quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

História de Garanhuns

O Rastejador Tenente Raimundo (Década de 1910) - Quando se fala no povoado de Brejão de Santa Cruz , vem logo a lembrança da figura interessante  do "Tenente Raimundo". Camarada baixo, moreno claro, olhos castanhos, muito conversador e   esperto. Embora muito católico e admirador dos padres, trazia sempre consigo, em um bornal, enrolado em pano de algodãozinho, uma Bíblia, para mostrar a sua sapiência aos matutos. O Tenente gostava de repetir para eles alguns salmos, versículos e partes de fácil compreensão. Tinha os seus momentos para uns repentes em martelo, ou para contar algumas  estórias de Trancoso. Ele era apontado, não só como  o melhor rastejador da redondeza, como também o matuto de maior tino político e entendimento nos assuntos da coisa administrativa das bandas do agreste. 

Em uma noite de desobriga, fria de inverno, quando já estavam jantando, o Idalino, filho do Capitão Américo Ferreira muito espantado, disse que o cavalo do "Seu Vigário" tinha sumido. O Capitão Américo, envergonhado, mandou que imediatamente chamassem o Tenente Raimundo, o rastejador oficial dos animais sumidos naquele Distrito. Diziam que ele rastejava até cabras em pedras, e seguia uma semana as pegadas dos camaradas, até encontrá-los. O Tenente cobrava o serviço de acordo com as posses do interessado ou pela qualidade do animal. Só não tinha muito vexame. Com muita Fé em Deus, ele demorava para encontrar, mas trazia o bichinho, pois sabia escanchar-se no rasto e guardá-lo na memória.

Só pela madrugada, após andar várias léguas, acompanhado do Inspetor do Quarteirão, é que ele voltou ao povoado, trazendo porém o animal sumido e o herege que o conduzia descuidadamente. Apressou-se o Tenente em esclarecer ao Capitão que o dito não era pernambucano,  adiantando que nas suas diligências tem verificado que os camaradas são sempre de outro estado. Essa história de dizer que pernambucano  gosta mais de cabresto, que de um cavalo, é lorota de  papa sururu. O subdelegado, segurando o malfeitor pela gola do paletó e pelo cós da calça, disse-lhe do crime que estava praticando, chamou-lhe de herético, perguntando como tinha coragem de vir de longe roubar o cavalo do Vigário, depois de ser bem recebido em Brejão. Um dos circunstantes reconheceu e gritou que viu ele cantando na Ladainha. O camarada então calmamente disse para o Padre, com certo respeito: - Seu Vigário, galo onde canta aí janta. Todos os presentes acharam graça na piada, mas o Capitão, embora muito cedo ainda chamou dois cabras e mandou que levassem o moço atrás da Igreja e dessem um almoço substancial, pois ele devia estar com vontade. Seria uma grande pisa.

E o Tenente Raimundo, como era também um bom conversador e entendido nas coisas administrativas, aproveitou a ocasião para puxar um pouco pela conversa. Ele era de oposição, estava por baixo, adversário do Capitão, não queria perder uma oportunidade daquela, embora em plena madrugada, para prestar seu depoimento. Era de chupeta. Mas, quem diz o que quer ouve o que não quer. O Capitão disse que não limpava o município por causa da oposição. O rastejador foi na  cozinha e bebeu água num chocalho. Ainda o povoado estava todo às escuras, não se ouvia até então o maravilhoso canto das graúnas do Brejão, tão conhecidas e faladas na redondeza, como a coisa bela do amanhecer nas matas da região.

Fonte: Livro "Um Nordestino -  Nos Caminhos da Vida" / José Pantaleão Santos / 1969

Foto: O Rastejador / Créditos da foto: https://tokdehistoria.com.br

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