quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Nossa cultura... Nossas esperanças...

Dr. Aurélio Muniz Freire*

Há uma necessidade imperiosa, em nossos dias, dirigida à reformulação de certos padrões de nossa cultura, sob pena de caminharmos para consequências altamente funestas. Referimo-nos à excessiva tolerância social ao quanto exibimos de males, carreando, quase que num processo inconsciente e coletivo, a soma de desiquilíbrios e de frustações ao nosso mundo. Tal conduta agrava sobremodo a infância e a juventude do nosso tempo.

A cada início de um novo ano, como sempre, renovamos nossas esperanças. Também, sinceramente, desejamos que todos realizem suas aspirações e seus sonhos, os mais justos. Na verdade, o Natal e Dia da Fraternidade  Universal deixam a humanidade mais desejosa de bons propósitos e de sadias realizações, deixando de lado o convencionalismo, os interesses mercantilistas e a hipocrisia de muitos, aceitamos que a maioria, nessa época, procede com sinceridade quando, para si e para os outros, formula os melhores votos de paz, ventura e prosperidade.

Se ficarmos apenas em tais votos e nada fizermos de prático, as esperanças se desfarão, os sonhos se tornarão mentiras, e o mundo continuará o mesmo. Esperanças que se transformam em longas esperas, desalentam, deprimem e afligem o homem e a humanidade. Se a paz desejada nesses dias prosseguisse no decorrer dos meses, pelo ano afora, outra poderia ser a psicosfera social. Haveria com certeza uma mudança individual e coletiva.

Vivemos a apresentar a nossos filhos um mundo de angústias, de tensões, de desequilíbrios, de guerras, de incompreensões, de crimes e de tantas misérias... Esses legados não poderão produzir bons frutos. A infância da nossa época e a juventude do nosso tempo já começam a nos julgar por nossas mentiras convencionais e até mesmo a não mais aceitar a nossa sinceridade, ainda que procuremos ser fiéis a princípios de uma ética superior de vida.

Se pensamos num desarmamento em favor da infância, primeiro tal conduta deveria atingir diretamente o adulto. Somos nós mesmos os responsáveis pela felicidade ou pela desventura das gerações que nos sucederão. Se vivemos no desamor, espalhando sofrimentos e disseminando a violência, como poderíamos desejar um mundo de paz e de ventura aos nosso filhos? Se damos mais ênfase e valor às nossas conquistas materiais que aos padrões ou valores da cultura espiritual, como poderíamos esperar que a natividade do Cristo ou  a fraternidade universal fossem uma constante entre os povos?

Antes de educarmos  a infância, convém que nos eduquemos. A educação, nos dias de hoje, deve ser primeiro dirigida a nós mesmos, como pais, para, depois, levarmos nossa contribuição aos filhos. Do contrário, seremos sempre cegos na condução de outros cegos. Nossos veículos de comunicação de massa aí estão para confirmar nossas palavras. A televisão, o cinema, antes de serem meios de educação ou de instrução, erigem-se quais grandes instrumentos da violência, do crime, da deseducação. Seus frutos estão em toda a parte, nos hospitais, nos manicômios, nas penitenciárias, em nossas casas, na sociedade.

Não exageramos nas tintas dos quadros que nos apresentam, porquanto educação é obra de amor. Se não tivermos amor, jamais poderemos oferecer compreensão, justiça, saúde, ordem, sinceridade, paz e verdade.

A felicidade é uma conquista interior, antes que ela se projete pelas coisas, pelos seres, pelo mundo.

Acalentemos os bons sonhos e as boas esperanças da infância, pois sempre é bom sonhar, mas façamos alguma coisa pelo desarmamento pessoal e coletivo, buscando, tanto quanto possível, viver aquela criança que um dia todos fomos.

*Jurista e escritor / Garanhuns, PE - 2011.

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