quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Juracy Leal Calado - Colégio Santa Sofia do meu tempo

Em 1930 meu pai era juiz em Pedra - PE e daí o internato dessa menina na Academia Santa Gertrudes, Olinda, onde aos 13 anos prestara exame da Admissão, - um pequeno Vestibular, sem as facilidades de hoje. "Vocês vão estudar em outro colégio; fui removido pra Palmeira (hoje Palmeirina), e vamos morar em Garanhuns onde há bons colégios".

O trem apitava no corte sem vontade de parar, anunciando que finalmente a "rampa" fôra vencida, o que se notava pelo resfolegar mais calmo da máquina, uma "maria fumaça" que bem podia ser chamada de "maria faísca" pois suas fagulhas queimavam a roupa da gente.

O coração batia acelerado. "Tá perto papai?" - "O que sei é que a cidade fica no alto da serra".

Joelhos no banco, cabeça fora da janela; deslumbrava a beleza da paisagem abrangente que já recebia o visitante com seu acolhedor abraço. De repente, um bosque de eucaliptos e casas começaram a "passar" e com rápido apito o trem foi parando... avisando que a viagem termina aqui: GARANHUNS.

Era fevereiro de 1931.

As aulas começariam em março de segunda a sábado, no horário de 7:30 às 11:40 e das 13:30 às 16:40. E logo chegou o grande dia. As externas esperavam no jardim o toque do sino do colégio para entrar na fila para a ginástica que no inverno era no salão de recreio, junto ao de estudo e festa.

A fila, pelo tamanho, tinha Helena Martorelli à frente seguida por Diva Medeiros, Juracy Leal e Argentina Valença, tão pequenas eram as primeiranistas do Curso Normal.

O Colégio, (construído no local do antigo cemitério e que algumas internas mais revoltadas diziam aparecer fantasma...), o mesmo de hoje, com as mesmas salas de aula, corredores e o parlatório muito alinhado. Exceto a quadra e as outras construções novas.

As internas eram muitas, vindas de Maceió, São José da Lage, Recife, etc., e não podiam falar com as externas para não mandar recado ou carta para namorado, usavam um avental bege sobre a farda e, às refeições só falavam francês como a Sta. Gertrudes, alemão.

As freiras usavam uma touca branca frisada sob o véu preto, diferente do "papo branco" das beneditinas; e carregavam consigo um objeto pequeno de madeira com mola e uma espécie de gatilho que acionado, dava um discreto "TEK" que as alunas traduziam como: - andar - parar - devagar - etc. Era o "Sinal".

Na hora do lanche das internas, e como às externas era proibido lanchar, íamos em fila e em silêncio, acompanhadas de uma freira, para o "PASSEIO" em volta das mangueiras, estudando, lendo ou "rezando", e era aí que as almas mais engraçadas nos mostravam o terço e bem piedosas imitavam as freiras, e aí ninguém se continha e lá vinha "bronca".

Na volta do "passeio", e já famintas, fazíamos questão de não entender o "sinal" e seus teks; quando era para andar umas paravam, outras empurravam e era um tek tek daqueles e pra variar um castiguinho... Aos sábados levávamos pitomba pra classe e na segunda-feira já viu... a classe toda de castigo: a "ma soeur" encontrava as cascas na cesta de papel (hoje lixo).

Ao passar por qualquer freira devíamos curvar a cabeça em sinal de reverência.

Na festa do colégio ainda usava-se o vestido branco de pregas, a faixa vermelha de 10 centímetros de largura, meias e sapatos brancos; mas o laço no cabelo já havia saído de moda.

Desfilar? Nem pensar; por muito favor no dia 7 de setembro, formávamos na calçada, só as externas, com Mme. Verônica nos nossos calcanhares, e a ordem expressa de não olhar para os rapazes; mas quando o Tiro de Guerra 45 ia passando e alguma "arriscava o olho"... era um Deus nos acuda...

Havia alunas que estudavam "sem gola"; não fizeram o Admissão, e não assistiam todas as aulas, não tinham compromisso, e também não se formavam. O fato do "sem gola" era a diferença das outras que sobre a farda usavam uma gola tipo marinheiro, gravata, punhos e cinto azul com um galão branco indicativo do ano que cursavam.

A superiora era Mme. Maria Inês ainda; a Mestra Geral, Mme. Verônica Aguiar, que também lecionava Português, muito enérgica e temida por todas; Mme. Flore, belga, ensinava com muita competência Francês e Inglês; Mme. Georgina, Aritmética; Leopoldina Álgebra e Geometria; Beatris, que muita gente conheceu, flores e modelagem; Mariana trabalhos manuais, bordados etc.; e, Maria Pia, de desenho e ginástica; e acreditem se quiser, mas a ginástica constava de quase todos os exercícios de hoje: aquecimento, musculação, sueca e jogos, que fazíamos com a mesma farda das aulas e sem Mme. Maria Pia sair do seu lugar, explicando "de boca", e sem um gesto sequer, só acionado o bendito "sinal" um - dois - três - quatro - e corrigindo quem errava, chamando  pelo número da aluna.

Os professores eram pessoas de gabarito e respeito, pois em 1931, só entrava no colégio os pais das alunas; irmão?, primo? nem pensar!

Dr. Mário Matos lecionava Física, Química, Zoologia e Botânica; D. Arlinda Valença, Geografia e Cosmografia; D. Lourdes Brasileiro, História Universal e do Brasil; D. Maria Valois, Música e Orfeão; e, Pe. Godóy, Apologética, e também ensaiou com as externas a Missa de Angeli que cantamos na Festa de Santo Antônio, na catedral, oficiada pelo bispo D. Manoel Antônio de Paiva.

Desses comentários saudoso, uma homenagem à Mme. Camila, ainda recebendo a gente aí no colégio. Ensinava à minha irmã, na 3ª classe primária.

Das 25 primeiranistas normalistas de 1931, formaram-se 15 em 1935 - no Santa Sofia com o 1º quadro em madeira no formato de estrela. Eram: Almira Pereira - Oradora, Ana Luisa Callou, Antonia Souto Siqueira, Argentina Valença, Diva Alves, Diva Gonçalves de Medeiros, Eunice Valença, Helena Martorelli, Helena Miranda, Irene Andrade, Irene Brederodes, Letícia Luna, Maria José Barros Correia, Marina Xavier de Freitas, e Marole Maciel; formando a 1ª turma do colégio.

Também colaram grau nessa turma Maria de Lourdes Gaspar da Silva e Maria do Carmo Maciel por reprovação em outra turma.

Na Escola Normal Oficial do Recife terminaram o curso: Cleonice Travassos, Iracy Costa, Josefa Simões, Juracy de Miranda Leal, Valdenice Borges Pereira e Yonísia Ypirapoan Ubaitá.

O hino não era ainda o de hoje; e nas reuniões cantávamos uma marcha: "A Normalista" - "O trabalho que mais nobilita / E a esperança mais viva nos traz / É aquele que gera e suscita / A energia de um povo capaz..." - Estribilho: "Companheiras olhai pra o futuro, cada uma de nós deve ser / De crianças um guia seguro na jornada / Da luz do saber / Pois se a Pátria querida confia / Na grandeza da nossa missão / Propaguemos com fé e alegria/ Os milagres que faz a Instrução /  É mister ensinar dando exemplo / Da coragem, do amor e do bem / Transformemos a escola num templo / E sejamos exemplos também" - Estribilho.

O Colégio Santa Sofia, 80 anos de Educação e Instrução; a quantas gerações?... Em 1958 a minha 1ª filha recebia seu anel de formatura, assim como as cinco seguintes; apenas as outras quatro não fizeram o pedagógico, graças a Deus e ao Santa Sofia.

Alguns anos depois voltava ao Colégio a antiga normalista, desta vez para ensinar... E o Colégio, sempre solícito, recebia de braços abertos suas antigas e "santas" alunas...

*Juracy Leal Calado / Garanhuns, 15 de Agosto de 1992.

Foto: Juracy Leal Calado.

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