quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Lampião em Serrinha do Catimbau em 1935


20 de julho de 1935. Na Vila de Serrinha do Catimbau (hoje Paranatama), 27 km a sudoeste da sede municipal de Garanhuns, a craviuna, sibilante e cortante, mantinha  seus habitantes, enrolados em cobertores e nos braços tranquilos de Morfeu. Somente um, o comissário Inácio Bezerra, porque autoridade policial, cula pele era preferentemente visada, se mantinha de olho aberto, preocupado com as notícias de Lampião por aquelas bandas próximas. No instante momento, duas da madrugada, em que soube de Lampião caminhando na direção da vila, foi acordar o escrivão Manuel Pereira dos Santos, a fim de consertarem os meios de defesa. A bem dizer não havia armas de cano longo, apenas um rifle e quatro balas! A solução seria a diplomacia fingida.

Acordaram todos os moradores que, de logo, e de todo modo, no sobrosso, abandonaram a rua, embrenhando-se no mato. O inspetor de quarteirão fugiu para Garanhuns, onde se comunicou com o delegado, que enviou, de imediato, um cabo e três soldados. A família do investigador de polícia, Oséias dos Anjos, ali residente, também fugiu de caatinga a dentro. Ficaram somente quatro, entre eles o comissário e o escrivão.

Lampião estava acompanhado de Maria Bonita, Maria Ema, Medalha, Fortaleza, Juriti, Moita Braba e Gato, estiveram no dia anterior, sexta-feira, no Sítio Azevém, distante cerca de uma légua de Serrinha,  assaltaram a casa e bodega do casal Zé Basílio e Maria Gracinda da Conceição (D. Branca), mãe de um menino de oito meses e grávida do seu segundo filho e estupraram as duas irmãs do dono da casa: Antônia e Josefa. Do Azevém os cabras foram para o Sítio Queimada do André, onde assassinaram o idoso José Gomes.

Com os galos amiudando, ou seja, 4 da madrugada, chegou o grupo montado a cavalo. Avistando os quatro homens na boca da rua, um dos cabras gritou:

- "Não se altere ninguém!"

Eles responderam:

- "Estamos calmos".

Desapeiaram-se. Seis homens e duas mulheres.

Um deles avançou calmamente:

- "Eu sou Lampião. Já me esperavam? Como vai isso aqui? Tem gente armada?"

Falsamente humildes, responderam os quatro, admirando o número tão reduzido do grupo, quem nem polícia, nem gente armada havia.

- "Quero fazer negócio na calma - disse Lampião - quero ir na casa do chefe João Cacheado" (João Marques).

- "Não está", responderam, a uníssono, os quatro.

E explicaram que todo o povo tinha fugido. As casas estavam vazias.

Entre desconfiado e meio agastado, fazendo um largo gesto de chamada com o braço acompanhado de inclinação da cabeça para o lado, ordenou Lampião aos seus:

- "Vamos, então, na casa de Chiquito" (Francisco das Chagas).

Inadvertidamente deixando aqueles quatro de aparência tão simplória, partiu Lampião, com seu grupo, rua adentro, a passos largos.

Aproveitando esse momento entraram os quatro numa casa previamente determinada.

Inda bem Lampião acabara de bater duas ou três vezes na porta da casa vazia de Chiquito, ao mesmo tempos que outros já se dispunham a arrombar a venda de Manuel Pedro, da casa, onde entraram os quatro, partiram tiros disparados nervosamente, atingindo o grupo pelas costas.

No meio dos estampidos, o grito angustiado de Maria Bonita:

- "Me mataram! Me acuda, Virgulino!"...

Enquanto os cabras, com incrível rapidez, se apragatavam no chão e mandavam cumandita de bala, os quatro na confusão, desembestaram, pelos fundos da casa em que estavam, numa carreira louca, fugindo por dentro da caatinga.

Lampião mais preocupado com a sua Santinha do que com uma desforra e mesmo desconfiando do que poderia estar por trás do silêncio daquela vila de portas e janelas fechadas, resolveu retirar-se de imediato.

Feridos, levemente, de raspão, um cabra e  a outra mulher, Maria Ema. Quanto à sua amada não pudera Lampião verificar ainda a natureza do ferimento, que, no entanto, dentro do município de sua afeição por ela, lhe parecia grave.

Tomando Santinha nos seus braços, Lampião cercado pelo grupo lhe dando cobertura, armas aperradas, bala na agulha, saiu ligeiro pelo lado oposto donde vieram os tiros. Aí, na ponta da rua, acomodou Santinha numa rede espichada num pau de carregar e seguiu, de a pé mesmo, deixando os animais de montaria, arreiados, lá na outra extremidade da vila. Ficaram, no meio da rua, uma capa e um cachorro morto, pertencente ao grupo.

Chegando na casa do finado Zé Gomes, na Queimada do André, encontrou Lampião várias pessoas guardando o cadáver e aguardando a hora de começar a reza-de-defunto. Chamou alguns homens para conduzir a rede, de vez que precisava ele com os seus cabras estarem livres para quaisquer emergências. Nesse momento, Maria Bonita botou sangue pelo ferimento várias vezes. Hemorragia, de certo, provocada pelo embalo sacudido da rede durante a marcha puxada. Conseguiu Lampião deter o sangue com chumaços de gaze limpa aplicada e apertada na ferida.

No meio do caminho, Lampião ia comentando:

- Traiçoeiros! Covardes! é por isso que não vale a pena tratar bem essa gente. Somente o povo de Serrinha e Mossoró me fizeram careta. Sendo que Mossoró tinha homens, mas em Serrinha somente covardes. Isto vai custar caro".

Depois de alguns passos, parou e disse alto, o cenho franzido de indignação, para um dos carregadores da rede:

- Diga àqueles papa-favas de Serrinha que vou mandar chamar Corisco e que ele reúna todos os meus cabras. Então volto à Serrinha e eu juro que deixo a vila reduzida a um montão de terra e numa légua em redor não escapa nem pagão. A minha vingança será sem limite. Os patifes Mané Ferreira e Zé Birunga vão ajustar contas comigo".

Torceu Lampião à esquerda na direção da Serra do Ermitão, onde foi cercado pela polícia já no seu encalço. Furou o cerco e prosseguiu para o Sacão, fazenda de Zé Augusto Pinto, possuidor da maior criação de caprinos de Pernambuco. Logo depois chegou aí a força do sargento Percílio, que se negou atender à insinuação de alguns civis de continuar na persiga.

Sempre subindo em diagonal mandou Lampião todos calçassem as especiais apragatas peludas "viradas", isto é, o bico no calcanhar e vice-versa, a modo de moldar os rastos em contramarcha enquanto um tal de João Coxo, caminhando no coice, se incumbia de apagar, com uma vassoura de mato, outros mínimos vestígios deixados.

Em lagoa, junto à Cacimba Nova, escolheu quatro dentre os carregadores da rede, despedindo os demais, aos quais pagou regiamente a importância de cento e cinquenta mil réis.

Novamente cercado pelas forças do capitão Calmon e do tenente José Jardim, no momento em que Mário Lira, com quinze homens armados, conduzia mantimentos para a soldadesca. Ocasião em que, por um tico, não foi Lampião encontrado. De fato, escondera-se ele com os seus no meio duma caatinga fechada. A rede, com Maria Bonita, colocada no chão, mais atrás, por segurança. Todos agachados com as armas engatilhadas, prontos para fazerem fogo, mas só se as forças o fizessem primeiro. No caso, os carregadores, deitados na frente para não traírem com algum sinal, seriam os primeiros sacrificados. E nesta posição todos puderam, a respiração presa e o olhar aguçado, numa ansiosa situação entre a vida e a morte, assistir a passagem das tropas farejando, vasculhando...

Mais para cima, no Riacho do Saco, o encontro, por acaso, de um rancho de mato, com vestígios de sangue no seu interior, deu a pista à polícia do rumo tomado por Lampião - a Serra do Tará. Fonte: Livro Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado do escritor Frederico Bezerra Maciel - Foi mantida a grafia da época.

Fotos: (1) - Lampião esteve nessa casa, no Sítio Queimada do André - Créditos da foto: Blog Capoeiras / (2) - Maria Gracinda da Conceição (D. Branca) - Créditos da foto: http://www.wellingtonfreitas.com / (3) - José Gomes Bezerra, assassinado pelo bando de Lampião - Créditos da foto: Blog Capoeiras / (4) - João Caxeado, um dos defensores de Serrinha do Catimbau - Créditos da foto: http://cariricangaco.blogspot.com

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