sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

História de Garanhuns

OS FILHOS DE MINERVINO APOLINÁRIO DE ARAÚJO - Mesmo quando Seu Minervino construiu a nova residência na rua Dom José, e o meu pai comprou e reformou, à sombra das duas palmeiras imperiais, defronte da antiga feira dos passarinhos, a casa que teve o número 485 na principal avenida da cidade todos nós, os meninos que habitavam os fundos de lojas dos nossos pais continuamos companheiros na frequência com que nos encontrávamos, tanto nos estudos como nas brincadeiras que marcaram a nossa infância e adolescência.

Dona Eudócia e Seu Minervino Apolinário de Araújo formaram um casal que engrandeceu a família social de Garanhuns, na austeridade e no exemplo legado à numerosa prole, que conviveu durante bons anos comigo e os meus irmãos.

Zezé, Zé Maria, Fernando, Sílvio, Edson, Mauro, Nauro e a prendada Creuza, contracenavam comigo, Miriam, Marlene, Rildo, Ronaldo e Marluce, à época em que eles era oito e nós, nos folguedos que tinham como palco as calçadas da grande avenida e da rua Santos Dumont.

As meninas desfilavam com suas bruxas de pano e bonecas de celuloide, que chamavam de calungas, e visitavam-se entre si nos cozinhados que faziam nos quintais, fundos das lojas dos nossos pais, onde também encenavam peças de teatro, adaptado no improvisado palco histórias que lhes contavam as respectivas amas, denominação que era dada às empregadas de companhia.

Os meninos apostavam carreiras de velocípedes, carrinhos de rolimã e patinetes, jogavam futebol e brincavam de barra-bandeira, jogo de castanhas e de chimbre, brincadeiras que hoje em dia os meninos já não brincam mais.

Lembro Fernando, que criava pombos, dizendo-os de raça e de briga e, quantas vezes, levava-os, de asas aparadas, para competir com os meus em caixão de sabão feito rinha para as bulhas, nas quais apostávamos charutos de castanhola, espécie de bulbo de amendoeira, árvore que estava plantada por detrás das nossas casas, nos fundos de lojas na rua Santos Dumont.

Os meus irmãos Rildo e Ronaldo com Mauro e Nauro, lembro-me como se fosse hoje, faziam ligações telefônicas em aparelhos de caixas de fósforos vazias interligadas por barbantes feitos fios de comunicação; enquanto Sílvio, o mais comportado de todos nós, acompanhava à distância todas as peraltices, pois desde menino ajudava Seu Minervino no balcão de "Veneza Americana".

Minha mãe e dona Eudócia firmaram uma das amizades mais bonitas e edificantes, dentre as amizades que as senhoras da classe média, como hábito salutar de bom convívio, costumavam construir na nossa cidade, tornando Garanhuns uma grande família civilizada e social; assim como, Seu Minervino, Grão-Mestre da Loja Maçônica Mensageiros do Bem, à época, foi um dos maiores amigos e confidentes que o meu pai teve em  seus 73 anos de vida. Implicava com o velho Fausto, por este nunca haver interessado-se pelo jogo de gamão, em que ele era considerado mestre.

Nestas breves reminiscências, eu evoco Edson e Sílvio, que em ocasiões  diferentes estiveram comigo em São Paulo. O primeiro aqui residiu durante algum tempo, e a pensão em que ficou hospedado, na rua da Alegria, estava vizinha da minha casa, quando residi no bairro do Brás. Marxista por convicção inabalável. Edson, a exemplo de Rildo, defendia os cânones e os dogmas socialistas como redenção da humanidade. 

Com Sílvio, no encontro que tivemos em Cubatão, na casa de Nequinho e Creuza, eu pude constatar que permanece, na terceira idade, o mesmo ser humano que despontou na infância, bem comportado, inteligente, sisudo e responsável. 

*Rinaldo Souto Maior / Jornalista e historiador / São Paulo, 27 de Agosto de 1988.

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