quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

História de Garanhuns

Antonio Paulo de Miranda Filho - O valor não está especificamente preso aos seus jardins, às suas flores, ao seu clima. É um valor, pois não, porém que não responde sozinho pelo acervo e grandeza desta terra.

São valores consagrados a maturados pelo tempo. Valores que ocupam espaços significativos nos  mais variados segmentos de nossa sociedade. Valores inesquecíveis. Que orgulham a terra onde nasceram. Mas que só luziram em centros mais adiantados, dispostos a acolher cérebros privilegiados. O valor de um município não está então, cingido a comunidade que não arredou-pé e optou pelo sacrifício de enriquecer sua cidade, com o seu talento, cidade que carece de estrutura para formalizar seu conhecimento aos filhos providos de genes acima da média. Indiferente e apática às suas verdadeiras potencialidades, cruzam-se os braços, decretando o êxodo dessa gente em busca do seu caminho, ida sem volta, a não ser através de cartões postais aos familiares e amigos mais próximos.

E, na voragem dos tempos, esses valores são engolidos pelo esquecimento. Esquecimento irresponsável, porque  não se acompanha pela imprensa, revistas e jornais, a catalogação de expressivas conotações de alcance internacional de muitos desses filhos de Garanhuns, arribados pelo sonho de concretizar seus anseios, anseios e sonhos colimados nas hiper metrópoles, onde se escancaram as portas a quem leva a sua bagagem, além das tralhas, considerável manancial de inteligência.

A CONSAGRAÇÃO DOS "ANTONIOS"

Muitos  foram os "Antonios", que acicatados pelo desejo de vencer na vida, mesmo constrangidos em deixar a ternura do lar, a companhia dos pais, a convivência com irmãos, tios, parentes e amigos - que em paus-de-arara, de navio, ônibus e avião, arremeteram pelo mundo, pé na estrada, lenço ensopado de lágrimas de saudades, do Columinho, do Magano, das amplas e generosas calçadas da avenida Santo Antônio, do bucolismo das matas frias, dos lances inesquecíveis do seu tempo de criança, das sombras acolhedoras dos pés de eucaliptos que ciciam hinos poéticos sibilados pelos ventos em suas folhagens. Tantos foram os "Antonios". Os "Antonios" foram tantos. Mas, um Antonio catapultou o nome de Garanhuns para o cimo numa área extremamente nobre do ofício da medicina.

PROFESSOR ANTONIO PAULO FILHO

O filho (segundo) de Antonio Paulo de Miranda e Quitéria Bezerra de Vasconcelos Miranda, começou a escrever sua própria história na cidade de Garanhuns, cujos alicerces  beijados pelas nascentes do rio Mundaú. Fez-se criança. E como toda criança saudável, aprontou peripécias inerentes ao seu  tempo. Aos 4 anos recebeu a primeira instrução escolar de Dona Neném.

O filho do dono da sapataria Moderna, nesse tempo, já revelava incrível vocação para arte. Aos 8 anos compôs  aquarelas e desenhos a craion. Com a morte do seu tio, Luís Jardim em 1917, seu mestre de pintura, viu desolado o tolhimento de prosseguir seus estudos, o que impediu a trabalhar numa tipografia da Igreja Evangélica de Garanhuns, onde entusiasmado pela imprensa, atrevidamente editou um pequeno jornal que circulava entre os amigos. Aos dez anos já cursava o secundário no "Colégio 15 de Novembro" (1912/1916) e posteriormente no "Ginásio de Garanhuns" (1917/18). Engolfado pelas circunstâncias que a vida apresenta Antonio Paulo, discordando da orientação dada pela direção do "Ginásio" do qual era aluno, interrompeu seus estudos a 11 de novembro de 1918 e durante dois anos peregrinou a vida de vários modos exercendo ofícios no comércio e na indústria. Nesse período descobriu que os seus sonhos eram mais altos. Fez ciente aos seus pais dos seus anseios e eles levaram-no para o "Ginásio do Recife" em 1920, proporcionando-lhe melhor ambiente escolar e uma gama maior de oportunidades nos estudos. Sempre aplicado, Antonio Paulo de Miranda, chegou a Faculdade de Medicina com louvores, depois de fazer excelente vestibular na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1924. Na sua fulgurante trajetória no campo dos estudos da medicina, no 2º ano conquistou o Internato no Hospício Nacional dirigido pelo mestre Juliano Moreira. Enamorado pela oftalmologia, partiu com garra para essa especialização, frequentando os mais respeitáveis centros médicos, a exemplo dos serviços do professor Davi de Sanson na Policlínica de Botafogo e nos Hospital São João Batista da Lagoa. Diplomado em 1929 palmilhou dois caminhos: o da profissão e do só ensino. Por sua aplicação e devoção ao trabalho, aureolou o seu trajeto ainda no verdor da sua iniciação profissional, difundindo em revistas e palestras, os mais úteis e saudáveis conhecimentos, a médicos e estudantes da especialidade.

Séries empolgantes como "Semiologia Ocular" e "Oftalmologia do Médico Prático" publicadas em "O Mundo Médico" além de palestras realizadas no Curso de Clínica Médica do professor Otávio Aires sobre o "Valor Prognóstico da Oftalmologia", "Estudo Semiótico das Pupilas e seus Reflexos", "Exame de Fundo do Olho e Suas Aplicações em Clínica Médica", "Principais Quadros Oftalmológicos nas Enfermidades Cardiovasculares", lhe valeram notoriedade compensatória pela profundidade com que dissecou as matérias debruçado no seu alto conhecimento.

Se nos impede o alongamento referencial às grandes e expressivas obras, trabalhos e teses, defendidos em Congressos, Palestras e publicações ricas de informações, pela exiguidade de espaço destinado nesta publicação.

Cinco anos após ter se formado, o professor Antonio Paulo de Miranda, exerceu a profissão em Garanhuns, sua terra natal nos anos de 1934/36. Neste último, regressou ao sul do país, onde formalizou seu casamento em Vassouras com Dolly Lorentz Muller, descendente de alemães pelos avós paternos e franceses pelos avós maternos. Apoiado por um feliz e duradouro matrimônio, não teve como regressar a  sua Garanhuns, ficando sua tenda no sul do país, atendendo convocações irrecusáveis do seu meio profissional, onde  ainda tinha muito o que passar em ensinamentos e também muito a colher em aprendizado, que só a prática do exercício profissional oferece.

Desse casamento recebeu frutos sadios que também seguiram os passos do pai. Quatro filhos, todos Oftalmologistas: Guilherme Dolanda Paulo Filho (falecido), Rubem Dolanda Paulo Filho, Maria Heloisa Paulo Filho Carvalho e Maria Lúcia Paulo Filho Di Piero, além de um dos seis netos, que também seguiu a carreira dos pais e do avô: Eduardo Paulo Filho Di Piero.

Todos, ainda hoje, exercem suas atividades profissionais no "Centro de Estudos e Clínica de Olhos Paulo Filho", fundado em 1940, no Rio de Janeiro.

Credite-se a esse Centro, a passagem do Dr. Aylton Ferreira Costa, radicado em Garanhuns, que nele completou seus estudos especializados.

QUANTO VALE A NOSSA TERRA?

Vale tanto quanto o oxigênio que respiramos. E vai valer sempre mais, muito mais. Desde que tenhamos a preocupação de levantar dados, e trazer ao conhecido ponto da terra existe um garanhuense enaltecendo nosso pedaço. Enriquecendo nossa imagem e luzindo nossas cores, com atividades das mais nobilitantes. O professor Antonio Paulo Miranda é um dos grandes referenciais dessa força mística, que só o garanhuense nato carrega no sangue, na alma, na cabeça, no coração.

Texto transcrito do jornal O Monitor de agosto de 1993.

Foto: Antonio Paulo de Miranda Filho.

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