registrada.

"Lançamento de uma doação por Caetano José da Cruz e sua mulher Eufrásia Gomes de Souza de umas sobras de terras nas margens do Rio Pirangi termo da Vila de Garanhuns, que principia na barra do Riacho Cocal entre o rumo velho da parte que  vendemos a Antão Alves de Lemos e o rumo novo que divide com terras de Manoel João Vaz de Souza testando pela parte Oeste e Norte com o dito Antão Alves e pelo Oeste e Sul com Manoel João e Antonio Batista Freire até a divisão de Miguel Alves, cuja doação fazemos ao glorioso Mártir São Sebastião do Pau d'Arco cuja terra a dou de hoje para todo o sempre ficando a administração da mesma terra pertencendo a Francisco de Souza Cabral.  Povoação de São Benedito, 4 de maio de 1820".

João Silvério de Souza, casado com dona Maria do Carmo Castro, havia comprado ao casal de Antônio Vieira de Melo, perfilhado e herdeiro do Capitão Antônio Vieira de Melo, o trecho de terras que começava da barra do Riacho da Jangada ia pelo Rio Pirangi abaixo até a Cachoeira dos Lajeiros, com meia légua de fundo para o Norte, assim como também havia comprado o Sítio  do Riacho dos Pilões a dona Rosa Benta Joaquina, já no estado de viúva do outro perfilhado e herdeiro do referido Capitão.

O mencionado casal de João Silveiro de Souza, erigiu uma pequena Capela em louvor de Santo Antônio e, em 3 de outubro de 1812, desmembrou do Sítio Riacho dos Pilões, um trecho de patrimônio da dita Capela e se encarregou da sua administração nas condições de, com a sua morte, passar a ser administrado por  seu filho mais velho e assim, sucessivamente, sendo os seus  rendimentos empregados nas ampliações e ornatos da mesma  Capela. Fonte: História de Garanhuns / Alfredo Leite Cavalcanti (foto) / Volume I / Outubro de 1968 / Foi mantida a grafia da época. Acervo: Memorial Ulisses Viana de Barros Neto.

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