domingo, 30 de janeiro de 2022

História de Garanhuns

Paço Municipal de Garanhuns no início do Século XX

A Vila de Garanhuns em 1855, se compunha de cento e cinquenta e seis  prédios, já possuía - “de quatro a oito ruas”, em 1878, no dizer do Barão de Nazaré, as quais, de acordo com discriminações constantes em livros de ata da antiga Câmara dos Vereadores, eram as seguintes”:

A rua nova de Santo Antônio, hoje parte integrante da Avenida deste nome, começou a se formar depois que a Vila passou à categoria de cidade, tendo o seu  início na embocadura da antiga rua Augusta ou do Cajueiro – atualmente Rua Dr. Severiano Peixoto -, com direção à Igreja Matriz, hoje a atual Catedral. São também, dessa época a Rua do Recife – atualmente, rua Dr. José Mariano – que  teve como primeiras denominações: “Estrada que vai para o Recife” e depois “Rua que vai para o Recife” e a Rua Jardim, hoje Joaquim Nabuco. 

A Rua do Comércio, também chamada “Coronel Peixoto” - parte integrante da Avenida Santo Antônio – passou a ter esta denominação depois de ter sido para ela transferida a feira que então se realizava na Rua da Imperatriz – atual Santos Dumont – fato este que não nos foi possível saber em que data se realizou. Contudo podemos afirmar, que a aludida feira só deixou de ser realizada aos domingos, para ter lugar aos sábados como ainda continua, isto depois que  a Câmara dos Vereadores, em 13 de setembro de 1881, deferiu uma petição assinada por grande número de comerciantes.

Naquela época quase todos estabelecimentos comerciais da cidade se localizavam na Rua do Comércio e nele residiam os seus proprietários, com as respectivas famílias. Para esse fim, os prédios eram construídos com três ou quatro portas de frente, servindo uma delas para a entrada da residência.

A principal fonte de riqueza da região ainda fosse a pecuária e como a criação se efetuasse com os animais soltos, as ruas viviam cheias deles o que dava lugar a contínuas reclamações dos seus habitantes junto aos poderes constituídos. Em 8 de fevereiro de 1884, a Câmara dos Vereadores, atendendo a uma solicitação dos moradores locais, limitou a zona da criação solta a proibiu os animais pastarem no perímetro urbano.

Aproximou-se por essa época, o prolongamento da via-férrea. Em 1886, foi  dado começo à construção da estação ferroviária e o início da “Rua Nova do Imperador” - atual Dantas Barreto - e nela foi levantado o prédio onde funcionaria o “Hotel Estrela”, a primeira casa no gênero da Cidade, exatamente no local onde foi a Agência Ford, cujo Edifício foi de propriedade da firma Carvalho S.A.    Em 28 de setembro de 1887 chegava o trem em Garanhuns com a inauguração da estação ferroviária, atual Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti.

A facilidade de transporte pela via férrea, aos poucos foi transformado para melhor a vida da comuna. Aos naturais vieram se reunir os forasteiros  que adquirindo terras pertencentes a latifúndios, as tornaram produtivas, aumentando a produção e, consequentemente, a riqueza do Município.

A cidade começou logo a ser visitada por personagens ilustres e até nobres, por exemplo, foi em 1888, o Conde d’Eu que, em trem especial, aqui chegou e no mesmo dia regressou, depois de visitar a Câmara Municipal, tendo se hospedado na residência do Dr. Gonçalo Braz dos Santos, sito à atual Avenida Santo Antônio nº 459, cuja casa foi de propriedade de Domingos Diletieri e seccionada para estabelecimento comercial.

Antes da inauguração do prolongamento ferroviário, a agricultura a pecuária e o comércio, então fontes de riquezas, permaneciam em estado de estagnação; a falta de rápida comunicação e de mercado para a produção agrícola de fácil deterioração, provocavam o emperro do desenvolvimento econômico e social do Município. Por tudo isso o poder administrativo via-se em permanente dificuldades para realizar melhoramentos públicos com as  minguadas rendas municipais. A falta de um serviço organizado de limpeza pública, para exemplificar, era evidenciada pela imundice que reinava nos logradouros. As ruas não eram calçadas e o mato crescia por toda parte dando motivo a que os animais, os mais diversos, ali viessem pastar, e quando acontecia fazer-se uma limpeza, esta era  feita por delinquentes, presos uns aos outros por grosas cadeia de ferro que lhes prendia no pescoço. Enfim, tudo era extremamente precário.

Em 1890, a Câmara dos Vereadores foi extinta e substituída pela  Intendência Municipal.

Por esta época grassou na cidade uma epidemia de varíola, tendo  o governo do estado a fim de debelá-la, determinando à Intendência a nomeação de uma pessoa idônea para ir ao Recife verificar como se fazia a inoculação da  linfa vacínica e de lá trazer quantidade suficiente para vacinação de todos os habitantes. Foi nomeado o Dr. Miguel Cursinho Vila Nova que muito  bem cuidou dessa missão.

Já então, O Município começava a gozar os benefícios proporcionais pela  via-férrea que muito lhe viera facilitar o intercâmbio com a Capital.

O comércio, por sua vez, foi crescendo com a fundação de novos estabelecimentos, inclusive escritórios de grandes firmas exportadoras.

As feiras aumentaram, de ano para ano, bem como o volume de negócios e as trocas de produtos.

Fundaram-se hotéis a fim de receberem os turistas que vinham em busca do clima e das águas com que a natureza privilegiou a região.

Nas principais ruas e, especialmente  na “Rua do Comércio” e “Rua Nova de Santo Antônio”, partes da atual avenida Santo Antônio, são iniciadas as substituições das casas de taipas e das meiáguas, assim como o preenchimento de terrenos ainda desocupados, por prédios de tijolos, alguns com as fachadas revestidas de azulejo e até com o piso de mosaicos, como foi o que tem o número 187, o primeiro a apresentar essa inovação.

A primeira construção moderna e que apresentava todos os requisitos de aperfeiçoamento urbano da época, foi a então suntuosa residência construída pelo engenheiro das obras da estrada de ferro, o Dr. Eronides de Holanda Costa, residência esta que mais tarde, depois de ampliada e adaptada, transformou-se no atual Palácio Episcopal. Outro cidadão de não menos bom gosto,  construiu, para sua residência, o prédio hoje ocupado pelo Hotel Familiar que,  apesar das reformas e ampliações, ainda conserva muito da sua característica primitiva. E não mais foram construídas casas de taipa ou meiáguas nas principais  ruas da cidade.

Os estabelecimentos comerciais eram instalados  nas   próprias residências dos comerciantes, foram, pouco a pouco, se mudando para prédios mais condizentes com a sua situação, e construídos para esse fim em terrenos desocupados em virtude da demolição das antigas casas.

Infelizmente não havia um plano urbanístico para firmação das ruas e avenidas, as quais formavam margeando os antigos caminhos e cresciam acompanhando as suas sinuosidades.

Conforme ata da sessão da Intendência Municipal, de 20 de novembro de 1890, foi, por proposta do Intendente, alfares Joaquim Correia Brasil Júnior,  substituídas as denominações das ruas “Augusta ou do Cajueiro” (atual Dr. Severiano Peixoto) pela “Rua do Capitão Vila Nova) em honra à memória do grande benfeitor Capitão Tomas Vila Nova; da “Rua da Aurora” (atual Barão do Rio Branco) pela “Rua Capitão Souto”, para evidenciar o patriotismo com que sempre conduziu o Capitão Francisco da Silva Souto. Ainda na mesma sessão e por proposta do Intendente, Major Antônio da Silva Souto, substituída a denominação da “Rua do Imperador” (atual Rua Dantas Barreto) e que antes se chamava “Rua Dr. Rosa e Silva), pela de Dr. Abreu, por terem sido construídas as primeiras casas da referida rua, quando era presidente da extinta Câmara dos Vereadores o Dr. Antônio Salustiano de Abreu Rêgo, e ter o mesmo nela falecido em 21 de junho de 1890, depois de haver prestado relevantes serviços a Garanhuns.

Já, em sessão de 2 outubro de 1888, a antiga Câmara dos Vereadores, por proposta do membro Pascoal Lopes Vieira de Almeida, havia substituído a denominação da “Rua Bela” pela de Dom José, como homenagem ao primeiro Bispo que visitou esta Freguesia, Dom José Pereira da Silva Barros.

Em 1891, por petição, só comerciantes locais solicitaram à Intendência Municipal, decretar o fechamento do comércio nos dias de domingo, a qual submetida a discussão em sessão de 31 de março de 1891, foi por ponderação do  Intendente, Tenente Joaquim Alves Barreto Coelho atendida  em parte, o que originou o fechamento naqueles dias, as quatro horas da tarde. Por falta de dados mais exatos, podemos calcular a lentidão com que se desenvolvia a cidade, tomando por base a existência de 200 casas nas “quatro ou oito ruas”, que compunham a Vila, por ocasião da sua elevação à categoria de cidade em 1879, e ter-se elevado este número a 250 construções oito anos mais tarde , quando foi inaugurada a estrada de ferro em 1887.

Quando em setembro de 1898 aqui chegamos (Alfredo Leite) a cidade já se compunha de 17 ruas com cerca de 500 prédios; passados dez anos, em 1908 este número se elevou para 1014 prédios por nós contados. Também os contamos em 1916 e, pela última vez em 1922, tendo constado a existência de 1465 e 2247, respectivamente.

Em 1899 apenas quatro ou cinco casas existiam margeando a estrada de ferro pelo lado Norte. A atual Rua Dantas Barreto e antiga Rua do Imperador, depois Dr. Abreu e mais tarde Dr. Rosa e Silva, com algumas casas de melhor construção, terminava na parte leste da atual Praça Dom Moura, em um cercado onde Joaquim Preto guardava os seus bois mansos, e os respectivos carros com que transportava mercadoria da Estação Ferroviária para as casas comerciais e vice-versa.

A Rua do Recife – hoje Dr. José Mariano – com algumas construções de tijolos, a maioria em taipa e muitas meiáguas, chegava até a atual Rua Napoleão Galvão.

A atual Avenida Santo Antônio onde havia o maior número de construções novas e boas reconstruções, se dividia em três partes: da Catedral, até a desembocadura da atual Rua Dr. Severiano Peixoto, e se denominava Rua Santo Antônio; daí ao beco que vai para o Cine Jardim, tinha a denominação oficial de Rua Cel. Peixoto, embora vulgarmente chamada rua do Comércio (depois Rua Dr. José Marcelino) e o restante denominava-se praça da Conceição.

A Rua da Concórdia (hoje rua Dr. Manoel Borba) continuava com os prédios de construção antiga e assim também a Rua do Imperador (depois Rua Santos Dumont) onde, primitivamente se realizava a feira e na qual existiam alguns prédios centenários construídos de tijolos, inclusive um sobrado.

A Rua da Boa Vista (hoje praça D. Pedro II) contava cerca de sessenta casas, inclusive as que havia no começo da Rua do Corrente (atualmente Rua São Miguel), e o Mundaú (hoje Avenida José Leitão), quase todas de ruim construção e muitas meiáguas, das quais ainda existem algumas, neste ano de 1964.

As demais ruas se compunham de poucas casas das quais raras eram as de boa construção.

Nessa época ainda havia e era utilizado o edifício do Paço Municipal. Esse edifício era um sobrado de taipa porém muito sólido devido a espessura e boas qualidades das madeiras nele utilizadas. Seu teto era em tacaniça com biqueiras para os quatro lados, verdadeiro estilo colonial, tendo sido concluída a sua construção de 1818.

O andar térreo era destinado a cadeia cuja prisão para homens chamada pelo vulgo de “porão” tinha acesso por uma porta de alçapão localizada no pavimento superior sendo a entrada e a saída dos prisioneiros por meio de uma escada que era retirada após sua utilização.

Ainda no andar térreo ficava a prisão das mulheres, o corpo da guarda e um xadrez para prisão de soldados. Do lado de fora uma guarita para abrigo do sentinela. Já não havia mais o pelourinho.

No pavimento superior haviam compartimentos onde funcionava os diversos departamentos municipais, inclusive o salão destinado ao tribunal do Júri e uma sala para detenção daqueles que, por direito, podiam ser recolhidos à  prisão comum.

Era esse o panorama da cidade de Garanhuns no fim do século passado. Já começava a se fazer sentir os benéficos efeitos da ligação com a Capital do Estado por via-férrea. O índice de construções subia mais dia a dia e a expansão da cidade dava lugar a formação e criação de novos bairros um pouco mais afastados do primitivo agrupamento.

O bairro da Boa Vista originou-se da construção de modestas casinhas em  alinhamento com uma residência em estilo rural construída por Joaquim Acelino de Melo.

Em 1901, já contava com algumas casas comerciais, quando foi criada uma feira pelos comerciantes locais a qual se realizava aos domingos, tendo porém, pouca duração, talvez devido ao dia em que se realizava.

Contudo em 1905, vários cidadãos e, entre eles o Capitão João Leite Cavalcanti e o Capitão Quirino Alves Feitosa criaram outra feira que passou a realizar-se nos dias de quarta-feira, a qual, somente através de grande esforço e muita perseverança e até mesmo com o perigo da própria vida conseguiram manter.

A referida feira muito contribuiu para o desenvolvimento daquele bairro, quando nele se realizou. Entretanto, na gestão do Prefeito, Dr. Luiz da Silva Guerra, médico humanitário e de grande capacidade, porém desprovido de qualquer alcance em compreensão administrativa, achou por bem transferi-la para a Avenida Santo Antônio apesar de todos os meios persuasórios empregados pelos seus habitantes. É que, a esse tempo, já não mais existiam os seus principais criadores, aqueles que algumas vezes chegaram a pegar em armas a fim de evitarem a sua mudança para outro local.

O cidadão Pascoal Lopes Vieira de Almeida idealizou a construção de uma  igreja, sob o cargo de São Sebastião, no alto de São Miguel na Boa Vista. Ideia, que encontrou apoio de outros cidadãos ali residentes, e a obra, iniciada por  volta do ano de 1894, foi suspensa depois, quando já se achavam construídos os  alicerces, no centro dos quais foi fincada uma cruz de madeira com cerca de  dois metros de altura. E lá ficou a obra interrompida somente sendo lembrada por ocasião das epidemias, quando grande parte da população ia valer-se do Santo.

O local era limpo e grande quantidade de gente, especialmente mulheres, para lá afluída a fim de rezar o terço e ladainhas para implorar a proteção do Santo Mártir.

Era deveras grandioso o espetáculo que assistíamos por ocasião dessas romarias. Dezenas de pessoas conduzindo velas acesas dirigiam-se para o local da cruz e ao chegarem, uma das mulheres cantava:

“São José e Jesus Cristo

Ambos vão em nossa guia

O Mártir São Sebastião

E a Virgem Santa Maria”.

E o coro de dezenas de vozes assim respondia:

“Mártir São Sebastião

Ele é o nosso defensor

Queira nos livrar da peste

Amorosíssimo Senhor”.

Passada a epidemia, lá ficava, novamente, abandonado o local, e o mato tomava conta de tudo. O progresso entretanto, continuava. A cidade tornou-se a sede de um Bispado e o bairro ia crescendo. Ao aproximar-se os festejos do primeiro centenário da Independência do Brasil, o Padre Francisco Luna tomou a seu cargo terminar a construção da referida igreja. Ajudado por várias pessoas de boa vontade, e depois de grande sacrifício, conseguiu inaugurá-la a 7 de setembro de 1922, fazendo parte esta inauguração, das comemorações que então se realizavam. Nesse mesmo ano Dom João Tavares de Moura, primeiro Bispo da Diocese de Garanhuns criou a freguesia de São Sebastião da Boa Vista, fazendo-se matriz a Paróquia. Ainda na mesma data, foi pelo então Prefeito, Coronel José de Almeida Filho, lançada a pedra fundamental do Majestoso Monumento à Independência da Pátria, cuja planta idealizada e traçada pelo garanhuense Dr. Ruber van der Linden, foi mandada executar pelo governo do Município, e teve a sua inauguração no dia 7 de Setembro de 1923, pelo prefeito Euclides Dourado, então no exercício de Prefeito.

Em 1961 o bairro da Boa Vista, além de sede da Freguesia, era distrito civil e policial, e contava com 15 ruas e duas praças, contando com cerca de 1.800 prédios, muitos deles preenchendo todos os requisitos da arte moderna em construção. 

O bairro do Magano teve um desenvolvimento mais lento, nem por isso deixou de progredir sensivelmente se levarmos em consideração o pequeno número de prédios (25)  que possuía, em 1898, e não ter contado com o concurso de uma feira, como o da Boa Vista. Muito do seu progresso deve-se às iniciativas de Ernesto Leite e, especialmente, às de Antônio Alves do Nascimento, que atendendo a um apelo da Igreja, fez construir, por sua conta, a capela que mais tarde veio ser a atual Matriz de Santa Terezinha, que teve como primeiro vigário o Padre Tarcísio Falcão, depois substituído pelo Padre Acácio Alves, filho do principal benfeitor do bairro, Antônio Alves do Nascimento.

No ano de 1925, o missionário Presbiteriano Rev. Dr. George William Taylor, conseguiu da sua missão a verba necessária para a construção do Edifício do  atual Colégio 15 de Novembro. O local escolhido foi o atual, porém, naquela época ocupado por uma rua de casinhas humildes, chamada de Rua do Alecrim. O Dr. Taylor, prontificou-se a adquiri-las indenizando-as aos seus proprietários, pelo preço por eles estipulado.

Entretanto havia um contratempo, que consistia na dificuldade de ser conseguir outro local onde se instalassem. O então Prefeito do Município, Euclides Dourado, que, pelo seu amor a Garanhuns, nunca deixava sem solução, durante seu mandato, qualquer problema afeto à Prefeitura, convidou o Sr. Leonilo Ferreira do Nascimento, construtor com algum conhecimento de engenharia, a fim de ambos, percorrendo a antiga estrada que ia para Frexeiras, descobrirem um local apropriado para a transferência dos moradores da Rua do Alecrim.

Descoberto o local, logo foi encarregado do serviço de limpeza com a devastação do matagal e adaptação do terreno, o mesmo Leonilo. Em uma das vezes que o prefeito examinava os trabalhos, resolveu, em companhia de Leonilo, passear pelas imediações e assim chegaram ao monte que Euclides Dourado logo o denominou Monte Sinai. Subiram-no e dali contemplaram admirados a planície a seus pés, que se estendia até a cidade distante, verificaram que aquele monte ficava em perfeito alinhamento com a rua do Recife – atualmente rua Dr. José Mariano.

“Nesta planície é que deveria ter sido iniciado o povoamento da cidade”, disse o prefeito. “E porque o Senhor não funda outra cidade nela?” pergunta Leonilo Ferreira. “Sei lá… bem, vou pensar nisto”, respondeu Euclides Dourado.

Na noite daquele dia o Prefeito não conseguiu dormir direito. Não lhe  saia da imaginação aquela enorme planície abandonada e aquele belo monte de  onde se descortina panorama tão magnífico. Via, em imaginação, aquela planície toda cortada por ruas e avenidas e, entre elas uma, a principal, em alinhamento com a Rua do Recife.

No dia seguinte convidou o seu conterrâneo e amigo Dr. Ruber van der Linden, a quem expôs o plano de aproveitamento daquela enorme área.

E, no local, teve o laborioso Prefeito a satisfação de ver o seu plano receber os aplausos do amigo. Era o início de um dos maiores beneficiamentos que  a cidade iria receber. Poucos dias depois os que iam ali, em todas as direções, bandeirolas tremulando nas extremidades das varas, e o Dr. Ruber van der Linden à frente de uma turma de trabalhadores dirigida por Leonilo Ferreira do  Nascimento, executando o sonho do prefeito Euclides Dourado.

Quando, com a abertura da atual avenida Rui Barbosa, se tornou possível a subida de um automóvel ao cume do Monte Sinai, em uma das idas até lá, o Prefeito se fez acompanhar do seu filho, Dr. José Maria Dourado. Lá em cima, contemplando o belíssimo panorama e o adiantamento dos trabalhos na planície, já com várias avenidas abertas e loteadas, tudo iluminado por esplendoroso sol de verão, pergunta Euclides Dourado ao seu filho: “Diz lá… que nome devo dar a isto?”. Surpreendido com a pergunta, pensa um momento o rapaz, e vindo-lhe à memória reminiscência da História Grega, respondeu: “Heliópolis”.

“Heliópolis, Heliópolis...” resmunga o pai. “Sim, Heliópolis...” retruca o filho”. “Não vê o Senhor como o sol ilumina toda planície?”

“Está bem,” diz o pai, “Será Heliópolis mesmo”. Mas algum tempo e ficaram prontos os trabalhos de demarcação e loteamento.

Os terrenos foram postos à disposição de quem quisesse, em lotes de 10 e de 16 metros de frente, por até trinta de fundos.

Para adquiri-los bastava fazer uma petição ao Prefeito, e as únicas despesas que tinham os candidatos eram os selos da petição e o registro da concessão no cartório.

Os proprietários das casinhas da Rua do Alecrim tiveram, cada um, um lote com dez metros de frente a mais a ajuda na construção da sua nova moradia.

Deu-se início então, em 1926, as construções mais importantes do novo bairro: O Colégio 15 de Novembro e o Sanatório Tavares Correia.

É de notar-se que, não obstante todas as facilidades concedidas pelo prefeito, não eram muitos os que requeriam terrenos e a maioria daqueles que o faziam, limitava-se a murá-los sem darem início às construções. “É muito longe do centro da cidade e não dispomos de automóveis”. Era estas as palavras que se ouvia da maioria.

No dia 1º de março de 1930, o prefeito Euclides Dourado, surpreendeu a cidade com uma nova iniciativa: Chegava a Garanhuns o Sr. Enrique Torres, vindo da capital do Rio Grande do Norte, com seis micro-ônibus, com a  capacidade de transportar dezenove passageiros cada um, já com a denominação de “Empresa Auto Viação Garanhuns”, gravada na parte traseira de cada uma unidade.

A referida empresa, em quatro meses depois passou para outro proprietário e teve a sua denominação substituída por “Serviço Urbano de Transportes de Passageiros”, muito concorreu para o desenvolvimento do Bairro de Heliópolis, até que se extingui no final do ano de 1956. Contudo, apesar desse grande melhoramento urbano, o crescimento do bairro ainda deixava muito a desejar, até que o Dr. José Maria Dourado, seguindo o exemplo do seu pai, deixando a vida inativa que vinha levando resolveu dar início a um empreendimento digno de sua pessoa. Iniciou a construção de modernas residências para serem vendidas em módicas prestações mensais a longo prazo.

E grande foi o número destas construções. Não satisfeito, ainda construiu o edifício do Cine Eldorado e grande quantidade de prédios destinados ao comércio. Finalmente dotou o Bairro de Heliópolis de quase tudo que se fazia necessário à sua vida regular.

Essa iniciativa serviu de incentivo a vários outros que também iniciaram a construção de suas casas de residência, e hoje temos o aristocrático bairro, orgulho dos garanhuenses.

É nosso dever evidenciar os serviços prestados em prol do desenvolvimento de Heliópolis, pelo senhor Eronildes Rodrigues da Paixão com a construção de casas populares para aluguel.

Entre os moradores da Rua do Alecrim, que foram os primeiros habitantes do bairro, havia uma senhora negra bem velha, muito simpática, que vivia da caridade pública e devido ao seu bom humor e boas maneiras gozava de estima de grande número de pessoas. Quando da desapropriação dos moradores e transferência para novo local, devido ainda ao seu estado de miserabilidade, Euclides Dourado deu-lhe uma casinha nova para residência o que foi motivo de grande admiração de sua parte por aquele homem tão generoso. Quando vinha à cidade em busca de auxílio, se alguém lhe perguntasse onde estava morando agora, ela respondia cheia de gratidão: Moro no Arraiá do Seu Ocridio” e assim ficou o novo bairro com este apelido.

O Bairro de São José, só veio a ser assim denominado depois que o senhor José Ferreira de Assis – apelidado “Zé Pão Duro”, devido a vida de excessiva parcimônia que leva haver nele construído cerca de cento e cinquenta casas populares, inclusive as que compõem quase toda a Rua de São José. Antes, porém, já eram formadas as ruas: Mons. Afonso Pequeno, Cel. Antônio Souto, Antônio Victor e  parte da Rua São Vicente.

O Bairro do Quilombo foi iniciado em 1957, pelo então vice-prefeito, Sr. Abdias de Noronha Branco, que loteou uma parte de sua propriedade. Sítio Quilombo, dividindo-a em mil lotes destinados à edificação de um bairro residencial. Tendo tido conhecimento o referido senhor, da visita do delegado do IPASE a este Município, com o fito de conseguir local para a construção de cinquenta casas que deveriam ser vendidas aos associados daquela autarquia, para pagamento em prestações mensais, entrou em entendimento com o mesmo a fim de fazer doação dos terrenos apenas com a condição de ser a sua empresa construtora encarregada da construção dos prédios. Aceitas as condições, por ambas as partes, foram as casas construídas, já tendo sido feita a doação de um terreno para a construção de uma igreja. 

O desenvolvimento da povoação do Ararobá, iniciada no ano de 1700, com a construção de cerca de 15 casas, e que, em 1763, com a sua denominação substituída pela de Santo Antônio de Garanhuns, foi elevada à categoria de Vila, por Carta Régia de 10 de Março de 1811, com a mesma denominação, que por lei provincial nº 1.309, de 4 de Fevereiro de 1879, elevou-se à categoria de cidade com a denominação atual. Neste ano de 1962 a cidade de Garanhuns, se compõe de cento e trinta cinco logradouros. Sendo sessenta e duas ruas, vinte e oito avenidas, vinte e uma travessas, doze praças e dois parques, nos quais existem seis mil setecentos e vinte prédios registrados na prefeitura municipal. (Fonte: História de Garanhuns | Alfredo Leite Cavalcanti | Volume II | Fevereiro de 1973 | Acervo: Memorial Ulisses Viana de Barros Neto).

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