sábado, 1 de janeiro de 2022

Liberdade

Dr. José Francisco de Souza*

Tipo Popular de Garanhuns - Aparecera com o mesmo aspecto e indumentária dos outros tipos populares. Parecia que jamais conhecera qualquer carinho humano. O ambiente em que vivera lhe foi muito hostil. O desconforto constituía a sua condição de ser humano. Não tinha residência. Trouxera consigo o destino  de pernoitar pelas ruas sujas de nossa cidade, de então. Alimentava-se das sobras de comidas jogadas ao lixo. Assim conseguia enganar o estômago torturado pela fome voraz. Tudo lhe fora mesquinho, de grande só conhecia a necessidade. Não o sabemos a quem atribuía tamanha desventura. Seu coração estava purificado pelo sofrimento.  Quando  lhe indagava a sua origem, mostrava-se visivelmente contrariado. Portador de algo misterioso não gostava de quem tentasse desvendá-lo. 

O homem é o rei da criação é um fim em si mesmo. Descobrir a sua criagem e seu destino, é querer penetrar nos arcanos do universo hominal. Esses comentários lhe davam ares de um sujeito a quem a miséria ensinara a sabedoria da vida. Infundia certo respeito como se a sua personalidade fosse produto do meio ambiente. E determinasse as suas atitudes. Seu tipo era de um sujeito apresentável estatura regular, cor branca e macerada, olhos tristes e sombrias. Fronte calva e ativa de quem estava conformado com a sua desventura. Tinha uns conceitos próprios a respeito das coisas e dos homens.

Não gostava dos grandes, dos chamados novos ricos, dos novatos da riqueza como o denominava essa turma de endinheirados. Dizia que essa qualidade de gente era muito besta e prepotente.  Coerente com os princípios de filosofia, considerava-se irmão no sofrimento de todos os miseráveis que perambulavam pela terra. Aqui, chegara sem se saber de onde nem quando. Surgira de surpresa como todas as madrugadas para os que dormem. Seu verdadeiro nome era ignorado. Chamavam-no de "Liberdade". Talvez pelo hábito de dizer: "Eu não dou e nem quero liberdade com ninguém". Como se vê a palavra liberdade para ele possuía um sentido especial. Representava algo imprestável pelo uso de tantas promessas fementidas feitas em seu nome. Por isso quando alguém dele se aproximava: dizia logo - "Vai rapaz pra lá quem te chamou aqui não sabes que não dou e nem quero liberdade".

Era uma maneira toda especial de evitar o contrário asqueroso dos que tripudiam por sobre o cadáver da miséria humana. Não lhe seduziam as aproximações com pessoas ou coisas do ambiente indiscreto das ruas e das praças. A praça é do povo e o povo era ele e mais ninguém. "Liberdade... Liberdade... "Abre as asas sobre nós...".

Não... Não gostava desse pensamento do poeta condoeiro. Preferia sempre viver em contato com a terra escaldante dos caminhos escuros de sua vida atribulada. Durante o tempo que aqui passara jamais  o vimos trabalhando. Era como os capitalistas de todo mundo não tinha profissão. Vivia  da multiplicação das suas próprias misérias. Assim liberdade apenas ocupava um corpo no espaço e nada mais.

Num dia cheio de sol, quando desfilava pela Avenida Santo Antônio, na tradicional procissão do "dia de ano" o corpo de "Liberdade" fora encontrado morto, dentro de um botequim de palha de coqueiro verde. Desprezado como vivera e lá passou até o dia seguinte quando foi jogado esse resto de amargura, num esquife de terceira. Levado para o cemitério local, onde repousa entre outros que foram mais felizes do que ele na vida mas que tiveram o mesmo destino na morte.

*Advogado, cronista, historiador e jornalista / Garanhuns, 05 de Junho de 1982.

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