sábado, 8 de janeiro de 2022

Lembranças do escritor Luís Jardim

Josué Montello*

Primeiro imaginei a tristeza de meu velho amigo José Olímpio ao receber a notícia da morte de Luís Jardim. Depois consolei-me, de mim para mim: o admirável, o irradiante Luís Jardim, nos últimos anos, já se ia retirando gradativamente da  vida, de modo que a morte, para ele, foi mesmo o grande silêncio, na ausência absoluta.

Disse-me outro amigo, amigo de Luís Jardim: " Na missa de sétimo dia, doeu-me verificar que não havia escritores".

E a verdade é que esse autodidata, da família de Humberto de Campos, da família de Machado de Assis, no porfiado esforço para realizar-se, independentemente de títulos e diplomas, era mesmo um companheiro, e dos mais lúcidos e competentes. Fez a sua casa com as pedras que ele próprio foi buscar na pedreira. E amassou o barro e o cimento para lhe erguer as paredes. Por fim, pintou-a; deu-lhe vida.


Já era hora de retirar-se. Retirar para a casa de campo que lhe restituía o verde e a paz do chão natal, longe, em Pernambuco.

A história do querido Luís Jardim, para ser bem contada, tem de conter três elementos: a história do escritor, que deu por si escrevendo; a história do desenhista insigne, que tinha a leveza de traço de  J. Carlos e de Perce Lau; por fim, o técnico da elaboração material do livro e que  fez, durante meio século, os livros de todos nós.

Diagramava o texto, escolhia o tipo, desenhava as capitulares, defronte do Daniel Pereira, que sempre acudia com a sugestão oportuna, adequada e necessária, e rematava tudo isso com um retratinho de Drummond, de Bandeira, de Afonso Arinos, de Gilberto Freyre, caprichado, retocado, sempre com um ar juvenil que encantava os retratados.

Foi por volta de 1938, se bem me recordo, que o conheci, na sala de visita de todos nós - a Livraria José Olímpio, no bom tempo em que os escritores, além de lerem os livros, era nas livrarias que se encontravam. Defronte, o saldo da  Garnier transformando em Briguiet, ainda  com o ruído dos passos de Machado de Assis nos ladrilhos do chão.

Em redor, livros. Adiante, livros. Livros estrangeiros nas calçadas, ali no Largo da Carioca, novinhos, em pilhas. E as duas vitrinas laterais da José Olímpio a se abrirem para as novidades da casa, acendendo um sonho na cabeça dos que  chegavam:

- Quando um livro meu ali?

Luís Jardim impunha-se a todos nós  pela elegância. Dizia Pittigrilli - se é que  me permitem citar Pittigrilli - que a elegância é uma questão de esqueleto. É, José Lins do Rego tinha o porte alto e forte, mas não era elegante. Graciliano, também. Em Gastão Crusl, alto, esguio, não se sabia bem se era a piteira do cigarro que imitava o dono ou se era o dono que imitava a piteira, tão parecidos eram os dois.

Nosso Luís Jardim, entretanto, parecia trazer consigo uns restos boêmios de tango argentino. O cabelo liso caía-lhe para  as orelhas, por baixo da aba do chapéu de feltro, sempre com a roupa bem caída, e era requintado nas conversas e nos  gestos, por instinto, por impulso, como se  houvesse passado o melhor da vida nas  calçadas de Paris ou de Londres - exibindo-se. Na verdade, viera do interior de Pernambuco, e entrara pela porta estreita de um balcão de loja, acumulando vivências que transformaria em obras de arte, que como desenhista, quer como escritor.

Há criaturas que atravessam a vida cobrando a conta de suas vicissitudes aos  contemporâneos. Sobretudo aos contemporâneos que abriram melhor espaço na  luta por essa mesma vida.

Luís Jardim, não. Ele próprio pagou os débitos de seus dissabores. Sem dar  a ninguém a sensação de que os pagava. Risonho. Afável. Contando anedotas. Com um talento excepcional para viver o papel alheio, imitando a voz, o gesto, o andar, como se o seu ofício fosse mesmo arremedar os outros, gostosamente, sem maldade, qualquer coisa que poderíamos definir como a caricatura pela caricatura.

Uma tarde, atravessando o Largo da Carioca, vinha ele de bengala, caminhando devagar. Observei-lhe:

- Você, sem bengala, já era elegante. Agora, com ela, não é mais elegância, é exagero.

E ele, se desculpando-se:

- Não, não é. É a inflamação de um músculo da perna. Estou andando com dificuldade.

Sugeri-lhe o guarda-chuva, com a cobertura bem enrolada no cabo, e o mesmo efeito prático.

Recusou. A humanidade, para ele, se dividia em dois grandes grupos: um grupo tinha nascido para andar de guarda-chuva; outro, para não andar de guarda-chuva. Pertencia ao primeiro. Ele, de guarda-chuva, em lugar de abrigar-se, molhava-se todo. Seria um desastre.

Nunca tirei a limpo a convicção. Pareceu-me ver sempre Luís Jardim nos  dias de sol, disponível, aberto à concórdia, risonho, do começo ao fim da vida, mesmo na hora em que, faltando os contemporâneos de nosso afeto, temos a compenetração de que muito de nós também se foi com eles levado de roldão pela mesma voragem.

Estou certo de que ninguém guardará de Luís Jardim uma lembrança má ou pesarosa. Foi a primeira pessoa a identificar, para mim, em Gilberto Freyre, um ar de pastor protestante. Tem. De pastor protestante educado em Oxford, íntimo de Deus. Andando como se elevasse a Bíblia junto do peito.

A outro de nossos amigos, que alargava o passo, caminhando, e com isto subia e descia a cabeça, crescendo ou diminuindo de tamanho, chamava de urubu de roupa clara proibido de voar.

Tendo saído vitorioso, com um livro de contos, Maria Perigosa, no concurso a que também se submetera Guimarães Rosa, com Sagarana, Luís Jardim trouxe consigo, ao longo da vida, o pudor de seu triunfo. Na verdade, era também um excelente escritor, mais perto de Monteiro Lobato, como narrador agilíssimo, do que Alberto Rangel, como pesquisador de novas formas de expressão narrativa.

Rosa, mais perto dos professores e dos estudantes, de pronto o suplantou, numa corrida em que foi a vida que os impulsionou. Foram amigos. E cada qual seguiu seu caminho, realizando uma obra. A explicação não cabia a nenhum dos dois - cabia aos seus juízes se explicaram, sem diminuir o merecimento e a importância de Luís Jardim.

Antigamente, no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, as gerações mais antigas dispunham de um espaço físico para  se encontrar. Hoje, ao que suponho, não é mais assim. Reúnem-se os moços, reúnem-se os veteranos, em espaços desencontrados. Talvez seja por isso que não se entendam. E é preciso que se entendam? À vezes. Porque a regra é mesmo o litígio. 

Luís Jardim não participaria da polêmica. Nasceu para ser traço de união. Ah, se vocês soubessem o que perderam, sem o conhecer. Era um companheiro exemplar. Aligeirava o passar das horas. Não punha maldades nas vidas alheias. Não há de ter sido por outro motivo que  escolheu São Francisco para tema de um livro. E a infância de Jesus, para outro.

*Jornalista, professor, teatrólogo e escritor brasileiro.

Fonte: Jornal O Monitor / 6 de Junho de 1987. Transcrito do "Jornal do Brasil", Rio de Janeiro

Foto: (1) - Josué Montello. Créditos da foto: www.oimparcial.com.br (2) - Luís Jardim entre amigos (3) - Luís Jardim.

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