quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

História de Garanhuns

Entre outras fazendas fundadas por Antônio Vieira de Melo, depois da destruição da república dos Palmares, quando então pode dedicar, definitivamente, as suas atividades no progresso da sesmaria, foram: de Nossa Senhora do Ó, a da Cachoeirinha e a das Panelas.

Com as fazendas já fundadas e prosperando e sentindo as  vantagens que adviriam, criando-se meios de comunicações com os núcleos de populações do sertão do Pajeú, dirigiu Antônio Vieira de Melo os trabalhos da abertura de uma estrada para aquelas paragens e com ela conseguiu o êxito esperado, porém, durante os trabalhos da abertura "pelas inclemências dos climas perdeu a vista da qual enfermidade com a força de medicamentos ficou com pouca vista em um só olho".

A operosidade deste grande homem, que tudo realizava às suas próprias custas, não somente era proveitosa ao progresso da sesmaria, como também contribuía relevantemente para o aumento das rendas públicas da Capitania do Ararobá, "porque de antes se arrematavam os dízimos reais por vinte e trinta mil réis e hoje se estão arrematando os da freguesia deste Ararobá, por seiscentos mil réis tudo por virtude das novas povoações". Conforme tópicos de uma certidão datada de 10 de janeiro de 1760, do então comandante da Capitania do Ararobá, Manoel Leite da Silva.

Antônio Vieira de Melo, durante o tempo que administrou a sesmaria, contou sempre com a dedicada cooperação do seu vaqueiro e "verdadeiro amigo" Antônio Fagundes Bezerra, (depois sargento-mór) e, certamente, por isso, e como demonstração de  sua gratidão, a ele doou a fazenda "Cachoeira Grande", em 28 de março de 1730, para com ele dotar a "sua filha Maria Inácia Bezerra, menina quando viesse a se casar.

Efetivamente, pouco mais de quatro anos depois da referida doação, ou seja, em 20 de julho de 1734, foi pelo já sargento-mór Antônio Fagundes Bezerra incluída a fazenda "Cachoeira Grande", com o valor de seiscentos mil réis, no dote de três mil cruzados à sua referida filha para se casar com "Joam Brandam de Sobral para encargo e sustentação do matrimônio".

Em 14 de dezembro de 1735, o tabelião da Capitania do Ararobá, Sebastião Neto Nogueira, foi convidado pelo capitão Antônio Vieira de Melo para, em sua residência, lavrar uma escritura de dote, onde chegando, já ali se encontravam o coronel Cristóvam Pinto de Almeida, o sargento-mór Antônio Fagundes Bezerra, com o seu filho Pedro Fagundes, e o seu genro o ajudante João Brandão de Sobral e Bartolomeu de Crasto; o primeiro dotado e os outros como testemunhas.

E ao tabelião, perante as referidas testemunhas, disse o capitão Antônio Vieira de Melo, "que com a favor de Deus tinha casado sua filha dona Josefa Maria do Ó, com dito Cristóvam Pinto de Almeida e para ajuda dos encargos do matrimônio lhe tinha dotado e de novo dotava as coisas seguintes: "um negro Silvestre no valor de cento e cincoenta mil réis, Antônio Mineiro no valor de cento e cincoenta mil réis, a negra Josefa no valor de cento e cincoenta mil réis, a negra Guiomar no valor de cento e trinta mil réis, a negra Suzana no valor de cem mil réis, e assim mais vinte égoas entre pequenas e grandes mansas e bravas no valor de seis mil réis que importa ao todo em cento e vinte mil réis e mais oito poltros e quatro cavalos de serviço no valor de cem mil réis mais duzentas vacas entre grandes e pequenas mais cem machos na mesma forma o qual dito gado está situado no Sítio de Nossa Senhora do Ó que fica na beira de um rio do dito Sítio... como seu que é o toma com seu  aquiescimento por herança de seu pai Bernardo Vieira de Melo, pelo que lhe pode tocar de uma larga data que ele e seis irmãos estão possuindo nesta dita Capitania do Ararobá de que ele tem sido e está sendo o principal cultivador e administrador das ditas terras... e escolhe o dito sítio e o traspassa em dote a dita sua filha para ela e seus descendentes o qual... no valor de seiscentos mil réis o qual dito sítio para escuzar de dúvidas futuras o divide e marca na forma atual em que se acha".

Em resumo se conclui, que a demarcação declarada na  escritura pelo dotante Antônio Vieira de Melo, começava na ponta da serra que separa o rio da Chata com o Una "no Rancho do Negro" e daí ia à serra da Taquara "se dividindo com o Sítio São Francisco" e pelas águas pendentes da cordilheira para o rio Una ia em paralelo com ele até onde nele faz barra o rio da Chata e daí pelas águas pendentes para os dois rios, ia pela que os separa até onde começava.

Em 29 de abril de 1751, já sendo falecido o sargento-mór Antônio Fagundes Bezerra, o capitão Antônio Vieira de Melo, naquela data, vem a dona Maria da Conceição, viúva daquele seu "verdadeiro amigo", a fazenda Cachoeirinha com as suas terras assim demarcadas:

"Na beirada do rio Una adonde de prezente esta acituado e pelo dito rio Una abaixo correrá a demarcação dividindo igual parte com o Sítio da Cachoeira de Baixo de que é senhor João Brandão de Sobral em forma que neste meio e o comprador deste Sítio da  Cachoeirinha nem o possuidor da cachoeira Grande, nenhum poderá por este meio sítio de logradouro como assim está declarado na doação que já fez o dito vendedor do sítio da Cachoeira  quando a mesma estrada para a parte do norte buscara as lagoas que  a seguir pelo dito Rio Una assim seguirá até chegar a passagem da estrada que vai do Jupi para a parte do Tacaimbó, e seguindo a mesma estrada para a parte do norte buscara as lagoas que lhe fique servindo de seus logradouros, e do fim das lagoas tudo que nela lhe for útil de suas beiradas correra para o nascente até igualar com a divisa que está demarcada com Sítio da Cachoeira, e do Rio Una para a parte do sul lograra tudo que puder  beneficiar até as serras que se chamam do Boqueirão e desta sorte deu o dito vendedor por dividido o dito sítio".

Enfim, nos extremos da sua velhice, e já cansado de tantos valiosos trabalhos, Antônio Vieira de Melo, que se conservou no estado de solteiro, encarregou os seus perfilhados, Alexandre Muniz de Melo e Antônio Vieira de Melo, da administração dos seus domínios e recolheu-se a Vila do Recife, onde faleceu em 1764, com oitenta e nove anos de idade, e com o seu falecimento, tornaram-se os referidos perfilhados os seus únicos herdeiros.

O primeiro, Alexandre Muniz de Melo, casou com dona Rosa Bento Joaquina, e o segundo, Antônio Vieira de Melo, casou com dona Brázida de São José.

Depois de empossados na herança do imenso latifúndio,  estes dois irmãos o que tiveram de vida a empregaram nas vendas de sítios e mais sítios, que se organizavam no seu território. (Fonte: História de Garanhuns - Alfredo Leite Cavalcanti (foto) - Volume I - Outubro de 1968. Mantida a grafia da época. Acervo: Memorial Ulisses Viana de Barros Neto).

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