sábado, 15 de janeiro de 2022

Jornalista Rossini de Azevedo Moura

José Hildeberto Martins*

Modelo de radialista, dono de uma das vozes mais agradáveis do Brasil, comparado a Cid Moreira, com quem junto trabalhou; cronista a nível de Armando Nogueira, companheiro seu também; na verdade, um exímio esgrimista das palavras. Um homem que, com simplicidade e sem fadiga, punha em prática os dons apurados que Deus lhe deu, como que tivesse uma clarabóia na cabeça, tão somente precisando de uma máquina de datilografia antiga para, com palavras tisnas, trançar, sempre de modo inovador, ideias multicoloridas. Parecia guardar consigo a medida exata da crônica e os cordames da poesia. Ébrio de emoção e talento, tragava fumaça no pito, sem se asfixiar, enquanto revezava água e café, levando a vida escrevendo, ora exercitando sua belo voz. Vivia regando palavras. Cansei de ver. Era um hábito cotidiano, enxertando tônicas agrupadas, poeta prosador que sempre foi. Mais um extraordinário profissional da Comunicação.

Rossini do serviço de antena, na cidade de Arcoverde, ao lado  de Paulo Cardoso, outro grande radialista, final de década de 40, quando o conheci. Rossini locutor esportivo da Rádio Difusora de Pesqueira, nos anos 50. Eu sempre estava seguindo o seu roteiro, guardadas as proporções, é claro. Lembro-me, ele narrando uma partida entre União Peixe x América F. C. do Recife, no Estádio Joaquim de Brito, em Pesqueira. Rossini da Rádio Bandeirantes (SP), Rossini, chefe das emissoras de rádio do interior de Pernambuco, pertencentes à empresa Jornal do Commercio.  Rossini Diretor de uma sucursal da Rede Globo em Caruaru, ex-diretor da antiga Rádio Difusora de Garanhuns, ex-diretor da Rádio Sete Colinas, ex-Diretor do Jornal O Monitor, época em que nos reencontramos e trabalhamos juntos por vários anos, na administração de Ivo Amaral, e, particularmente, bem depois, no mesmo jornal, sob a posse e direção do Doutor/Juiz de Direito, aposentado, Osman Benício de Holanda, onde continuamos, como sempre, em boa parceria e grande amizade.

"Grande Rossi", como eu o tratava particularmente. Às vezes, eu brincava, dizendo que ele fora o apresentador oficial de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, no nordeste, e ele sorria. E o foi de fato.

Formamos uma equipe inesquecível no Semanário O Monitor, ao lado de Adelson Costa Silva, Didi, José Américo, Leleto, Vavá, Everaldo Gonçalves, Cristina Moraes, somando-se ainda um grupo seleto de colaboradores como Dr. José Francisco (Advogado), David Lima, Ulisses Pinto (vice-diretor), Juracy Calado, Profª. Ivonita Guerra (Secretária), Antônio Edson de Araújo Lima (Cronista Esportivo), Raimundo Athanásio de Moraes, Dumuriê Vasconcelos, Lusitânia Gomes, Maviael Medeiros, Profª. Luzinete Laporte, Evanderly Felix da Costa...

Rossini, você nos surpreendeu. Viajou fora do combinado, como se diz. Pegou-nos no impedimento, aquém ou além, não sei dizer bem, da linha da vida. Mas, fantasiando, de longe, onde você estiver, certamente ao lado de Humberto de Moraes, você e ele, mandem-nos sempre um alô, enviando também seus artigos, suas crônicas geniais, pois haverá em toda edição, como de costume, um espaço, uma página inteira, quanto vocês quiserem, para sus trabalhos no nosso jornal, O Monitor, e que tanto você, em especial, dignificou participando da história de Garanhuns, com verdadeiros petardos jornalísticos, ora elogiando, ora, com maestria, analisando com imparcialidade os fatos, revelando a verdade contra todo tipo de empecilhos sempre de modo bem abalizado.

Para mim, particularmente, você não partiu. Sua figura vai estar sempre presente pelo resto dos anos, em contato com o aroma dos tipos, com a tabela de cíceros, com os dedos sobre teclados, ao nosso lado, compondo seus artigos; ou, então, de outra forma, ouvindo os clássicos, nas horas de lazer, como Strauss, Choupin, Bach, Mozart, Rossini, Thaicovisk, velho costume seu. Sua voz  inconfundível, estou convicto, estará sempre a ecoar no éter, em anúncios de propagandas pelas ruas de Garanhuns. Quem de  sensibilidade poderá ouvi-lo.

Muito Obrigado pela apoio, pela confiança de ter-me confiado fazer os editoriais, quando junto trabalhamos. Você dizia que eu tinha um punho firme, que era meu fã. Foi muito importante ter sido escolhido por você para desempenhar a função de Editor e, logo após, por você mesmo ter me apontado para lhe substituir como Diretor, embora reconhecendo a distância de talento, do patamar bem mais elevado em que você sempre se postou. Mas vou continuar me espelhando em você. Creio que não terei outra saída, nem quero. Adeus, portanto, grande amigo. No seu recolhimento a Deus, o reconhecimento pelo seu incansável labor. Que tenha você quieto sono, com despertar glorioso um dia nas mansões celestiais.

Rossini Azevedo Moura, nasceu em 1931 na então Rio Branco (Arcoverde), e faleceu em 6 de julho de 2011.

*Escritor, poeta, cronista e professor

Foto: Rossini de Azevedo Moura.

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